Não ao golpe e não ao governismo

O verdadeiro problema do golpe civil em curso não é a direita tomar o poder executivo federal – o legislativo já está em suas mãos – sem ter sido eleita, nem a perseguição político-midiático-judicial, contrária aos princípios básicos do estado de direito, contra uma única pessoa para torna-la inelegível e exconjurar seu possível retorno ao poder pelo voto democrático. Mesmo tudo isso sendo vergonhoso e atentando abertamente contra a democracia (estou falando da democracia liberal que todas as forças envolvidas neste jogo alegam assumir como pressuposto inquestionável, posto que democracia – algo bem diferente de um regime político representativo pluripartidário – não existe, nem aqui nem em qualquer outro lugar do mundo), se se tratasse apenas da tentativa das hostes históricas da Casa Grande de derrubar um partido atualmente indefensável, essa briga de poder entre forças não alinhadas com as demandas e aspirações da Senzala (uma porque encarna desde sempre os opressores, a outra porque se desviou das lutas dos oprimidos em nome de “pactos de governabilidade” aberrantes) não mereceria meu interesse, nem muito menos minha preocupação.

A verdadeira questão é outra: esse golpe não visa apenas derrubar o Partido dos Trabalhadores (PT) e impedir que possa voltar ao poder mais na frente, mas é parte de um plano mais amplo da Casa Grande para evitar que qualquer projeto popular tenha a mínima chance de voltar a governar o Brasil. O sequestro das instituições democráticas liberais e dos poderes da República, unido à histórica configuração oligopolista e anti-democrática do sistema das comunicações, vão nessa direção.

É por isso que o golpe precisa ser combatido: não para defender um projeto político desgastado e agonizante como o do PT, mas para garantir a possibilidade dentro da democracia liberal brasileira – enquanto esse regime não mudar para outro melhor, pelo menos – de que projetos políticos emancipatórios ainda possam governar o país.

Por isso, hoje eu digo não ao golpe; não a marchas contra a corrupção organizadas e protagonizadas por corruptos (sonegadores, evasores de divisas, recebedores/fornecedores de propinas, funcionários fantasmas de órgãos públicos, exploradores de trabalho escravo, etc.); não ao sequestro das instituições (Justiça, polícias, etc.) da democracia liberal – mesmo que não seja o melhor regime político possível e possa, aliás deva ser substituído por formas de democracia realmente participativas – por quadrilhas partidárias portadoras dos interesses da Casa Grande; não a uma mídia oligopolista e anti-democrática; não ao governismo; não ao binarismo que disfarça a aliança inaceitável entre ex-querda de governo e grande capital financeiro/corporativo, agronegócio latifundiário, mineração eco-genocida e um longo etcétera! E digo sim à reforma do sistema político, sim à participação popular na tomada de decisões públicas! A saída está embaixo e à esquerda.

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