Não deu zebra no Nobel

Por Sérgio Augusto
ESTADÃO

Na manhã de terça-feira, a cotação de Bob Dylan subiu repentinamente na já tradicional bolsa de apostas do Nobel de Literatura montada pela londrina Ladbrokes.com. Dylan passara o fim de semana rolando feito uma pedra na 58.ª posição, pagando 1 em 66, até que saltou para a quarta (1 em 10), atrás somente do poeta sírio Adonis (1 em 4), sempre firme na pole position, do afinal vencedor Tomas Tranströmer (1 em 7) e do romancista japonês Haruki Murakami (1 em 8).

Não dava para acreditar. Muito famoso e premiado, menos “politizado” ou polêmico do que em décadas passadas, mais visto como compositor do que como poeta, além do que americano – eram quase nulas as chances de Dylan. O sufrágio é livre no site da Ladbrokes, mas apenas 18 luminares têm direito a voto na Svenska Academien.

Embora o fiel pendesse para a poesia, sem vez no Nobel desde a vitória da polonesa Wislawa Szymborska há 15 anos, tampouco dava para acreditar que Ferreira Gullar, alçado na quarta-feira ao 50.º lugar, estivesse realmente no páreo. Nem ele nem o romancista português António Lobo Antunes, mais bem cotado (17.º) e frequente no sweepstake da Academia Sueca que o nosso poeta. A língua portuguesa continua um exotismo, aos olhos e ouvidos nórdicos, e a deferência a José Saramago, suspeita-se, não se repetirá tão cedo. Não bastasse, um latino-americano levou o Nobel de 2010.

Apesar das pressões, com direito a abaixo-assinado de intelectuais americanos dirigido ao Comitê do Nobel, Philip Roth uma vez mais dançou, para felicidade dos que lhe minimizam ou mesmo desprezam o talento, não sendo raros os que o acusam de sexista e misógino. Não estava nem entre os dez primeiros na bolsa de apostas, no início da semana. Carmen Callil deve estar festejando a vitória até agora. É aquela senhora que, em maio deste ano, retirou-se do júri do Man Booker Internacional por discordar do prêmio concedido a Roth.

Os americanos, que só venceram nove vezes e desde 1993 morrem na praia, sempre tiveram desafetos na Academia. Há três anos, seu secretário permanente, Horace Engdahl, tachou-os de excessivamente insulares, paroquiais e narcisistas. Pegou mal, mas sua substituição, meses depois, pelo historiador Peter Englund não parece ter alterado o antiamericanismo dos nobelistas, cujo maior defeito, aliás, não é apreciar de menos a literatura americana, mas apreciar demais as letras escandinavas.

A Escandinávia já levou a melhor 15 vezes; mais uma e empata com a França, ainda a campeã do Nobel de Literatura. Conheço mal e porcamente a poesia do sueco Tranströmer, assim mesmo nas traduções de Samuel Charters para o inglês, e não tenho a menor condição de questionar a lisura de sua escolha, nem a procedência dos adjetivos (transluzente, visionário, metafísico) com que a cumularam desde a década de 1960. Mas a improcedência de outros triunfos nórdicos sempre me cheirou a paroquialismo. Zebra, porém, não foi.

V.S. Pritchett comparou o Nobel a um mau casamento: da “megalomania de um grande homem de negócios” (Alfred Nobel) com os “escrúpulos de um comitê acadêmico”. Não faz sentido submeter a literatura a escrutínios, argumentava Pritchett, criador da expressão “Ignobel Prize”. Espinafrar o mais antigo e prestigioso prêmio literário do mundo tornou-se um passatempo tão corriqueiro e ocioso entre os intelectuais quanto debochar das premiações do Oscar entre os cinéfilos.

“Vale tantas e quantas coroas suecas, e nada mais”, desdenhou Otto Maria Carpeaux, em 1964, quando 273.000 coroas suecas já eram uma fortuna até para autores bons de vendagem como John Steinbeck, premiado dois anos antes, sem contar os benefícios indiretos: promoção gratuita, novos contratos, etc. Com a indústria de livros enfrentando a pior crise de sua história, os 10 milhões de coroas (ou US$1,5 milhão) ora ofertados ao vencedor abalam qualquer preconceito.

Alfred Nobel recomendou em testamento a preferência por autores cujas obras expressassem “uma tendência idealista”, vagueza conceitual interpretada de diversas formas pelos sucessivos comitês da Academia Sueca, depois substituída por outro critério, estabelecendo o primado da “qualidade literária e da importância cultural”. Por este critério, só um pouco menos vago que o anterior, o poetastro parnasiano francês Sully Proudhomme não teria ficado com o primeiro Nobel, em detrimento de Apollinaire e Paul Valéry.

Enquanto a “tendência idealista” balizou as escolhas, mais frequentemente estapafúrdias elas foram. Quando a Academia decidiu não conceder o prêmio em 1935, havia à sua disposição pelo menos oito potenciais candidatos: James Joyce, F. Scott Fitzgerald, E.M. Forster, Robert Frost, García Lorca, Karel Capek, Virginia Woolf e H. G. Wells. Sem contar os futuros vencedores Eugene O’Neill (no ano seguinte!), Gide, Eliot e Faulkner.

Ainda que a Academia às vezes patrocine a tradução de autores que se expressam em línguas obscuras, ajuda à beça já dispor de uma edição em sueco. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o chinês Gao Xingjian, premiado em 2000, pouco antes traduzido por Goran Malmqvist, sinólogo da Universidade de Estocolmo e, marota coincidência, jurado do Nobel. Difícil não acreditar que a opinião de um jurado possa influenciar os demais. O poeta e crítico literário Artur Lundkvist, eminência parda da Svenska Academie, boicotou ostensivamente a candidatura de Graham Greene, que morreu sem o galardão, em 1991, oito meses antes de Lundkvist. Mas só Greene, dizem, foi para o céu.

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