Não é sempre, mas acontece

NÃO É SEMPRE, MAS ACONTECE

Escrevi acima um dos versos que mais gosto de lembrar. É de Eugenio Montale. Gosto desse verso, ele fala das coisas raras e eu gosto das coisas raras, elas me dão uma sensação de sagrado. As coisas que não acontecem sempre, mas acontecem, sem “cerimônia ou maravilha”, e podem acontecer a qualquer momento. Poemas, por exemplo. Às vezes, os poemas acontecem, e não é sempre.

Às vezes eu faço poemas. Quero dizer, os poemas me fazem. Não é sempre, mas com eles aprendi algumas coisas. A proteger a sutileza com garras, portas e escuridões, mas nunca perdê-la. Os poemas têm um respeito espantado pelas coisas do mundo. Com eles aprendi a reverenciar o assombro.

Com os poemas aprendi a não temer (muito) esgarçar-me, puir-me. Aprendi a perder palavras para o mundo, sem estridência. Aprendi a não fazer incisivas afirmações, a não declarar nada de modo irreversível. Os poemas não prescindem de voltas e recomeços. Um poema de verdade se renova a cada leitura que fazemos dele.

Gostaria de fazer poemas como esses que se renovam a cada leitura. Como “A Gralha Negra em Tempo de Chuva”, de Sylvia Plath. Eu já li vezes sem conta, mas ultimamente tenho descoberto cada vez mais coisas nele. Esse poema tem sido a minha leitura mais desconcertante desafiante surpreendente.

Peço-vos, então, licença para transcrever “A Gralha Negra…” e desejo a vocês uma leitura tão assombrosa quanto a que faço cada vez que o encontro na “paisagem no interior dos meus olhos”:

“Lá no alto, num ramo firme/arqueia-se uma gralha negra toda molhada/arranjando e voltando a arranjar as penas à chuva./Não espero qualquer milagre/nem nada/que venha lançar fogo à paisagem/no interior dos meus olhos, nem procuro/mais no tempo inconstante qualquer desígnio/mas deixo as folhas manchadas cair conforme caem,/sem cerimônia ou maravilha./Embora – admito-o – deseje/ocasionalmente alguma resposta/do céu mudo, não posso honestamente queixar-me:/uma certa luz pode ainda/surgir incandescente/da mesa da cozinha ou da cadeira/como se um fogo celestial tornasse/seu, de um instante para outro, os mais estranhos objetos,/assim consagrando um intervalo/de outro modo inconseqüente/por nos dar grandeza e glória/ou até amor. De qualquer modo, caminho agora/atenta (pois isso poderia acontecer/mesmo nesta paisagem triste e arruinada); descrente,/mas astuta, ignorante/de que um anjo se decida a resplandecer/repentinamente a meu lado./Apenas sei que uma gralha/ordenando suas penas negras pode brilhar/de tal maneira que prenda a minha atenção, erga/as minhas pálpebras, e conceda/um breve repouso com medo/da neutralidade total. Com sorte/viajando teimosamente por esta estação/de fadiga, acabarei/por juntar um conjunto/de coisas. Os milagres acontecem/se gostares de invocar aqueles espasmódicos/gestos de luminosos milagres. A espera começou de novo,/a longa espera pelo anjo,/por essa rara, fortuita visita.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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