Não enterrem meu coração

Por François Silvestre
NO NOVO JORNAL

Donde vem essa retirante dor, camuflada de esperança, trazendo nas costas um matulão de perguntas?

Onde nasce essa nascente? Na sala da frente, no vão da cozinha ou num corredor do escuro?

Donde vem o uivo desse vento? Não é de nenhum morro do grande romance. É daqui mesmo; após driblar os galhos da oiticica, passar pelas frestas do mofumbal, entrar no escavado dos meus ouvidos e me fazer desassossegado.

Onde mora meu sossego fugitivo? Pronde foi a raspa de gamela tão adocicada que desenvelheceu aquele moleque e seus pinotes do açude? Onde canta a mãe-da-lua?

Donde vem a coragem de enfrentar os vigias das histórias? Talvez da escassez do talento de mimá-los com belos versos. Contar em trecho longo é valentia ou talento?

Onde foi parar meu senso de moderação, meu medo do ridículo, meu refúgio de inspiração? Talvez numa grota que as rugas da face escondem por trás da ribanceira da ousadia.

Donde chega e aparece a penada voz do espírito da noite? Que pena paga pelas beiradas do caminho que faz a minha ex-madrugada? Por que eu virei tarde ainda de manhã? O sofrimento não envelhece, apenas encurta a alegria da infância.

Onde se aposenta o vexame de amealhar? Quantas contas não pagas virão bater à minha soleira? Quem se veste dessa cor tão fria? Cansados olhos que mal distinguem nas brumas a variação dos cinzas.

Donde veio a confiança das amizades? Talvez da fuga de esconder-se da solidão. Quanto custa meia pataca de silêncio? Muito mais caro do que duas arroubas de barulho.

Onde mora a invenção da história, que pretende alugar minha paciência? Sem acerto antecipado do aluguel. Sem fiador de biografia testada.

Donde escorreu essa água suja de tantas lágrimas que vem enxovalhar o meu linho quase branco, amarfanhado com dobras do passado?

Onde se abanca o senhor das verdades, diluídas de descrédito? Na certeza de que ninguém o procurará. E aí ele arma sua rede para descansar as costelas que Adão esqueceu num baú inexistente.

Donde me chega esse cansaço? Não é da moradia de trabalho insano. Não. Talvez seja de uma latada esquecida pelos retirados das águas. Sim. Não é só a seca que retira. Há os que fogem do barro úmido, quase lembrança da lama.

Onde posso armar minha rede que de tanto alpendre desmoronado virou tipóia? Como posso me esconder por trás da penumbra dos meus olhos?

Donde vem essa roçadeira de podar certezas? Semeando dúvidas, de olho no nascente. Enquanto cava a terra e semeia pedaços de solidão. Sementes de ossos quebrados. Onde mora o vizinho da paciência? Há respostas prontas ou são todas perguntas escondidas? Té mais.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 22 de agosto de 2011 8:52

    beirando a poesia, François Silvestre.pra saborear, tomando café pilado em casa, no alpendre.

  2. Oreny Júnior 21 de agosto de 2011 12:35

    Caro, François
    Donde vem tanta beleza, em expressar tanto sentimento, principalmente quando leio dessa lonjura, de um tal Mato Grosso do Sul, com saudade do meu Rio Grande do Norte?
    Abraços

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo