Não leia

Charge de Vítor Teixeira

Passeando pelas estantes e gôndolas das livrarias – pelo menos as de grandes cadeias, que na maioria das cidades assassinaram os pequenos livreiros – nas seções de filosofia, política, ciências sociais, história e semelhantes quase só se encontram títulos de Olavo de Carvalho, Luiz Felipe Pondé, Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Rachel Sheherazade, Flávio Morgenstern et caterva, junto a pérolas de autores semi-desconhecidos – mas que vendem como pão saído do forno – quais “Mentiram para mim sobre o desarmamento”, “Em defesa do preconceito – A necessidade de se ter ideias preconcebidas”, entre outras (sem falar das obras revisionistas sobre a ditadura; aposto que em breve vão chegar títulos defendendo abertamente a sua volta).

A nova onda do mercado editorial – em que quanto mais misógino, homo e transfóbico, classista, defensor das armas, dos linchamentos, da “meritocracia” do papai bota a grana, etc. for um livro e quanto mais baixar o porrete, sem um vislumbre que seja de argumento, na esquerda, no feminismo, nos direitos LGBTs, nos pobres, nas políticas afirmativas e etc. mais vende – pôs irremediavelmente em cheque uma nossa antiga esperança: a de que ler ajudasse a criar sujeitos mais sensíveis, mais críticos, menos dogmáticos e identitários, enfim, mais abertos. Hoje, sabendo o que irá encontrar na maioria das estantes das livrarias, me dá medo aconselhar a um fascista que leia.

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