Não me convidem para jantar

Por Ronaldo Correia de Brito
NO TERRA MAGAZINE

No romance Guerra e Paz, de Tolstoi, os jantares da nobreza são servidos às três horas da madrugada. Se imaginarmos os dias curtos de inverno em Moscou e São Petersburgo, os nobres ociosos acordando às cinco da tarde, não há erro nenhum nesse costume. Difícil é imaginá-lo aqui no Brasil, sobretudo no nordeste, onde o sol costuma aparecer às cinco horas da manhã e já está insuportavelmente quente às sete.

Não compreendo essa mania de copiar os costumes que não têm nada a ver com nossa geografia e cultura. Os ingleses nos empurravam cobertores e tecidos de lã como o tropical, usados por eles no inverno e, por nós, em pleno calor. Os granfinos do Rio de Janeiro e Recife desfilavam numa temperatura superior a trinta graus, vestidos em paletós que mais pareciam saunas. Não se importavam de desidratar, desde que estivessem chiques.

Para quem precisa acordar cedo, qualquer refeição servida depois da meia noite é um transtorno. A menos que seja numa sexta-feira, ou num sábado. Porém é distinto chamar os amigos para jantar em casa e pedir que eles cheguem a partir das dez horas. Deviam consultar os convidados e se informar sobre seus hábitos alimentares e horários. Eu prefiro não comer nada após as oito horas e gosto de deitar-me às dez. Portanto, só me convidem para almoço e café da manhã.

Nas cidades grandes, as pessoas estão cada dia mais notívagas. E dormem cada vez menos. Deito-me para dormir no horário em que elas estão saindo para a noite. Curtir a madrugada, para mim, significa acordar às quatro horas ou cinco e começar a trabalhar. Há quem prefira o contrário, iniciar a jornada por volta da meia noite. Perfeito se for de férias para o Japão. Não terá problemas com o fuso horário.

Na casa dos meus pais, os horários das refeições eram bem estabelecidos. Eu aprecio a disciplina monástica, desde que não descambe para o exagero. Acho-a melhor do que a desordem das horas. As viagens sempre criam transtornos. Saio da rotina de trabalho, do escritório, da proximidade dos meus livros. Porém a cada dia os escritores precisam viajar mais. O enigma da esfinge da modernidade é esse: isolar-se e ser esquecido ou expor-se e ser tragado. Como o equilíbrio está na linha do centro, tento caminhar sempre por ela. Viajar e não perder o fio da criação é um desafio para aqueles que só conseguem criar nos seus espaços, seus fundos de oficina. Nem todo artista é Villa-Lobos, que compunha até em aviões.

Quem estabelece rotinas de trabalho é considerado careta ou portador de algum transtorno obsessivo compulsivo. Bach teria composto suas músicas se não tivesse uma disciplina rígida e vivesse em jantares nas residências de nobres? Certamente não.

Naquela época, mesmo os músicos do porte de Haydn entravam nos palácios pela porta dos fundos e comiam junto aos criados. Não havia o hábito deplorável de convidar artistas para dançar com adolescentes em festinhas de quinze anos. Felizmente, para tais eventos, só convidam cantores e atores da Globo. Escritores possuem cotação baixa nessa bolsa de valores. Graças a Deus.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo