Não, não temos burritos

Por Marcelo Coelho
FSP

O que mais se destaca nos filmes de José Joffily é o elogio do homem comum, do brasileiro de vida média

Seria difícil imaginar um americano mais típico. Loiro, vermelho, gorduchão, risonho. Usando uma camisa azul de abotoar de mangas curtas, ele parecia mal saber que tipo de país é o Brasil e que tipo de cidade é São Paulo.

Admite que seu principal prazer na vida consiste em comer até estourar. Sai pelo centro da cidade perguntando a um acompanhante local onde encontrar um prato célebre da culinária brasileira.

A saber, os “boolrwitos”. Seu interlocutor não sabe do que se trata. Ele capricha na pronúncia do espanhol. “Burritos?”, pergunta o brasileiro. “Yes, yes”, entusiasma-se o gringo. Poderiam responder-lhe que “não, não temos burritos”; no máximo, bananas.

Mas a cena para por aí mesmo, e o filme continua com outros personagens. Estou assistindo a “Prova de Artista”, documentário de José Joffily que entrou em cartaz na semana passada.

O americano se chama Byron. É um garotão dos cafundós dos Estados Unidos que, depois de anos e anos estudando violino, tentou sem sucesso arranjar emprego em alguma orquestra americana.

Acabou vindo parar em São Paulo, para participar de uma audição na Orquestra Sinfônica do Estado (Osesp), que abria vaga para novos instrumentistas.

O filme de Joffily acompanha a vida de alguns candidatos. Há um oboísta que já tocava na Osesp e terá de ser aprovado numa audição para obter lugar definitivo na orquestra. Uma jovem fagotista mineira, mãe de uma filhinha pequena, mora numa casa simples em Belo Horizonte. Já toca na orquestra de Minas, mas cogita se mudar para São Paulo.

Do Rio de Janeiro vem um instrumentista acostumado a tocar viola no pequeno conjunto de uma igreja evangélica. Seus pais o obrigavam a estudar a fundo o instrumento, ao lado dos irmãos.

A audição dos candidatos, feita atrás de uma cortina, permite que os jurados do concurso julguem sem maiores preconceitos.

Byron, como bom americano, organiza-se para o grande dia. Monta uma planilha com os horários e peças que deve estudar. O lugar a que se candidata é o de violinista lá nas cadeiras do fundo, que não lhe trará exigências comparáveis às de um grande solista.

Mesmo assim, para ser admitido, deve tocar para o júri um dos grandes concertos do repertório: escolhe o de Tchaikovski, campo minado em matéria de dificuldades técnicas. A tal ponto que, depois de sua estreia, em finais do século 19, um crítico declarou que o violino devia estar cheio de manchas roxas, dado o número de violências a que fora submetido.

Assistimos aos ensaios de Byron, às dúvidas da fagotista mineira, às esperanças do evangélico, à modéstia do oboísta.

Cada um deles, é claro, tem mais talento musical do que toda a minha árvore genealógica reunida. Ao mesmo tempo, nenhum pode ser classificado como gênio prodigioso e indiscutível.

É gente tão comum, afinal de contas, que mal se entende por que razão viraram assunto de documentário. Mas tem sido este o ponto forte dos últimos filmes de José Joffily. “Vocação do Poder” registrava a campanha de alguns estreantes na política, candidatos a vereador no Rio de Janeiro.

Num filme anterior, Joffily escolhia como alvo outro tipo de vocação, a de padre. Seminaristas, alguns dos quais bastante esquisitos, é verdade, eram entrevistados em “O Chamado de Deus”, e terminavam parecendo tão normais como quaisquer outros brasileiros.

“Prova de Artista” seria, então, a última parte dessa “trilogia das vocações” realizada pelo diretor. Mas talvez o tema da vocação individual termine em segundo plano nessa série. Embora não seja todo mundo que pense em se tornar padre, político ou fagotista, o que mais se destaca nesses filmes não é a excepcionalidade de uma carreira ou de um talento.

Joffily faz, nesses filmes, o elogio do homem comum -do brasileiro de vida média, sem caricatura; o brasileiro do arroz com feijão, sem burritos, sem vatapá e sem hambúrguer.

No final do filme, com a barriga debaixo da mesma camisa azul, Byron toma sol e água de coco. Não será o maior violinista do mundo, nem mesmo o maior violinista de São Paulo. Não encontrou os “burritos” que queria.

Ninguém encontra mesmo o que quer. Pouco importa: ele está feliz da vida. Afinal de contas, é a sua vida; e é isso o que basta para a maioria de nós.

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