não posso dizer que não me lambuzaria de você…

… que o que disse são fantasias. éramos adolescentes e corríamos campos de chocolate. coco-caracóis. cria em nossas pernas, super-cordas, a resolver distâncias. elas doíam, mas a dor era breve e boa, que nos acostumávamos fácil em vícios e poemas e pernas. as pernas se enroscavam e se perdiam e se encontravam. paletó e gravata, nós desatados, escharpes liláses.

tinha uns olhos revirados. feito bruma fora de órbita, em meus anéis, seus anelos. meus longos dedos. a mão água-forte. seus olhos suavam suores do cheiro de um deus ou uma deusa que criamos. suores que tremiam à água-forte que nos arrebatava as pernas e dedos.

dançávamos ritos circulares, culturas seculares. giravam nossos sóis e já não tinha medo. dançava. meu corpo era seu palco giratório. sim, dançava e meus sóis te iluminavam o caminho, meus carrilhos. tatuava em mim tuas cores, claras e de misturas e de desenhos e cães e cartolas.

entendíamos de sonhos e eu já não mais precisava tirar férias de mim. que também era você e já não era pranto. o oceano era meu riso, teus dentes, seios coloridos de minhas misturas tatuados em mãos e boca.

minha boca cheia das borboletas que subiam em espirais, a correr pra tuas entranhas e revolver, miscigenar nossas borboletas que se encontram e bailam, giram. morriam uma morte instantânea e bela pra se re-revolver em novos seres que nos tornávamos a cada instante da vida nova e boa.

haviam portas dalíanas. não batia que era sua a casa e eu também. e de chaves nada entendemos. era livre e saía e voltava. pétalas de meus lírios e jasmins e murtas cobriam a ponte que nos unia. a ponte pegadiça que tem teus pés como senha. uníamo-nos humanos, animais, deuses e servos. e era o teu corpo o meu templo. meus braços o teu país.

e já não sou estrangeira, e já não te queda em enganos e ao amor obscuro. agora nascemos. os medos e sonhos e prantos e gargalhadas estão inacabados. te esperando. esperando nosso encontro tão justo, belo, verdadeiro e delicado.
*

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 2 de agosto de 2012 11:08

    isto é Nina Rizzi !

  2. Fernando Monteiro 2 de agosto de 2012 10:05

    Domínio da língua, emoção, ritmo e profundidade.
    Eu, que costumo ser severo (quase avaro) na apreciação de textos literários, me rendo à Nina Rizzi escrevendo com a alma, o sangue de palavras como transfusão para esta cama do SP às vezes apenas com alguns marcos, algumas estacas fincadas precariamente desde a deserta praia da Academia…

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