Não quero minimizar a causa de vocês, mas…

Por Jota Mombaça

Carta breve aos artistas potiguares.

Será que nós também só pensamos em dinheiro e que em nenhum momento desta trajetória que se vem iniciando amiúde desde muito tempo dispensaremos qualquer segundo de reflexão ao nosso lugar no tempo? Enquanto escrevemos atas e cartas e abaixo-assinados há uma multidão que precisa ser libertada das amarras invisíveis que esta cidade impõe.

Já que estamos preocupados em fazer com que o estado nos olhe e cumpra com seu dever de cobrir a arte que – mesmo segundo o discurso hipócrita dos imbecis – precisa ser valorizada, parecemos perder o sentido de nos colocar para o espírito do tempo, fazemos do nosso engaje mero delírio de poder-se-colocar-de-forma-igual num país de gritantes desigualdades que são recebidas pela população – que virou audiência – de forma extremamente simples em meio a axiomas de sub-revolta para manter a aparência, para fingir engrossar a canja ainda e sempre rala.

E então, com a putrefata bandeira da luta de classes balançando no vazio das cabeças, somos detalhes quase sórdidos quase patéticos na fauna desta província pós-moderna, protegendo a utopia que nos destruiu com a revolta esperada, entrando na luta perdida e em meio ao tumulto e às lágrimas hasteando a verdadeira bandeira, outrora latente, a esta altura pelo desespero escrachada, uma bandeira onde se lê em letras grandes a confissão indecente: “Arte para pagar as contas, porque isso nos basta!” A esta altura estamos tão entregues ao sistema que nossos esforços se concentram em fazer com que sejamos convidados para o banquete deles.

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