“Não vejo nenhum sinal de uma Primavera Árabe”

No blog do Luis Nassif

Do swissinfo.ch
Por Simon Bradley, Genebra, swissinfo.ch

A polarização duradoura entre secularistas e islamistas está escondendo os verdadeiros problemas que afetam o mundo árabe, adverte o suíço e estudioso islâmico Tariq Ramadan.

De Genebra, onde veio promover seu novo livro “Islam et le réveil arabe” (Islã e o despertar árabe), o especialista analisa a recente onda de revoltas no norte da África e no Oriente Médio.

O intelectual suíço continua cauteloso sobre a turbulência no mundo árabe e, nesta fase, prefere não falar de revolução enquanto espera o surgimento de alternativas reais aos ex-regimes ditatoriais da Tunísia, Egito e Líbia.

“Prefiro chamar o que aconteceu de revoltas ao invés de revoluções, não vejo qualquer sinal de uma primavera árabe”, declarou aos repórteres na quarta-feira, 16 de novembro.

Na segunda-feira, a comissão eleitoral da Tunísia divulgou o resultado final da eleição de 23 outubro, confirmando a posição dominante do partido islâmico moderado Ennahda.

A eleição foi realizada nove meses após os tunisianos terem derrubado o presidente Zine el-Abidine Ben Ali, que governou o país com mão de ferro durante 23 anos.

O movimento, outrora proibido, ganhou 89 das 217 cadeiras da Assembleia Constituinte que vai elaborar a nova constituição da jovem democracia e nomear um governo interino até as novas eleições no próximo ano.

Mas os secularistas da Tunísia disseram temer uma dominação islâmica após as declarações na terça-feira de um membro do Ennahda que invocou a volta do califado, ou Estado islâmico.

Ramadan apelou para o fim da polarização superficial entre secularistas e islamistas, que considera “uma das maiores armadilhas para o mundo árabe hoje”.

Segundo o estudioso, os secularistas se apresentam como os defensores da democracia liberal, com pontos de vista religiosos, mas muitos deles são da elite rica, desconectados da realidade e muitas vezes ligados às ditaduras. Do outro lado estão os movimentos islâmicos, que afirmam ter legitimidade religiosa e estar em contato com a rua, o que nem sempre é verdade.

“O que me incomoda é que essa polarização legitima cada lado sem provocar qualquer tipo de auto-crítica”, disse, acrescentando que os novos regimes devem ser avaliados pelos programas sociais e econômicos que implementem.

“No momento o partido Ennahda diz sim a tudo: direitos das mulheres, Estado de direito e colaboração com o FMI (Fundo Monetário Internacional) – é por isso que assusta tanto os europeus. Precisamos estar vigilantes”, disse Ramadan.

As ações do Ennahda estão sendo analisadas de perto no Egito e na Líbia, onde os islamistas, que até agora foram banidos da vida política, também estão ganhando em influência após os levantes que forçaram a saída de governantes entrincheirados.

As eleições parlamentares no Egito estão marcadas para 28 de novembro. Ramadan, que leciona estudos islâmicos contemporâneos na Universidade de Oxford, diz temer que os militares sequestrem o processo.

“Hoje, o Egito está sob a autoridade do exército. Os blogueiros estão sendo presos, há tribunais militares e qualquer tentativa de levar a julgamento os membros do antigo regime é adiada”, disse, acrescentando que havia sido aconselhado de não visitar o país neste momento.

Síria

Ramadan considera a Líbia um caso único, por causa do interesse nas enormes reservas de petróleo do Estado norte-africano e sua posição estratégica, enquanto que a Síria é muito mais complexa.

“Neste caso, estamos tratando da divisão xiita-sunita, das relações com o Irã e a divisão EUA/UE-China/Rússia – é muito complexo e é por isso que as coisas não mudaram.”

Na quarta-feira, a Turquia e os membros da Liga Árabe pediram medidas urgentes para proteger os civis sírios de uma repressão brutal do governo. Em uma reunião no Marrocos, eles também disseram que eram “contra qualquer intervenção estrangeira na Síria”.

A declaração foi feita após relatos de que os desertores do exército sírio teriam atacado uma importante base militar perto de Damasco, o primeiro ataque de importância dos rebeldes em oito meses de manifestações contra o presidente Bashar al-Assad.

“Posso até imaginar o fim do regime, mas não acho possível que se iniciará qualquer tipo de processo democrático”, disse Ramadan. “Acho que al-Assad vai cair, mas para colocar quem no poder e como? Ninguém quer a atual oposição síria.”

Influências externas

Em seu livro o estudioso suíço muçulmano analisa como os eventos começaram na Tunísia, Egito e em outros lugares, a influência externa de potências estrangeiras e suas estratégias de mudança.

Segundo Ramadam, desde de 2004, ativistas e blogueiros do Egito, Tunísia e de outros lugares do norte da África teriam recebido uma formação não-violenta financiada pelo Departamento de Estado americano.

“Quando o Egito decidiu cortar a internet em janeiro, o Google deu detalhes de satélites para os blogueiros, mas na Síria se recusou”, acrescentou.

Ramadan acha que os EUA e a Europa foram obrigados a rever suas estratégias de como enfrentariam o envelhecimento dos regimes ditatoriais que estavam se voltando para o leste, bem como uma crescente influência na região de países como China, Índia, África do Sul, Rússia e Turquia.

“Não vamos ser ingênuos nem conspiradores. Sou absolutamente contra essa opinião idealista de um movimento que nasceu do nada ou de jovens que simplesmente se revoltaram”, disse.

Adaptação: Fernando Hirschy

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