Não vou falar de política

Tenho ouvido e lido a expressão “não vamos falar de política” com cada vez mais frequência e evidente irritação de quem diz. Curiosa negação vinda justamente quando a política arde aos olhos de quem vê tudo que se passa neste país beligerante. Tanto me disseram que assumo o “não”. Não vou falar de política.

Vou falar porque motivo não aceito Bolsonaro e o bolsonarismo emergente neste momento triste da vida nacional. Eu teria de fato mil razões políticas para falar, mas tenho mil e uma outras razões para sentir em mim a ojeriza a tudo que estamos passando. Venho, portanto, agora a falar, não de política, mas de humanidade.

Leia “Antídotos às trevas do obscurantismo”, de Edilberto Cleutom

É de minha natureza, contra que não pretendo lutar, acreditar que as pessoas mereçam a liberdade de ser, de pensar e de sentir. Não concebo razões para que qualquer pessoa seja discriminada, violentada e excluída de qualquer direito humano seja porque motivo for.

Não importam suas orientações ideológicas, religiosas ou sexuais. Tampouco a condição social e de gênero, ou cor. Nada justifica uma injustiça contra quem quer que seja. Sequer aspiro à justiça movido por princípios religiosos: não são as minhas crenças ou preceitos religiosos que me orientam sobre o que considero o bem e a bondade.

Em minhas concepções de mundo, a ética prescinde de crenças ou mesmo jurisprudências. Não é necessariamente a lei que se me impõe. Mas me rejo pelos princípios morais solidificados em mim. Creio na liberdade, creio na vida, creio na igualdade de direitos e oportunidades.

Minha fé é deste mundo

Fotografia: Thiago Gomes/Agência Pará

Jamais conseguiria, por isso, defender a ditadura, a censura do pensamento, ou morte de quem quer que seja. Jamais verei a opressão, a fome dos necessitados, o desdém e a violência contra pobres, pretos, gays, índios, mulheres, sem tomar-me de indignação e revolta. Minha fé é deste mundo, plena de humanidade. Não aspiro ao que transcende nem busco minha salvação. Busco um mundo pacífico, solidário, e humanista, em que maior que a pátria seja a justiça entre os homens. 

Sei que em função de minhas convicções apontar-me-ão o dedo da acusação a gritarem-me: esquerdista! Comunista!… como não o ser? Se esquerdista e comunista significa a muitos hoje em dia, sem qualquer conhecimento crítico e histórico do sentido destes conceitos, acreditar que o bem comum é possível e que a sociedade pode ser mais justa, mais humana, sem oprimir, sem explorar ou submeter qualquer pessoa a condições degradantes e humilhantes, assumo de bom grado o que para alguns é uma ofensa.

Justamente, em função deste meu sentimento de mundo, o que vejo hoje emblemado na figura de Bolsonaro e de seu séquito é o oposto do que acredito como humanismo ou mesmo o que aspiro à humanidade. Não vou discutir o que subjaz nos bastidores do poder a justificar a sua eleição, tampouco discuto agora o projeto político a que ele serve, contrário aos interesses trabalhistas, ambientais e sociais, mas renego justamente o discurso anti-humanitário.

Eu jamais optaria por seguir alguém cujo signo mais forte fosse uma arma e cujo discurso incitasse em mim o crime e o assassinato, movido por um desejo de vingança e uma fúria no gesto e no olhar. Em todas as ocasiões públicas de Bolsonaro, foi sempre este emblema que se elevou. A mesma coisa percebo em seus seguidores: há um ódio latejante em cada fala, em cada gesto e cada olhar.

Agressão ao pensamento contrário

Na oratória de Bolsonaro, há um discurso do não gritante. Não se trata de uma negativa no sentido de pôr em xeque um pensamento e dar vazão a que circule a corrente do entendimento. Mas simplesmente um “não” cortante e ameaçador, um não grávido de morte. Não se discute o contraditório, agride-se veemente o pensamento contrário. O único sim que se destaca em sua fala, pela importância histórica, foi justamente aquele que votava pelo impeachment da presidenta Dilma.

Todavia, justamente esse sim negava a civilidade, a empatia, a solidariedade, e qualquer traço de humanidade justamente ao dedicar seu voto à tortura e ao torturador, apontados como o terror daquela mulher, e por que seria um terror se não representasse a dor? Seu único sim foi uma exaltação à desumanidade, à barbárie, ao estupro, à crueldade, à degradação e à morte. Fora isto, suas falas impõem que se calem todos, que parem, que matem, que morram, que se destrua, que acabe, que extermine.

O que se implanta neste momento no Brasil é um signo de morte, a semear a discórdia e oprimir o diferente. Não serei o poeta deste mundo imundo. Minha natureza alia-se à beleza da vida e à grandeza da justiça: não há vida onde imperem a dor e o sofrimento; não há justiça onde não há humanidade.

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