Narrar, representar, interpretar

FSP

RESUMO

Em novo excerto de seus diários (veja os anteriores em folha.com/ilustrissima), o romancista argentino Ricardo Piglia descreve seu cotidiano nos EUA, especula sobre pintura, fotografia e representação a partir de títulos de quadros e comenta a falência da crítica literária, a seu ver substituída pelo trabalho de historiadores.

RICARDO PIGLIA
tradução PAULO WERNECK

SEGUNDA

Depois do terremoto e do tsunami no Japão, ela só lê Kawabata, assim como um rabino leria a Torá em tempos de crise. No caso dela, não é para pedir compaixão, mas para sentir-se pessoalmente afetada. Fui afetada, diz, e reflete sobre o sentido da expressão. Pensa que a palavra define as afeições -e os afetos- de uma experiência verdadeira. Claro que também a utiliza para descartar os escritores que lhe parecem “afetados”. Por exemplo, o intolerável Murakami!, diz. Espantoso! Foi na sexta para Nova York, muito preocupada com a crise das centrais nucleares, e desde então estou sozinho em casa.

Acordo cedo e saio para tomar café da manhã no povoado. O dia está claro e frio, uma dessas luminosas manhãs de inverno do hemisfério Norte. Dou voltas pelo centro, compro os jornais na banca de Palmer Square e por fim entro no café Small World.

Peço um expresso duplo, um donut e um suco de laranja. Nas mesas ao lado, as garotas e os rapazes tomam água mineral ou chá verde, concentrados em seus notebooks, seus iPods, seus Blackberries, com os fones nos ouvidos, isolados em suas cápsulas espaciais, porém ligados às realidades externas pelo celular. No “New York Times”, faz dois dias que os reatores de Fukushima substituíram a intervenção militar na Líbia e os conflitos no Oriente Médio. Ao mesmo tempo, nos últimos dias, a intervenção militar e o risco atômico substituíram as notícias locais.

Como sempre, os atos de controle e agressão se fazem em defesa dos controlados e agredidos. Se alguém fala por telefone com uma repartição pública, aparece uma voz mecânica que anuncia: para sua segurança, esta conversa está sendo gravada. Neste caso, a CIA decidiu bombardear a população civil “para proteger a população civil”.

Quando estou lendo a página de esportes, toca meu celular. É ela, está em Park Avenue com a rua 50. Sempre precisa se localizar antes de falar. Estou bem na frente da loja de discos onde estivemos no outro dia, me diz ela. Ela e as amigas formaram uma espécie de brigada de “agitprop” e participam em rondas e marchas de um protesto em frente à embaixada japonesa. Vão contaminar os oceanos, me diz, sublinhando o plural. A radiação vem pelo mar. Não coma peixe em hipótese alguma! Quer que a gente vá morar em Berlim porque na Alemanha os verdes têm poder e pode-se lutar contra a destruição da natureza.

QUINTA

Faz anos que a ideia de fazer uma história da pintura a partir dos títulos dos quadros caraminhola na minha cabeça. Uma série de enorme duração. Às vezes são uma narrativa; às vezes, um verso perdido de um poema. “O Sumo Sacerdote Coreso Sacrifica sua Vida para Salvar Calírroe” (1765), de Fragonard. “Luxo, Calma e Volúpia” (1904-05), de Matisse. Alguns mostram a incerteza da representação: “Light, Earth and Blue” (1954), de Rothko, que pode ser visto como “Luz, Terra e Céu” ou como “Claro, Marrom e Azul”. Outros são muito precisos: “Vista de Delft” (1660-61), de Vermeer, “Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji” (1826-33), de Hokusai.

Os nomes melhoram à medida que os quadros deixam de ser figurativos. “Impression Soleil Levant” (impressão do nascer do sol) (1873), de Monet, é um título fundador (do impressionismo). E o mesmo poderia ser dito do extraordinário “Quadrado Branco sobre Fundo Branco” (1918), de Maliêvitch. Ou de “Julgue” (1923), o duchampiano título de Xul Solar. Como são descritivos, tendem a ser enigmáticos, pois a imagem que representam não é fácil de nomear. Por isso, muitos pintores terminaram trabalhando com o grau zero da descrição, como Pollock com seu “Number 32” (1950).

A chave, sem dúvida, é que o título depende do quadro: num sentido, o descreve, em todo caso, o nomeia. A tensão entre mostrar (“showing”) e dizer (“telling”), sobre a qual Henry James fundou sua teoria do romance, define a tensão entre as palavras e a imagem.

Os títulos definem um uso particular da linguagem: o que se nomeia está aí. (Em literatura, o que se nomeia não está mais aí.) Algo se fixa na linguagem, melhor dizendo, a linguagem se fixa numa imagem. Depende dela, ainda que a desminta, como no célebre “A Traição das Imagens (Isto Não É um Cachimbo)”, de Magritte. Descrever aquilo de que trata a obra não é dizer o que significa, e o que significa não depende do título.

Já a fotografia parece precisar da linguagem para significar. Tudo é tão visível que faz falta o que Jean-Marie Schaeffer, em seu livro sobre a fotografia, chama “o saber lateral”, quer dizer, certas informações que não surgem da própria imagem. Como os sonhos, a foto precisa da linguagem para encontrar seu sentido. Digamos que precise de um título. Melhor seria dizer (freudianamente) que o título de uma foto é sua interpretação.

Vivemos numa época em que a representação define as imagens. A hiperexplicação é a marca da cultura atual, circula pelos meios de comunicação, nos blogs, no Facebook, no Twitter: tudo deve ser esclarecido. As séries nos EUA, “Lost”, “The Corner”, se interpretam e se discutem quase no mesmo momento em que se emitem os capítulos; os receptores têm um conhecimento completo do que estão por ver.

O mesmo aconteceu desde sempre no futebol, grande espetáculo narrativo de massas: o relato das partidas é acompanhado por uma análise muito sofisticada, que explica as táticas e o sentido do jogo. Narra-se e interpreta-se ao mesmo tempo.

TERÇA

Dou uma conferência na Universidade da Pensilvânia sobre o escritor como crítico. Depois, jantamos com Roger Chartier, Antonio Feros, Luis Moreno-Caballud e outros amigos no restaurante White Dog. Naquela casa, morou madame Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica; segundo dizem, o piano do salão principal às vezes toca sozinho, durante a noite. Conversa muito divertida sobre superstições e cultura acadêmica norte-americana.

Passo a noite em Filadélfia e pela manhã, antes de voltar a Princeton, consigo ver a exposição de Roberto Capucci no museu. Extraordinária. Iluminados com luz branca na penumbra de uma galeria circular, os vestidos e as esculturas de tecido parecem mulheres mutantes de um mundo paralelo. Seria preciso juntar essas figuras femininas sem corpo à história da representação da mulher que John Berger reconstruiu admiravelmente em sua série de TV “Modos de Ver”. Capucci desenhou os vestidos de Silvana Mangano no filme “Teorema”, de Pasolini.

A crítica literária é a mais afetada pela situação atual da literatura. Sumiu do mapa. Em seus melhores momentos -em Iuri Tiniánov, em Franco Fortini ou em Edmund Wilson-, foi uma referência na discussão pública sobre a construção do sentido numa comunidade. Não sobra nada dessa tradição. Os melhores -e mais influentes- leitores atuais são historiadores, como Carlo Ginzburg, Robert Darnton, François Hartog ou Roger Chartier. A leitura dos textos passou a ser um assunto do passado ou do estudo do passado.

QUARTA

Ela está me esperando em Princeton Junction e, de volta a casa, paramos na Home Depot. É uma espécie de casa de ferragens com instrumentos, aparelhos e máquinas cobrindo o espaço como se fossem as peças de uma interminável oficina desmontada. Não há clientes nem empregados, está vazia. É a crise, diz ela. Caminhamos pelos corredores numerados entre grandes objetos vermelhos e furadeiras elétricas.

Tenho a sensação de ainda estar no Museu de Arte de Filadélfia. Um museu masculino, ironiza ela. É a fantasia do barracão de ferramentas das casas antigas, diz, mas ampliado até o delírio. Num canto, uma moça atende no único balcão em funcionamento. Ninguém faz fila porque não tem ninguém. Compro uma pá para neve, um par de luvas de lona e uma pinça (para abrir e fechar as janelas). Anuncia-se uma tempestade de neve, a última do inverno, talvez.

Vivemos numa época em que a representação define as imagens. A hiperexplicação é a marca da cultura atual: tudo deve ser esclarecido

A crítica literária é a mais afetada pela situação da literatura. Sumiu do mapa. Os melhores leitores atuais são historiadores

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