Narrativa de viagem de Fernando Namora sobre sua visita à União Soviética

Por Marcel  Lúcio

Ao longo da história, pontos de interesse específicos de determinados povos e lugares despertaram a curiosidade de narradores: aspectos culturais, artísticos, políticos, econômicos. Essas particularidades fizeram com que vários escritores registrassem suas impressões sobre um mesmo lugar, como por exemplo: as anotações sobre as terras recém-descobertas do Novo Mundo, que possuem inúmeros relatos estrangeiros e se constituem como um subgênero das narrativas de viagem.

De modo semelhante ao exposto, pode-se propor a classificação em subgênero das narrativas de viagem dos relatos sobre a URSS ao longo do século passado. Por motivo da implantação do regime comunista e suas consequentes mudanças políticas, econômicas, artísticas e sociais, muitos intelectuais ocidentais visitaram o referido país. A maioria desses intelectuais estava já direcionada a conhecer e relatar os benefícios alcançados na União Soviética, fato que influenciava em como o país estrangeiro seria mostrado ao seu leitor. A própria URSS, interessada em divulgar seus avanços sociais ao mundo capitalista e cada vez mais conquistar adeptos ao comunismo, estimulava a visitação com o intuito de que seus hóspedes funcionassem como difusores da ideologia marxista em seus países de origem. Nestes, existia um público ávido por notícias do então “novo mundo”, do “mundo da paz”.

Dentre os textos de viagem, escritos por estrangeiros, sobre a URSS, podem-se destacar: 10 dias que abalaram o mundo (1919), do norte-americano John Reed (1876-1920); o Diário de Moscou (1927), do alemão Walter Benjamin (1892-1940); De volta da U.R.S.S. (1936), do francês André Gide (1869-1951); O mundo da paz (1951), de Jorge Amado (1912-2001); Viagem (1954), de Graciliano Ramos; URSS, mal amada, bem amada (1986), do português Fernando Namora (1919-1989); As muralhas de Jericó – memórias de viagem: União Soviética e China nos anos 50, do escritor gaúcho Josué Guimarães (1921-1986), livro redigido em 1952, mas publicado (postumamente) apenas em 2001. Obras que, pode-se afirmar, à exceção do escrito de André Gide, construíram uma representação do regime soviético ao público do ocidente capitalista, traçando um perfil relativamente positivo do comunismo, embora nos textos de Benjamin e Graciliano Ramos sejam lançadas algumas críticas ao regime, em oposição às notícias plenamente negativas e distorcidas que eram divulgadas pela imprensa burguesa do período.

O escritor português Fernando Namora, a convite da União das Associações Soviéticas para a Amizade e Relações Culturais entre os Povos, visitou o país soviético algumas vezes no decorrer dos anos setenta e oitenta do século passado, registrando, deste modo, em sua narrativa de viagem, URSS, mal amada, bem amada, tensões referentes à Guerra Fria e à derrocada do sistema socialista na União Soviética. Talvez por isso seu enfoque se volte para a geografia humana do povo russo em vez de observar o debate político-ideológico.

No início de suas memórias de viagem, o escritor relata a dificuldade em conseguir a autorização de seu país para ir visitar a União Soviética em sua primeira excursão, em 1973. A Direção-Geral de Segurança de Portugal respondia ao pedido de permissão com um seco e vago “estamos em averiguações”. Segundo Namora, “A URSS continuava a ser o tal lugar onde se fritavam os meninos à nascença, para regalo dos comunistas glutões, o tal lugar donde provinha tudo que era peste para a família lusíada. Nós, os ingênuos ou perversos convidados, seríamos, cuido eu, os candidatos à banda do Satanás”.

A imprensa e a elite capitalista sempre mantiveram a estratégia construir para as pessoas uma imagem plenamente negativa da União Soviética, motivo pelo qual surgiram os mitos do comunista ateu, do comunista que se alimenta de crianças, dentre tantos. Muitas vezes essa mitologia despertava a curiosidade do leitor em torno do relato sobre o país soviético e transformava o escritor em um missionário que deveria transmitir aos que viviam na escuridão capitalista a “boa nova” socialista.

Em meio à dificuldade do visto, de repente, quando o escritor esperava processo mais demorado, despontou o consentimento da Direção-Geral de Segurança para a viagem. Namora imediatamente voou para Paris e de lá seguiu para as terras soviéticas. O desembarque em Moscou suscitou muitas reflexões ao escritor: as aeromoças pareciam as heroínas da literatura russa; todos os cidadãos russos possuíam automóveis; os dirigentes do país seriam rígidos?. A partir desse momento, a narrativa de Namora deixa de ser linear e se torna um livre vagar, sem preocupação cronológica, por situações que o escritor viveu em solo russo nas suas diversas viagens.

Namora passa a descrever cidades, sensações e pessoas. Um dos primeiros pontos que lhe chama a atenção é a beleza da mulher soviética: “altas mulheres de pomos asiáticos, com porte de deusas”. O uso excessivo de vodca, conhaque e champanhe na hora das refeições também é percebido pelo autor. Destacando o consumo abusivo de bebidas alcoólicas como um mal para o homem soviético, citando para justificar sua observação um velho ditado russo que assinala: “Houve a guerra, há a vodca”, as duas grandes responsáveis pelo desperdício de vidas em solo soviético.

Moscou é vista pelo escritor como uma cidade sem identidade porque “não é uma cidade, mas uma porção delas. Nem sequer lhe achamos uma alma comum”. O povo russo é sentido como uma raça forte e conquistadora, mas marcado pelo terror de guerras recentes: “os russos são um dos povos mais dilacerados pelo horror dos conflitos. A memória coletiva russa sangra dos seus vinte milhões de mortos, dez milhões de inválidos e mutilados da última guerra”. Pode-se considerar que o século XX foi um período muito conturbado na história do povo soviético, marcado por conflitos desde seus primórdios, com os impasses políticos que resultaram no “Domingo sangrento”, até as disputas étnicas que se desencadearam nas últimas décadas do século.

O contato com os representantes da União das Associações Soviéticas para a Amizade e Relações Culturais entre os Povos e com os intérpretes gerou impressões ao escritor sobre o comportamento cotidiano dos soviéticos: formais, frios, solícitos, firmes e possuidores de certo autoritarismo. Dessa forma, o escritor intercala suas considerações subjetivas com o relato de pequenos casos ocorridos, como o caso do vinho do Porto que se estilhaçou acidentalmente no aeroporto de Moscou. Esse vinho seria um presente dos portugueses para as autoridades russas; o próprio escritor o entregaria às autoridades.

Apesar da beleza da Praça Vermelha, da Catedral de São Basílio, do Kremlin e das apresentações de danças folclóricas russas, Namora não consegue disfarçar o seu desconforto com as viagens ao exterior: “fui sempre um viageiro a contragosto, ainda que peregrinando me veja sacudido por dentro e, sob impulsos antagônicos, me revolva e me descubra. Viajo pelo empurrão das circunstâncias, pensando na volta”. Além disso, o escritor acredita que quando se viaja sob a batuta de guias, perde-se a iniciativa e a vontade ficando, assim, o visitante à mercê dos interesses do guia.

O monumental Hotel Rússia é o lugar onde o autor ficou hospedado em suas viagens à URSS: “Dois mil quartos, não sei quantos restaurantes, alguns fazendo às vezes de dancings, cabeleireiros, repartições de câmbio, lojas pífias, correios, léguas de corredores”. Para Namora, o hotel é uma réplica dos descomedimentos do Ocidente em terreno soviético. O ponto de encontro entre os hóspedes de diferentes nacionalidades era o restaurante do hotel: “A sala é uma festa. O soviético faz da mesa um lugar de convivência”. Assim, o autor pôde observar diversos tipos étnicos em confraternização. Comida não faltava, pois “Os russos, que passaram por tantas fomes, sabem quanto isso importa”. Namora observou, porém, que, apesar da fartura alimentícia do hotel e da aparente igualdade exposta pelo sistema político do país, muitas famílias russas passavam fome.

A técnica narrativa usada para contar as suas lembranças da URSS é questionada e discutida pelo próprio escritor: “Não tenho contas a prestar a alheios. Apenas à minha consciência de escritor. Procurarei a eloqüência dos fatos, tal como se nos apresentaram, e o que neles desafia a nossa decifração. O artista é um decifrador e um mensageiro. Procurarei situar os fatos num passado, num presente e também na sua prevista incidência futura; uma narrativa segue por si própria, a direito ou por atalhos, à revelia do autor. Segue impondo suas coerências, os seus ritmos, às vezes os seus desmandos. E de nada vale tentar sujeitá-la”. Essa última observação do escritor pode servir para justificar o tratamento “atemporal” que é dado à narrativa. O narrador não se preocupa em organizar de modo cronológico suas memórias referentes às sucessivas visitas à União Soviética.

Além disso, pode-se perceber que o autor-narrador assumiu o compromisso de narrar os fatos tais como eles se apresentam, sem tomar partido. Por isso, em meio às belezas do país, Namora relatou, ainda nos anos 70 e 80, o que acontecia aos dissidentes da ordem política: desterros, presídios e asilos psiquiátricos. Discorreu também sobre o culto à imagem de Lênin: “Lenine está presente em tudo o que na URSS é lugar, inspiração, referência, objeto de culto”. Observe-se que, no imaginário popular, depois das revelações sobre os desmandos de Stalin em 1956, Lênin ocupou sozinho o espaço que dividia nos anos 50 com o ditador que se dizia capaz de conduzir a humanidade para um período de paz.

No âmbito cultural, na URSS, Namora se impressionou com cenas difíceis de ver no Ocidente. Um teatro lotado por operários para um recital de poesia e filas de centenas de indivíduos nas livrarias com o intuito de adquirirem um livro recém-lançado que pode esgotar-se em uma hora. Restou-lhe a estranheza de se perceber em meio a um povo que em pouco tempo conseguiu superar a ignorância, e que valoriza, sem bocejos, as manifestações culturais de sua terra. Porém, a valorização da arte não ocorreu por acaso, pois “Os russos investem forte na sua imagem cultural, que influencia todas as outras, sendo o escritor, o que vem ou o que vai, o dileto pregoeiro dessa imagem”. Por isso, a ênfase da União Soviética na difusão e aplicação do realismo socialista nas décadas de 30, 40 e 50 do século passado.

Nas últimas páginas do livro sobre as suas viagens à URSS, Namora discute a situação do país naquele momento histórico, 1973 a 1986, poucos anos antes da queda do regime comunista e do fim da União Soviética. O escritor, observador atento, percebeu que tudo se encaminhava para o fim, porque a desigualdade social era uma estatística crescente e o fascínio dos produtos capitalistas sobre o russo era tão grande que movia mercados e negociatas ilegais. Dessa forma, a impunidade aumentava e a sociedade se amortizava em um pesado estado de letargia social.

O povo russo, possuidor de uma riqueza literária imensa, causou tamanha admiração ao escritor português, por isso, associando o povo aos escritos literários, Namora afirmou: “De tal modo os russos interiorizaram as serenidades e as tempestades que a literatura foi criando. As personagens desse espantoso imaginário circulam no metrô de Moscou, passeiam-se nas dunas da Criméia, olham melancolicamente as águas do Neva”.

No labirinto estreito entre a realidade e a literatura russa, moveu-se Fernando Namora, escritor-narrador-personagem, tentando transmitir sua experiência em solo estrangeiro ao leitor. Este, por sua vez, por intermédio da imaginação, deve buscar reconstruir a paisagem soviética que tanto desperta sua curiosidade. Assim se processa a interação entre as informações sobre o país de cultura estrangeira e o leitor nas narrativas de viagem.

Fernando Namora não se sentiu obrigado a defender um ponto de vista ou a se posicionar de um lado ou outro do debate político. Isso ocorreu porque, sendo a narrativa dos anos oitenta, o contexto ideológico não mais solicita de modo veemente um engajamento por parte do escritor, como ocorria nos anos cinquenta. Assim, Namora, como já mencionado antes, sentiu-se livre para abordar, em primeiro plano de seu relato pontos que lhe despertaram mais a atenção durante sua viagem, como os aspectos culturais da URSS.

 

* Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

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