Nas dobras do sem ser

Em 2015 não publiquei contos nesta coluna, para deixar a maioria dos inéditos na minha primeira coletânea de narrativas curtas que será lançada em 2016. Não tendo como fazer uma retrospectiva literária, termino o ano com um conto inédito que não entrará na coletânea: uma curta história que reflete sobre identidades de gênero, ou melhor, sobre des-identificação e reconhecimento antipredicativo em chave de ficção científica.

Feliz 2016 a todos!

***

Acordei e tinha vagina. Me belisquei, estapeei, arranhei, mordi meus braços e continuava acordada. Com uma vagina entre as pernas.

é a origem de tudo quiçá a vida seja isso eterna escolha ser ou não ser será essa a questão e se houvesse algo mais uma zona indistinta sem forma sem destino um borrão um interstício uma fronteira móvel indizível nada disso tudo quem sabe só sei que é desgastante me sufoca me esmaga estraçalha minha vontade desconjunta meu desejo estrangula qualquer sentido se é que existe sentido se esse vagar leva a algum lugar mesmo que não o saibamos e qual a necessidade de saber por quê essa urgência essa angústia de entender essa tortura sim entender mas o quê a mim mesma ao mundo essa loucura à minha volta esse frenesi demente de estilhaços atônitos esse calafrio na espinha essa náusea essa vontade de rasgar a casca do ser do não ser do caralhoaquatro deixem que me foda quem sabe seja minha salvação a salvação dos sem salvação porque não há nada que salvar a incerteza a impossibilidade nas dobras do sem ser do não querer ser do ser sem querer

sem ser
nem não ser
apenas
fluir

Estarás acordada ou em algum estado nebuloso entre o sono e a vigília? Sentes tuas pulsações, mas estão fora de ti, uma batida levemente sincopada que entra em teus ouvidos como se viesse de fora da janela. Não sabes onde estás, que lugar é este, como e por quê chegaste aqui. Teus olhos pesam nas órbitas, tua visão está borrada. Estás fraca, mas aos poucos, com esforço, te levantas da cama desse aparente quarto de hospital. O único ruído continua sendo a batida do teu coração, que ecoa de sabes lá onde (o menos provável te parece ser de dentro do teu peito). Ao levantar-te, a bata curta que te vestiram se abre à altura da tua cintura e te das conta que tens uma boceta.

Sou mulher desde que nasci, pelo menos até onde minhas lembranças da infância chegam. Não me pergunte o que isso quer dizer, eu não sei. Acho uma estupidez essa paranoia por sentido, essa urgência mórbida de definir. É uma sensação, você apenas sabe. Eu sou mulher, ponto. E tenho um pau (tinha, ao menos). E tenho as pernas peludas e pelos no peito (nunca senti vontade de depilar-me). E tenho barba, sim, gosto de passar meus dedos por seus fios, de senti-los se eriçar quando Lucas me beija (onde estará agora?), de perceber sua excitação quando desliza as mãos pela mata indócil que recobre minha face. Muitos me abominam por ser uma mulher de barba, uma mulher peluda, uma mulher sem peitos, mas onde está escrito o que uma mulher é ou deixa de ser? Pode até ser mulher, dizem, mas então aja como tal… como o quê? O que é esse “tal”?

Lucas não se importava com esse tal, não o incomodavam teus pelos, tua falta de peitos, tua roupa de homem; aliás, amava tudo aquilo, teu jeito. Te deu coragem para fugir de casa e recomeçastes juntos numa kitnet alugada próximo da universidade. Às vezes chegavas em casa ensanguentada, cravada de hematomas, alguns ossos quebrados por paramilitares das milícias de higiene social que proliferaram em feroz metástase nos últimos anos, sob a vista grossa dos governos (todo o mundo sabe que a maioria delas estão ligadas a senadores e deputados federais, a deputados estaduais e a vereadores). Outras com vontade de chorar, ferida nas entranhas pela incompreensão de outras trans no movimento, que não entendiam como uma mulher que se assumia como tal – esse fodido “tal”! – não moldasse seu corpo, não se vestisse e agisse como mulher (ainda não compreendes que porra é “agir como mulher”). E todas as vezes os braços de Lucas te acolhiam, cuidavam e acalmavam. Todas, menos a última. Saíste atordoada do apartamento, onde chegaste mais cedo porque estavas cansada e não querias assistir a aula, e onde o encontraste na cama com outra mulher (essa com vagina, sem barba e sem pelos nos braços e pernas, como dizem que uma mulher deve ser). Lucas não percebeu, pois apenas entreabriste a porta, viste a cena e correste para a rua onde, enquanto cruzavas a avenida desnorteada e mareada, um carro te atropelou.

Arrancaram meu pau, alisaram e depilaram minha pele, ajeitaram meu cabelo, até me puseram batom. Por quê? Quem disse que eu queria, que em algum momento da minha vida eu quis?

Um médico e uma enfermeira entram no quarto e pulas em cima deles. Apesar da garganta seca, um grito que te explode do fundo das vísceras quase dilacera tuas cordas vocais. O que fizeram comigo? Assustado e perplexo, o médico te segura enquanto esperneias e a enfermeira te aplica uma injeção que em poucos minutos te deixa inconsciente. Enquanto te colocam de volta na cama, se entreolham assombrados.

– Teremos interpretado mal as informações?, pergunta o médico.

– Não acho, responde a enfermeira. – A versão dela não é a mais atualizada, mas mesmo assim o software instalado nas identidades digitais não tem como errar. Funciona 24 horas, sem parar, cruzando ininterruptamente todos os dados inseridos pelo usuário na web a partir de qualquer dispositivo e transformando-os na narrativa da sua vida. É nossa biografia portátil. Encontramos a identidade dela em seu bolso. Dizia que fugira de casa porque seus pais não a aceitavam, que se sentia uma mulher e debatia muito sobre vagina, depilação, feminilidade. Quando inserimos a informação do atropelamento, o algoritmo cruzou em milissegundos milhões de informações e inferiu que tentara suicídio por não aceitar viver num corpo masculino. A agressão deve ter sido um efeito colateral da anestesia, que pode afetar temporariamente o sistema nervoso. Nós fizemos o que ela precisava e queria: não apenas salvamos sua vida depois do acidente, mas a livramos das causas de seu sofrimento. O programa não erra.

– Verdade, concluiu o médico, suspirando de alívio. Algoritmos não erram.

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