Nascer é sempre uma queda? Anjos têm asas? Homens podem voar?

Por Schneider Carpeggiani
REVISTA CONTINENTE

Na hora de organizar a obra que discutiria o gênero romance e seu lugar na construção da identidade moderna, A cultura do romance (Cosac Naify), o crítico italiano Franco Moretti não esqueceu a fatwa recebida por Salman Rushdie pelas supostas blasfêmias de Os versos satânicos (1989). A sentença de morte proferida pelo aiatolá Khomeini figura ao lado de textos de Mario Vargas Llosa, Beatriz Sarlo e Peter Burke. Para Moretti, a fatwa consistiria numa das últimas grandes críticas do século 20, aquela que marcaria o quanto ainda não conseguimos lidar com a frágil barreira entre o que é criação e o que é realidade – convenções que, assim como todas elas, nos sustentam artificialmente em sociedade.

(Uma nota curiosa: a edição brasileira da Companhia de Bolso de Os versos satânicos avisa aos leitores na contracapa que o livro “rendeu a Salman Rushdie o Whitbread Prize e uma sentença de morte, promulgada pelo aiatolá Khomeini”. Não deixa de ser irônica essa perigosa aproximação das palavras “prêmio” e “sentença de morte”.)

A fatwa foi a mais barulhenta e criminosa crítica literária do século passado. Mas não a última. Ainda que sem o extremo de relegar o autor a uma vida de reclusão e medo, apenas dois anos depois, José Saramago foi perseguido pela Igreja Católica e isolado ideologicamente em Portugal por O evangelho segundo Jesus Cristo, que reescrevia a vida do maior profeta ocidental com carne trêmula, dúvidas e, pior, a partir do olhar de um comunista ateu.

Um dos comentários mais pitorescos que o romance recebeu foi do então arcebispo de Braga, D. Eurico, que criminalizou sobretudo o tom poético da escrita de Saramago, algo impensável num texto que essencialmente seria pecaminoso: “A apregoada beleza literária, a existir nesta obra, longe de atenuante e muito menos dirimente, constitui circunstância agravante da culpabilidade do réu, seu autor.” A chamada “beleza literária”, inclusive, também está presente em Os versos satânicos. Ambos são livros para serem lidos em voz alta, recitados, como discursos. São o canto da sereia a problematizar estruturas imaginárias.

Desde a tragédia de quarta-feira (7 de janeiro), Os versos satânicos voltou a ser vasculhado e repensado (ainda que superficialmente, ou melhor: bem superficialmente) em busca de comparações e de significados obscuros. Outra nota de rodapé trágica para um livro de já tantas desventuras. E o primeiro grau de comparação surge já no seu parágrafo inicial, que fala de um atentado terrorista nos primeiros dias do ano. Uma coincidência perfeita para ampliar o fascínio e a perplexidade da plateia.

Nos últimos tempos, com o distanciamento da polêmica da fatwa, Os versos satânicos passou a ser repensado por seu intrínseco valor literário (operação das mais difíceis em qualquer obra que seja) e nem sempre sobreviveu a essa perspectiva. Por sua fama, o livro representa hoje tanto o patamar de canonização dos escritores britânicos surgidos no começo dos anos 1980 (além de Rushdie, nomes como Martin Amis e Ian McEwan) como a rachadura primeira nas ilusões multiculturais daquele final de milênio.

Tanto o livro de Rushdie quanto o de Saramago expressam as perguntas necessárias a serem feitas por quem acredita de forma radical em alguma coisa (seja em algum deus ou no vazio amplo do céu): “Como a novidade penetra no mundo? Como é que nasce? De que fusões, transformações, conjunções é feita? Como sobrevive, extrema e perigosa, como é? Que concessões, que acordos, que traições de sua natureza secreta tem ela de fazer para repelir a fúria das multidões, o anjo exterminador, a guilhotina? Nascer é sempre uma queda? Anjos têm asas? Homens podem voar?” – para usarmos aqui as palavras e as perguntas já contidas em Os versos satânicos.

Mesmo diante de tamanha polêmica, pouco ainda foi feito para compreender o quanto a fatwa pode ser pensada como uma chave de discussão ficcional, como bem observou Moretti – o ataque ocorrido na França se aproxima da ameaça sofrida por Rushdie não apenas por alguma suposta ligação ideológica entre os culpados, mas porque são atentados à representação, uma das instâncias do ficcional. Um dos advogados a defender Rushdie na época da fatwa, Geoffrey Robertson, montou seu julgamento baseado, entre outras coisas, na moralidade dos personagens que profeririam as tais blasfêmias em Os versos satânicos – num curioso joguete de “mate a criação e salve o criador”, como se ambos fossem organismos independentes, o que é possível já que ainda perseguimos uma definição completa da palavra “autor”. Robertson observou ainda que Rushdie era um caso clássico de Alice no país das Maravilhas: “condene antes e julgue depois”, a marca do nonsense explicitada por Lewis Carroll que está presente em todo extremista.

Por duas vezes estive de coletivas de imprensa com Salman Rushdie, quando de suas participações na Flip. Em ambas, ele se posicionava com enfado diante dos jornalistas que não apenas repetiam as mesmas perguntas sobre a fatwa, sobre seu período de isolamento, quanto o questionavam a respeito da instância política então em foco. Como resposta/defesa, Rushdie ou lançava comentários monossilábicos ou calmamente explicava que estava ali apenas como escritor e que gostaria de falar apenas sobre literatura. Sim, apenas sobre literatura. Se os jornalistas ao menos entendessem que justamente nesse “apenas sobre literatura” está o mais importante de se extrair de uma personalidade como Rushdie… Afinal, foi a instância do ficcional que o tornou uma das figuras centrais da política do final do século 20, uma época que desmascarou o quanto somos mais fascinados pela representação da coisa do que pela coisa em si, num aprendizado tardio do mito da caverna.

Os versos satânicos é apenas literatura. E aí é que está o seu perigo maior: representar aquilo que em sociedade, na vida banal, jamais teríamos condição de expressar de forma convincente e sedutora. Um perigo que aquele religioso de Braga tão bem entendeu ao criminalizar O evangelho de Saramago.

PS: Em 2005, na primeira participação de Rushdie na Flip, tive a sorte de presenciar uma das cenas mais curiosas da minha profissão. Na festa de encerramento do evento, vejo o escritor feliz, bêbado, no centro da pista de dança, ao som de I will survive, hit disco de Gloria Gaynor que infectou o imaginário contemporâneo pelas possibilidades subjetivas do verbo “sobreviver”. Na minha fantasia de voyeur, Rushdie dançava aquela música como uma resposta à toda perseguição sofrida, mas provavelmente essa era apenas mais um entre os inúmeros eventos que ele participou em sua carreira, com a felicidade da hora potencializada pela cachaça local e não por alguma fantasia de redenção. Não importa. O que importava ali, para a minha fantasia, era o sobrevivente e seu hino em movimento à minha frente. E, afinal de contas, não é sempre a representação da nossa fantasia que importa?

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