Natal, como portal do Além

Caros Colegas,

Não gostaria de escrever essa crônica mas ela se impõe para alem das minhas débeis forças. Tento desesperadamente segurar a vida que escorre pelos poros de um tecido esgarçado. A vida há muito tempo superou a ficção em atrocidades. Não consigo sossegar sendo devorado por cachorros. Eu que tenho medo. Também não consigo torcer mais por nenhum time.

Natal, que o poeta Jarbas chamou de leviana (assim mesmo feminina) tem sido escolhida como cidade-dormitório dos últimos dias. Eu não escolhi, estou assim há muito tempo pegando uma madorna.
Muitos aposentados escolheram Natal para viver, nos pensando dóceis, afáveis e comunicativos. Não é bem assim como um guarda-chuva, como disse o poeta. A água já não e a mesma e a qualidade de vida piorou na outrora cidade-presépio.

Uma triste sina tem marcado nossa cidade nos últimos tempos. O artista que vem aqui se apresentar, logo morre. Cruz credo. Foi assim com o grande clarinetista, arranjador e compositor Paulo Moura que no ano passado esteveve conosco nos proporcionando o melhor show do ano, tocando o maravilhoso K`ximbinho.
Foi assim também como o grande sambista João Nogueira dando um show na Cidade da Criança. A musa, a bela Nara Leão veio a Natal dar um show inesquecível e logo morreu. Sivuca e seu show com o quinteto Uirapuru na Capitania das Artes. Jair do Cavaquinho no teatrinho Sandoval Wanderley num show antológico e um dos maiores que Natal já teve.

Quando Mauro Duarte veio a Natal com Cristina Buarque não sabia que logo depois ia morrer. Por isso tomava cerveja.

E eu não convido mais ninguém. E por favor, também não me convidem. Fui!. Não, não vou. Até. Vou tomar uma.

Evoé meu adorado Paulo Moura. Obrigado por tudo.
Eu sei que estamos sempre despedindo.
Podia demorar um pouco mais e tomar a saideira.

Ah!, ia esquecendo de te dizer. Dona Militana faleceu. André Rabequeiro, também. Aquele que você conheceu e deu uma grana.!

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Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Jorge Beau Martins 14 de julho de 2010 12:01

    Aqui também fez seu último show em vida o grande Baden Powell e também os poetas do rock nacional Cazuza e Renato Russo.

    Beau

  2. Luciano Tchuêi 14 de julho de 2010 8:53

    Bibi Ferreira veio e nem morreu ainda. Seria ela uma espécie de embaixadora do além da nossa cidade? Por isso ela nunca vai? E a província é ainda um lugar bonito… nada mais justo do que descansar depois de uma ida ao paraíso.

  3. Oreny Júnior 13 de julho de 2010 19:57

    é o ciclo, os comentários ficam para os vivos…

  4. Marcos Silva 13 de julho de 2010 19:45

    João:

    Lembro de uma velha música de Gil, 1969, acho que ele regravou no cd “Quanta”: “cérebro eletrônico nenhum me dá socorro / em meu caminho inevitável para a morte”. Também cidade nenhuma nos dá socorro. Nem faz o contrário: empurrar-nos mais aceleradamente para o caminho inevitável.
    Baden, Nara e Paulo deixaram tantas coisas belas de suas vidas. E viram coisas belas em Natal – elas ainda existem.
    Mas a morte dos outros é sempre terrível pra quem fica: estou em trabalho de luto por uma querida amiga, Maria Christina Thomé, historiadora e pessoa.
    Abraço na tristeza:

  5. lulaaugusto 13 de julho de 2010 12:10

    faltou citar Baden Powel

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