Natal de Gregório de Matos

Por Woden Madruga
NA TRIBUNA DO NORTE

Leio na revista Metáfora (aqui), de junho, um poema de Gregório de Matos Guerra, intitulado “Epílogos”, que é a cara de Natal de Poti menos barroca. Tenho quase a certeza que o poeta ressuscitou e anda por estas bandas, quem sabe num turismo leve pago em 12 prestações mensais sem juros, como apregoam as agências de viagem adubando o sonho de consumo da classe C emergente. Ou seria a B? O poeta baiano aparece numa matéria cujo título é “Uma rota para ler o barroco”, assinada por Renata de Almeida. Nesta excursão literária incluem-se mais duas feras: Padre Vieira e Bento Teixeira.

Gosto da revista Metáfora. Todo mês pastoro a chegada dela na Banca de Luizinho, que fica na praça Monsenhor Expedito, em São Paulo do Potengi. Fácil de ler, bons assuntos em linguagem jornalística simples, bem longe do jaquetão de seis botões dos estilistas acadêmicos pós-doutores. A propósito, tem um texto bacana de Miguel Sanches Neto sobre linguagem, estilo, oralidade (“Percepções modernas de literatura concluem que não há contraposição de estilo e oralidade”), que começa citando Noel Rosa (“Com que roupa?”) provando que sabe matar a bola no peito, olhar o gol e chutar no ângulo.

Gosto dos romances (“Chove sobre minha infância”, “Um amor anarquista” e “Chá das cinco com o vampiro”) e dos contos de Miguel Sanches Neto, escritor paranaense que vive em Ponta Grossa. Gosto também de suas críticas e ensaios publicados em jornais e revistas. O cara ainda é poeta e professor universitário. Nesse seu texto para Metáfora, Sanches cita Ernesto Sábato, o festejado escritor argentino: “…a única linguagem do artista é a vivente, a linguagem em que se vive, se ama e se morre, já que nos momentos essenciais de nossa existência todos demonstramos ser feitos de idêntica matéria: modesta, precária, popular”.

Miguel Sanches Neto, emenda de primeira: “O grande segredo literário então estaria em não nos afastarmos das palavras usadas nos momentos mais importantes da existência, conquistando um poder de verdade que faz da escrita algo inseparável da própria vida. Esta compreensão da natureza biográfica da língua é importante para todos que querem escrever, mas principalmente para quem quer ser lido por um grupo aberto e não apenas dentro das camadas sociais tidas como literariamente letradas. Nossos cronistas sempre se valeram deste idioma despretensioso, conquistando leitores transliterários”.

A revista tem ainda Maria Bethania com um novo álbum no qual gravou, pela primeira vez, poema de sua autoria (“Carta de Amor”) e tem Marilyn Monroe, a poeta, além de atriz. Destaco ainda o ensaio de Ivan Teixeira no rasto de “Viagem na Minha Terra” de Almeida Garrett. A propósito do grande escritor e poeta português, a Global Editora acaba de lançar, incluído na coleção “Melhores Poemas”, o livro “Almeida Garrett”, numa seleção feita por Izabela Leal (“Quem bebe, rosa, o perfume / Que de teu seio respira? / Um anjo, um silfo? Ou que nume / Com esse aroma delira?”). Gerald Thomas também está em Metáfora cochichando com Samuel Beckett.

E cadê o poema de Gregório de Matos, que é a cara de Natal? Perguntaria, certamente, o mestre Gaspar. Ei-lo?

“Que falta nesta cidade?………. Verdade / Que mais por sua desonra…….. Honra / Falta mais que lhe ponha………. Vergonha // O demo a viver se exponha, / Por mais que a fama a exalta, / numa cidade, onde falta / Verdade, Honra, Vergonha. // Quem a pôs neste socrócio

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP