Natal está mais doente?

Natal, em cada rua um jornal, em cada esquina um poeta. Isso faz tempo. Os jornais praticamente acabaram. Os poetas, teimosos, estão por aí, resistindo como podem. Mas a cidade continuou ocupando suas ruas e esquinas de outras formas. Fiel ao espírito do tempo. E que tempos esses atuais!

Vieram os templos evangélicos, os picolés de Caicó, as Casas do Bolo, os quiosques de Açaí, vendedores do Natal Cap, os sommeliers, os paneleiros verde e amarelo, as edições do Sebo Vermelho, Isaura na FJA, Zuenir no FLIN, Fagner no Natal em Natal, e mais recentemente as farmácias.

Arrisco dizer que Natal talvez seja hoje no Brasil a cidade com mais farmácias. Se brincar, no mundo. Não há uma esquina, ponto comercial outrora fechado, espaço em shopping que não tenham sido transformados em farmácia.

A concorrência entre as grandes redes de drogarias do país criou uma espiral surreal. Um dia passamos por rua ou esquina de um bairro, que era ocupado, por exemplo, por um posto de gasolina, no outro está lá uma nova farmácia.

No maior shopping da cidade existe uma em cada piso. Tá certo que esses modernos negócios não vendem apenas medicamentos como antigamente. Mas esse boom é bem esquisito. Pra não dizer, sinistro!

Estão bem longe de farmácias como a de “Zé Anselmo” ou de “Manoel da Farmácia”, em Santana, onde éramos atendidos pelos donos, que receitavam com precisão para os mais diversos males e achaques. Ainda hoje relembro com pânico as Benzetacil que tomei para as reiteradas crises de garganta.

Se ocorreu essa explosão em Natal é porque certamente existe demanda. A lei da oferta e da procura não falha. O que significa dizer que temos mais doentes do que nas outras cidades. É uma hipótese plausível.

Confesso que gostava mais quando a cidade era conhecida por seus jornais e poetas. Preocupa-me uma possível atualização do velho bordão citado no início para: “Natal, em cada esquina uma farmácia, em cada rua dezenas de doentes”.

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