Natal, eu te acho patética!

Foto: Canindé Soares

Por Jota Mombaça

Quase ninguém parou para pensar em nada. Em dia de festa, é assim. E disso eles gostam. A Máquina de Alienação em Massa quer produzir ufanismos irrefletidos. A não tão potiguar assim Roberta Sá, que faz uma música qualquer-coisa, nada tão original, uma Sandy cult, foi contratada por isso, a gente sabe; tanto que entrou no palco cantando o amor por Natal. É muito fácil amar esta cidadezinha quando se vem passar férias aqui, ou nem isso. 411 anos. Eu sinto como se vivesse aqui há esse tempo todo e estou cansado, exausto, pelas tabelas (mas é claro que ninguém se importa com minha aflição).

Os escoteirinhos fardados são armas de guerra. A segurança estava reforçada, polícia para todo lado. Eu já devo ter falado de como essa política de segurança institui uma situação de controle. Eles estão fechando o cerco, acho que querem dar fim a toda essa gente estranha como eu. O povo vaia a prefeita desde a primeira vez que eu vi um evento que faça menção a ela; o povo vaia em coro, pela diversão, depois compra mais uma cerveja e canta, de braços abertos, “Natal, como eu te amo/ como eu te amo, Natal”. Mas a máquina não pára: a cada instante a afirmação: Natal é uma cidade feliz. Caiamos nós na escrota real: ninguém é feliz, a felicidade é um negócio.

A Krystal passou na prova, porque se garante e eu nunca a vi fazendo média – até foi obrigada a ler o agradecimento à prefeita e ao presidente da FUNCARTE, mas ironizou depois e ainda nos contou que foi difícil estar ali, pode-se imaginar por quê. O Natal em Natal é, como diria Caetano, a Marcha Para a Família com Deus e daí por isso são a bola da vez os ídolos cristãos (sim, porque os evangélicos, por exemplo, não crêem em santos mas lançam olhares santificantes para suas estrelas, como é o caso dessa Aline Barros (cafonéééééééééérrima)) e ícones da cultura de massa, tipo o Daniel que vai cantar na Zona Norte.

Mas isso tudo é bem típico daqui, até mesmo a galera mais alternativesca (que, conforme a minha teoria de boteco, pára tanto para pensar naquilo que está consumindo quanto a audiência da Ivete Sangalo) passa a idolatrar o artista quando ele entra no hall-off da fama-cult (tipo a Roberta Sá). A igreja universal é maior que deus. A calçada da fama é maior que a arte. E a máquina não pára de afirmar: vocês são todos felizes. Todos parecem acreditar. Depois do fim do Auto, antes do show careta do Diogo Guanabara & Macaxeira Jazz, um vídeo-lavagem-cerebral fez questão de nos dizer tudo o que somos: nós somos praia, nós somos aeroporto, nós somos burros, nós vamos ser esmagados por essa cidade, cri-cri-cri.

post-scriptum bem baixinho para os figurões de Natal: esperem sentados a rendição!

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