Natal no Zoo

Por Demétrio Diniz

O campo, esse lugar onde os frangos passeiam crus.
Gabriel Garcia Márquez

Clarinha vai ver com a avó o natal do shopping. Não corre mais na praia, como fazia antes, menina com seus cabelos louros esvoaçando ao vento. Nesse tempo Clarinha era natural, sua beleza saía das ondas como um brinco na orelha do mar. Agora ela está mais quieta, quase uma mocinha. Precoce, usa batom, rímel, sapatos de salto alto. Ainda assim é uma menina, quer ver o natal do shopping.

E vê. O elefante monotonamente move a tromba, o leão move a cabeça e urra, o crocodilo move a cauda e abre a boca, tudo muito lento, como se arrastado por pilhas. O gerente sorri diante de seu jardim zoológico, feliz porque escolheu o tema certo para o natal. A avó dispara a máquina, passe a mão no crocodilo, Clarinha, depois fica triste porque não pode mostrar a foto ao avô, que já morreu, Clarinha com a mão dentro da boca do crocodilo. A lembrança triste aumenta, dói na volta para casa. Tira da bolsa um comprimido, que engole em seco no ônibus.

O elefante é de plástico, o leão também, o crocodilo idem. Até mesmo o sorriso feliz do gerente parece ser de plástico. Tanto melhor assim: sem susto, sem medo, sem dor. Nenhuma possibilidade existe de um safári ou outra aventura nessa floresta, monótona como os pinheiros que a compõem, e que infelizmente enfeitam o natal, com seu verde contumaz e sempre pronto, uma árvore sem frutos, sem estações.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Aldo Lopes de Araújo 20 de Novembro de 2013 19:30

    Excelente o conto. De atmosfera. Melhor, um conto de falta de atmosfera. Falta de vida, de ar, de campo, de cheiro de mato, cheiro de continente, um Paraíso disponível que infelizmente não consegue mais disponibilizar atrativos para uma sociedade que cheira a plástico e vive encarcerada em colunas de cimento. A avó e a neta vivem a alegoria de uma estação futurística, construída numa redoma para tentar salvar a humanidade. O passado, a terra com seus bichos e suas plantas, assim como o avô, estão todos mortos, irremediavelmente mortos.

  2. Marcos Silva
    Marcos Silva 21 de Novembro de 2013 4:31

    Boa idéia de texto, epígrafe bem escolhida. Sugiro revisão de advérbios e outros complementos que às vezes sobram. Mas é uma escrita forte em sua concisa dedicação ao vazio.

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