Natal e suas síndromes

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Plutão Já Foi Planeta é velha conhecida na noite natalense, mas, para muitos, é como se tivessem saído de alguma garagem direto para o programa global. Fotografia: DoSol

A capital potiguar é uma terra de muitas peculiaridades. O natalense – salvo parcas exceções – carrega consigo certa incoerência congênita. Um bairrismo meio que às avessas, meio que paradoxal.

Natal ignora solenemente suas crias, mas ai de quem ousar diminui-las. É um protecionismo tardio e, por vezes, despropositado.

A mais recente demonstração do confuso perfil do potiguar médio veio atrelada à participação do grupo local Plutão já foi Planeta em um programa de calouros da Rede Globo de Televisão, o “Superstar”.

Cotado como favorito desde as primeiras eliminatórias, o conjunto terminou em segundo lugar, atrás dos pernambucanos do Fulô de Mandacaru.

Pronto, bastou a divulgação do resultado para que as reclamações jorrassem numa torrente interminável pelas redes sociais.

À parte da revolta natural de quem estava torcendo, um argumento muito curioso soava quase em uníssono, nas postagens que buscavam desqualificar o programa da emissora carioca.

“Absurdo! A banda que ganhou não tinha originalidade!”, disparavam uns.

“Banda cover não pode ganhar o Superstar”, reclamavam outros.

Bem, aparentemente o trabalho autoral passou a ter importância na cidade, então?

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Logo após a final do Superstar, natalenses desinformados sobre a cena musical local perguntaram por outras bandas da cidade; desconheciam Far From Alaska, quinteto que já tocou em alguns dos maiores festivais do mundo (inclusive o Lollapalooza, em São Paulo), também eleito recentemente grupo revelação em Cannes, na França

A discussão é absolutamente infindável, então não adianta entrar no mérito específico das “cover bands” por ora, mas a postura observada transparece certa dose de hipocrisia, especialmente porque o Plutão já foi Planeta está na ativa há quase três anos – com presença frequente em várias casas noturnas natalenses.

Não se trata de demonizar o público e erguer uma pretensa obrigatoriedade de se gostar do Plutão, que deixou de ser planeta jaz faz um bom tempo, por sinal.

Mais válido é suscitar uma reflexão sobre certas práticas comuns, quando se trata de trabalho próprio.

É regra local, pedir para tirar o couvert da conta ou para entrar de graça nas casas de show. E ainda tem o bom e velho “toca Raul”, que se estende a uma infinidade de outros artistas.

O natalense acha razoável pagar R$300 num show do Wesley Safadão, R$500 num Chico Buarque. São, claro, artistas de renome, cada um em seu segmento.

O ponto não é esse.

Mas a equação soa incoerente, quando o cidadão compra abadá caríssimo no Carnatal e, questionado se vai a um festival autoral na Ribeira, reclama:

“Ah, vou nada, R$ 20 tá caro”.

E é essa pessoa que está por aí, chorosa com vice do Plutão.

Se os holofotes direcionados ao Estado potiguar vão render frutos à produção autoral daqui, só o tempo dirá.

Mas a discussão em torno do tema é salutar e traz à tona enfoques variados e com uma pluralidade de posições que contribui para alavancar o cenário musical do Rio Grande do Norte – um terreno sempre fértil, mas que pouco cuida de suas colheitas.

Bate papo – “Mágica e encantamento”

Paulo Sarkis, nascido em São Paulo e radicado em Natal, é baixista do grupo Mad Dogs e vice-presidente tanto do Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio Grande do Norte (Sindmusi-RN) como da Federação Nacional dos Músicos Profissionais (Fenamusi). Colecionando milhas nas andanças musicais pelo País há algumas décadas, Sarkis comentou a celeuma criada após o fim da participação potiguar no Superstar. Confira:

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Paulo Sarkis sobre banda Fulô de Mandacaru: “[…] foi notória a quantidade de carisma que os pernambucanos soltaram no ar, contagiando com maestria. Achei justo”.
Substantivo Plural – Muita gente reclamou do resultado, falando que não tinha cabimento uma banda cover ganhar do Plutão. O que você pensa disso?

Paulo Sarkis – Acho que numa disputa desse tipo, como se fosse um festival competitivo, que tem regras claras, vale sempre o regulamento. As bandas tocam o que pensam desempenhar melhor, e todas fazem suas escolhas.

SP – Mas e quanto ao mérito artístico?

Sarkis – Não há como se dizer que quem toca autoral seja melhor ou pior, vale o regulamento. O mérito artístico não está sendo julgado através desse critério, pelo menos naquele programa, onde o público é protagonista. Também não vejo demérito em interpretações de outros artistas… acho que tem seu barato. Outra coisa sobre os covers é que existem dois tipos: os que cantam outros autores e os que copiam. Copiar é uma atividade menos relevante.

SP – Você, alguma vez, já se aborreceu por querer priorizar material autoral e faltar espaço?

Sarkis – De forma alguma! E acho que não faltam espaços, o que falta é genialidade. Agradar com música inédita é tarefa difícil.

SP – Por exemplo… temos inúmeros exemplos de gente daqui que tem um trabalho autoral, “não aconteceu” lá fora e luta pra colocar 100 pessoas num show. A questão é meritocrática, mesmo?

Sarkis – Não gosto do termo meritocracia, mas quanto se trata com cultura, arte e estética é preciso ter carisma desde o que se escreve até o que se toca ou canta. Esse “não acontecer” ou “acontecer” é um elemento mágico da arte. Um encantamento que acontece quanto mais se pratica e se tem conteúdo cultural pra oferecer. O artista não vive de fórmulas e de planejamentos, vive de mágica e encantamento.

SP – Podemos dizer, então, que não se trata de falta de incentivo, mas de falta de genialidade (pra usar seu termo)?

Sarkis – Creio que arte contagiante não surge de incentivo, mas de abnegação, conteúdo e persistência. O artista é um tipo que fica tentando e se questionando sempre, se não deu certo, isso não culpa de ninguém senão dele mesmo. Se recrie, faça uma autocrítica. Colocar a culpa noutros agentes é um erro crasso. Há que se dedicar e se transformar.

SP – E sobre o resultado do programa, em si? Você chegou a assistir algo?

Sarkis – Sim, eu vi. O resultado não poderia ser outro porque o público vota e foi notória a quantidade de carisma que os pernambucanos soltaram no ar, contagiando com maestria. Achei justo.

SP – E sua análise do Plutão? Boa banda? Tem futuro?

Sarkis – Plutão é ótima banda, se souber administrar essa posição conquistada vai longe. Seu maior cuidado, desafio, como todos os artistas que passam por uma experiência assim, é conquistar o que se vislumbra pra eles agora pra não ficar num limbo onde são grandes demais pros pubs e fora do mainstream.

Bancário, jornalista e músico. Vivo nas horas vagas junto a Larissa, Liz e Lia. Amor sempre. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Juliana 7 de Julho de 2016 16:48

    Não generalize o povo natalense, presumo que não conheça todo mundo. Tem muita gente que preza o trabalho da Plutão desde o comecinho, e que ainda assim acha injusto o resultado e não só com o argumento de ser banda autoral. Abraço, amigo.

  2. Celso 7 de Julho de 2016 19:19

    Acho que só deveriam participar bandas autorais, porque bandas covers tem muitas e fazem até mais sucesso que as autorais, porque é mais difícil fazer música autoral, alguém já viu o plutão tocar no Teatro Riachuelo antes da fama ou Hatdwind de São José de Mipibu?, mas bandas covers sempre estão lá, Queen (Argentina),
    Beatles (SP), Pink Floyd (BH), acho que tem que separar. Os festivais de música da Record na década 60, não tinham artistas covers e nem bandas, só música autoral, é impensável naquela época e também agora.

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