Natal:1599 → Natal:1943 → Natal:2012 → (E aí? O que houve?)

Um comentário de Jarbas Martins acerca do novo livro de Roberto Muylaert, intitulado “1943 – Roosevelt e Vargas em Natal” (objeto de destacada matéria na Veja de ontem) – além de um trecho de texto recente aqui publicado por François Silvestre – provocaram um tumulto na minha cachola e me fizeram voltar a pensar desenfreadamente num tema de importância e relevo histórico para nosotros:

Quais os reflexos da II Guerra Mundial e da vinda dos americanos a Natal? E quais são os reflexos de todos os nossos momentos e movimentos de colonização? O que restou pra contar dessas histórias nos campos cultural, econômico, sociológico, antropológico…?

O trecho que quero citar de François Silvestre, em que se reporta a uma publicação editorial da cidade, a revista Perigo Iminente, é o seguinte:

“Clarice Lispector se faz presente. ‘Morou’ doze dias em Natal.
Cunhou uma frase terrível. ‘Natal, essa cidadezinha sem caráter,
nem mesmo o da velhice’… Isso foi em 1944, tempo da guerra. A cidade
vivendo a imitação de vestes, música e hábitos americanos. Não
mudou muito, só na idade e na
quantidade de gente. Que os americanos
ajudaram a aumentar
.”
(destaquei)

E o de Jarbas:

“Agora uma coisa eu digo com uma certeza inabalável: eu jamais apontaria, em lista nenhuma, o livro do jornalista Roberto Muylaert – “1943 – Roosevelt e Vargas em Natal” (Bússola: 208 páginas; 36,90 reais, ou 21,90 em e-book). A “VEJA” desta semana, na seção dedicada à História, chama a atenção dos leitores para esse livro com um título, já em si,apavorante:”Onde a guerra deixou saudade”. A matéria vem ilustrada com fotos capazes de por os colonizados, daqui e alhures, em transe. Êta povinho cheio de complexo de vira-latas, como diria um direitista genial.” (destaquei)

Vale lembrar que há poucos dias o próprio Tácito Costa mencionava aqui no SPlural um certo “complexo de inferioridade” que se desenvolve por estes lados (mais especificamente no campo cultural). E lembro, também, uma indagação de Nina Rizzi (cadê a nossa Nina?) acerca de um certo “desamor” que o natalense nutre pela própria cidade. Lembra, Nina?

Aí faço uma pergunta que já li por estas bandas: “E aí, Jarbas?”. Você, nosso abade ang(l)icano, poderia responder?

E aí, meus caros irmãos e irmãs natalenses? Que massa é essa que nos constitui? A que senhor servimos?

Há tempos venho repetindo uma frase de Pessoa (do livro “Mensagem” – poema “O Infante”): “Senhor, falta cumprir-se Portugal.” Nenhuma frase se aplica melhor a Natal, essa cidade linda e ensolarada e líder nacional de incompletudes.

Quero ler, sim, Jarbas, esse livro. Pra ver se há alguma mísera pista que me explique o porquê de Natal nunca ter se “cumprido”. E o que deixou de relevante a vinda dos americanos pra cá (por sinal, uma informação que considero terrível e muito importante é a de que o governo Vargas teria vetado a vinda de negros: com a palavra os historiadores). Tanta gente passou por aqui e não ganhamos nem um carteirinha de identidade com o nome: “Cosmopolita da Silva.

O que nos move, Natal? O que nos comove? Cazuza diria, hoje: “Natal, mostra a tua cara!”

Pergunto mais: o que deixaram os portugueses das origens e alguns holandeses que estiveram por aqui? E o que muitos levaram e outros ainda têm levado? O que sobra dessa historinha, além de uma Ponta Negra desmoralizada e outras muitas coisas mais?

Jarbas, realmente a frase é apavorante. Pergunto: Que espécie de saudade é essa que a revista Veja menciona? Talvez as palavras de François resumam um pouco a coisa: “quantidade de gente…americanos ajudaram a aumentar.”

Amor que fica é mesmo amor….?

E minha cabeça vai se arrebentando de tanto eu perguntar: Por quê, meu Deus??? Por quais cargas d’água, Natal???

E de quê tanto riam Roosevelt e Vargas? Será que o novo livro revela alguma informação que não temos? Se meu Jeep falasse…

Tenho uma fé inquebrantável de que alguém consiga respostas para essas perguntas um dia.

Comments

There are 15 comments for this article
  1. Lívio Oliveira 16 de Abril de 2012 14:46

    Esqueci de colocar esse trecho, Tácito, logo abaixo da frase “com a palavra os historiadores”:

    “Tanta gente passou por aqui e não ganhamos nem um carteirinha de identidade com o nome: “Cosmopolita da Silva”.

    Pipa, a meu ver, tem uma troca cultural muito mais interessante hoje em dia. Natal é teflon. Nada pega por aqui.

    E cabe ressaltar que – caso se confirme a existência histórica desse veto aos negros americanos em Natal – perdemos a oportunidade de uma troca cultural riquíssima, principalmente no campo musical, no Jazz, no Blues.

    E o que ficou?”

  2. Jarbas Martins 16 de Abril de 2012 15:04

    Meu discurso de difamação à cidade do Natal, amigo Lívio, continua.Tenho que repeti-lo até o fim da vida, sob pena de ele cair no esquecimento.É a minha sina. Além da frase canonizada, de domínio público, que meu avô angicano repetia (“Natal, não há tal…”), tem essa genial de Clarice Lispector, que François Silvestre citou. Lá se vão as minhas, que muito ficam a dever àquelas: l) Natal é um feriado municipal. 2) Natal, a começar do belo adjetivo, é uma cidade leviana. 3) Quando fundaram Natal, não combinaram com Deus. 4) Fausto, se fosse natalense, venderia sua alma a um colunista social…

  3. Anchieta Rolim 16 de Abril de 2012 15:32

    Lívio, fiz um comentário sobre esse assunto em um de seus textos postados aqui no SP ” Um olhar acerca da literária potiguar”. Creio que de “certa forma” meu questionamento pelo menos ao que se refere a nossa produção cultural é o mesmo que o seu: Natal: 2012. (E aí? O que houve?).

  4. Jarbas Martins 16 de Abril de 2012 15:34

    Minha última frase, Lívio, ficou incompleta: Fausto, se fosse natalense, venderia a alma a um colunista social. Em troca do glamour.

  5. Lívio Oliveira 16 de Abril de 2012 15:58

    “Natal é uma praia.”: Não sei de quem é essa, Jarbas, mas gosto.

  6. Lívio Oliveira 16 de Abril de 2012 16:08

    Anchieta Rolim, soube agora que o show de Chico Buarque vai custar 380 paus!!!!! Sintoma de Natal, né? Olha que sou chicólatra, mas não dá pra tirar essa fortuna do bolso. Dizem que pelaí o show vai custar mais barato. Alguém pode confirmar? Se essa moda pegar, o negócio do Teatro Riachuelo vai ficar complicado. E o show de McCartney no Recife termina sendo bem mais barato.

  7. Anchieta Rolim 16 de Abril de 2012 16:39

    Assistir Paul, sai mais barato mesmo Lívio. Veja os preços que estão na internet. Arquibancadas: R$ 160,00 – Meia R$ 80,00. Gramado/Arquibancada inferior: R$ 260,00 – Meia R$ 130,00
    Cadeira: R$ 340,00 – Meia R$ 170,00 e Pista Premium: R$ 600,00 – meia: R$ 300,00. Se levarmos em consideração as despesas para contratação de cada um dos shows a diferença é alarmante…

  8. Lívio Oliveira 16 de Abril de 2012 17:16

    Tácito, vais sortear ingressos do show de Chico?

  9. Tácito Costa
    Tácito Costa 16 de Abril de 2012 18:27

    rsrsrs… rapaz, acho que o Teatro Riachuelo sequer sabe da existência do SP. Claro que se a produção enviasse o blog sortearia. Não temos nenhum preconceito, mas preferimos postar na agenda os eventos que não conseguem tanta visibilidade na mídia, um caminho alternativo que adotamos, mais condizente com a linha do SP.

  10. Nina Rizzi 16 de Abril de 2012 21:43

    Ainda estou aqui, camarada, a pensar nessa relação de amor e ódio: a necessidade de afirmação e negação…

  11. Lívio Oliveira 17 de Abril de 2012 3:31

    Nina, fico feliz em ler você aqui.

  12. Jarbas Martins 17 de Abril de 2012 5:59

    Natal é uma praia, Belo e verdadeiro, Lívio.

  13. Lívio Oliveira 17 de Abril de 2012 8:41

    Tácito, se o Teatro Riachuelo não souber da existência do SPlural, um dos principais e mais influentes veículos informativo-culturais de Natal, alguma coisa está muito errada…

  14. Lívio Oliveira 18 de Abril de 2012 7:57

    Anchieta e Tácito, parece-me que os preços dos dois shows de Chico não foram impeditivos a que o público natalense esgotasse toda a bilheteria (parece que já não há mais ingressos desde ontem). Eu entendo: a demanda reprimida era grande. Os fãs de Chico há tempos aguardavam pela presença dele em Natal. E mão dá pra deixar de ser admirador em face do preço do ingresso. Até pergunto: em que medida Chico apita nesse aspecto?

    Eu só estou mais tranquilo (senão, também compraria – mesmo contrariado com o preço – o ingresso) porque já assisti a um show de Chico em Recife faz alguns anos. Na época, escrevi um texto exclusivo para o Diário de Natal.

    Dessa vez, minha opção foi também por Recife e pelo show de Paul. Quero ver o ex-Beatle dessa vez. Viajarei sexta à tarde para o show do sábado, dia 21/04. Pretendo, também, escrever um texto exclusivo para o SPlural. Tácito me pediu para fazer fotos, mas não sei se será possível em face das restrições. De qualquer forma, vou ver se levo uma máquina pequena ou um celular.

  15. Anchieta Rolim 18 de Abril de 2012 10:30

    Livio e Tácito, acho que um dos motivos dos altos preços de ingressos para determinado tipo de show, deve-se a grande queda na venda dos cd’s, É uma maneira de compensar as perdas…afinal, certos artista vivem da comercialização de sua obra. Se estivesse em Natal e com uma sobra de 380,00 com certeza iria ver Chico. Agora que o show de Paul vai ser massa, isso vai. Como também não vou poder ir, espero ansioso seu texto.

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