Navarro. Um ícone natalense, em todas as direções

Foto: Canindé Soares

Por Roberto Cardoso 

Lacan disse que o homem não pensa, ele é pensado, e o homem não fala, ele é falado. Ou seja, um homem é construído e formado por aqueles que o pensam ou o imaginam. Um homem é formado do que dizem, pensam e imaginam sobre ele, dos assuntos que circulam sobre ele, do que dizem a respeito dele. Do que ele escreve, e do que leem sobre ele. De tudo que ele escreve, podem ler muito ou pouca coisa sobre ele, ler tudo ou nada sobre ele. E ele escreve, sobre coisas que ele leu, observou ou descreveu.

Da mesma forma o homem com a sua sociedade constrói seus ídolos e seus heróis, constrói seus símbolos históricos e seus símbolos da pátria, símbolo locais e regionais. Símbolos místicos, literários, políticos ou religiosos. Símbolos que dão rumos a sua história, ao seu norteamento. O homem vive por símbolos criados e cultivados: vitaminas, carboidratos e proteínas; minerais, vegetais e animais.

Um olhar binário: só conhece o dia ou a noite, a luz e a escuridão; os sólidos e os líquidos; o visível e o invisível; o material e o imaterial; o natural e o artificial. O pensamento binário: para frente e para trás; ligado ou desligado; o ‘zero’ e o ‘um’; o ‘sim’ e o ‘não’; os pés e as mãos. O caminho a seguir e caminho a não seguir; o caminho e o não caminho, caminhos e descaminhos; o Norte e o Sul, o Leste e o Oeste. O mundo foi dividido em dois hemisférios (N/S), e em duas direções (D/E e L/O).

Com os pés no chão, e o olhar para frente, levantando a cabeça e um para olhar o céu, com as mãos levantadas, distinguindo e definindo uma direção a ser tomada. No céu encontramos as estrelas que nos dão as direções, a Estrela no Norte indica a direção Norte no hemisfério Norte e o Cruzeiro do Sul indica a direção do Sul para aqueles que estão localizados no hemisfério Sul. As Plêiades indicam a época de semear e plantar. De verde a maduro, o ponto de colher e armazenar. Com a festa da colheita, colhendo os frutos e resultados.

Navegadores e descobridores ultrapassaram a linha do Equador e avistaram um sinal, o Cruzeiro do Sul, um sinal e uma direção, um sinal estampado no céu. Navegavam em nome do Papa, e Deus lhes forneceu um sinal. Foi olhando para o céu que o homem construiu sua história, sobre a terra, construiu suas memórias. Os sinais enviados pelo céu:http://www.publikador.com/filosofia/maracaja/2014/12/os-sinais-enviados-pelo-ceu/ . Com sinais e símbolos escreve sobre o papiro e o papel.

Natal/RN por lembrar a simbologia religiosa católica e natalícia, construiu seus símbolos natalícios e fictícios. O Forte dos Reis Magos, a muitos anos passados, como estratégia de proteção econômica e militar; e a Arvore de Natal, em um momento mais presente, como uma estratégia de união, turística e econômica. Idealizou um carnaval, denominando ser um Carnatal, como uma época e um ambiente, localizado no tempo e no espaço, para atrair turistas, independente de regiões e religiões. O macro e o micro: apropriou-se de datas e santos religiosos, apropriou-se da praia e do mar de outros municípios. Tal como muitos se apropriam aqui, de todo o continente.

E Natal construiu seu ícone maior, o ícone colossal, a ponte Newton Navarro. Um ícone turístico e artístico. Ícone de engenharias e arquiteturas, dando um nome a um arquiteto local. Arquiteto dos cálculos e das ideias: cronista e articulista; dramaturgo, poeta e desenhista; pintor e ensaísta. Seu nome foi dado a mais alta ponte estaiada da região. Fruto de calculistas e projetistas, uma visão e uma missão. Um sistema binário de ida e volta, ligando duas regiões.

Uma ponte para fazer travessias, uma ponte para encontrar o Norte, uma ponte para chegar aos mares e aos paraísos do Sul. Ligou Santos Reis á Redinha, os religiosos e os indígenas, a zona Norte à zona Sul. Os dois hemisférios natalenses, rivalizados pelo Potengi, desde as épocas dos potiguares. Um ícone artificial mais alto que os ícones naturais e históricos, ícones formados pelos homens e pelos ventos. Um ícone que pudesse elevar Natal as alturas, sentir o vento nas alturas, com vista para lá longe no alto mar. Onde pudesse avistar a zona Sul e a zona Norte, o morro do Careca e o Forte. Avistar do alto as terras de índios e portugueses; ingleses e americanos; franceses e holandeses, urbanos e suburbanos.

O poeta arquiteto foi lembrado, em quintas literárias, onde sempre se procura a quintessência, além do suave aroma de café, com pães amineirados, de Aline e Barros. Estiveram ali presentes: paranaenses, natalenses e seridoenses; jornalistas e colunistas; poetas e escritores; mestres e doutores. Escritores e poetas natalenses estão em busca de uma ponte, seus rumos para o Norte. Procuram ideias e receitas, algo que facilite suas travessias, para que possam soltar seus versos e verbos nas estradas, alternativas para seus caminhos de pedras, um Seridó moderno, em uma cidade de prantos diários, com as brisas do mar, movimentando os cúmulos, que trazem chuvas intermitentes e esparsas.

A ponte foi o ícone mais alto que se pode criar. A alternativa moderna para impedir a chegada dos que chegam pelo mar. Dois pares de pilares como sentinelas, foram instalados e estaiados. Tal como o forte que ali na esquina com o Norte um dia pôs-se a vigiar, e proteger o rio grande do Norte, a capitania com comportamentos hereditários, o comportamento tornou-se sedentário. Natal sem acidentes geográficos que protejam as suas praias e os seus mares, Natal a cidade aberta para todos os povos e navegantes, visitantes e viajantes, todos invasores e imigrantes, com ideias mirabolantes. Terra de americanos e abcedistas, disputam com vascaínos e corintianos, lembrando os que chegam pelo mar, os times com bandeiras estampadas: um timão que dá rumo ao leme, e a cruz de malta, estampadas em velas ao sabor dos ventos. A lembrança das caravelas, com timão, leme e velas. A cidade dos ocupantes construiu sua primeira barreira que pudesse conter navios repletos de imigrantes ou turistas, os oportunistas. Limites para cargas e passageiros, nem todos os navios tem calado para ali em baixo passar.

Há vários pontos de vista sobre a ponte e sob a ponte, ponte velha ou ponte nova; ditórios e contraditórios, divergentes e convergentes. Há benefícios e/ou malefícios nas fortalezas e construções. Natal agora como base e pista de Tucanos, Xavantes e Bandeirantes, novos pássaros, novos índios e novos conquistadores que aumentam limites geográficos. Uma nova ponte liga seus dois hemisférios, envoltos de segredos e mistérios, como uma serpente de origem histórica, de Extremoz ou de Ceara Mirim, que veio de um lado, atravessou o rio e em outro lado ficar, encontrou um Capim Macio.

No cenário internacional, Natal briga pela defesa do hemisfério meridional. Participou dos cenários de guerra, com voos militares. Agora em tempos de paz, busca voos comerciais. Mas voos de Natal para o HUG de Cabo Verde deverão ser iniciados, um Hug dentro dos limites do Tratado de Tordesilhas, uma região sob o domínio de Portugal.

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