Navegando em mar de cinismo

Fotografia: Alex Pazuello

Algo de muito nefasto está se construindo no cenário desta nação. As colunas de fumaça são muitas e densas, o barulho ensurdecedor da destruição e a poeira que dela emerge ainda nos impedem de discernir o que se dá e o que de nós restará, mas muitos são os sinais de maus presságios.

Não quero ser o pessimista a singrar sozinho as ondas de ufanismo e alegria. É fato que neste país se semeou ontem e sempre um ufanismo deveras otimista. Já houve quem dissesse ser Deus um brasileiro, como também em vários dos momentos históricos hasteou-se a bandeira do Brasil, país do futuro.

Quem sou eu para questionar Deus quem seja ele! Mas acho de péssimo gosto a outra fórmula, que promete um futuro inatingível. Rodamos como um cão em torno de nós mesmos a busca de morder a nossa cauda, tentando alcançar esse futuro tão docemente oferecido e duramente de nós surrupiado. Os criadores dessas máximas se não passam de tolos são o que temos provado dia a dia em nossa história política recente: são todos cínicos.

O cinismo nos governa, seja na vida pública ou privada. Há um cínico em mim que Deus me disse. Aflora agora em cada um de nós o cinismo em parte nos moldes do fundador deste movimento filosófico, Diógenes de Sinope (400-325 a.C.).

Neste caso, herdam do movimento filosófico de Diógenes “o cão” exclusivamente o princípio anticulturalista que considera inútil o estudo, a pesquisa, o pensamento como formas de atingir-se a perfeição individual e social. Pouco importa o saber. Talvez até quanto menos soubermos mais conveniente.

Meritocracia individualista

Ilustração: Sébastien Thibault

Aculturados, estudamos e aprendemos disseminando “memes” e vídeos via rede social e disto extraímos os pilares de nossa sabedoria. Que se danem os que estudam.

Aliás, estes são perigosos: estão inseminando ideologias de gênero, de raça, de liberdade, de justiça. Todos, coisas perigosas à cidadania dos homens de bem e ao bem de quem só tem a ganhar com o cinismo e a hipocrisia. Aí reside também a segunda herança do cinismo diogênico: a da autarquia.

Conceito em ideia sublime, o de bastar-se a si mesmo, cuja práxis depõe algo inverso, posto que se soma a ideia da meritocracia individualista. Nela impera a ideia de que se Deus vela por mim, aos outros cabe o inferno. A teologia da prosperidade rega esse sentimento individualista de que a sociedade é constituída pelos eleitos de Deus, a quem cabe tudo, e pelos condenados ao salve-se quem puder. A estes, lavo minhas mãos.

A instauração do cinismo é mais um projeto político do que um fenômeno social. É preciso disseminar a discórdia como os filhos de Babel, para que cheguemos ao ponto de nos tornarmos incapazes de falar a mesma língua. Sem unidade linguística não há unidade de pensamento.

E sem o pensamento pouco se dá a busca da verdade. A verdade se torna uma inconveniência. Viveremos então a república do cinismo numa nação de mentiras.

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