Nazareth

Por Arthur Dapieve
O GLOBO

No último Dia dos Namorados, a Orquestra Petrobras Sinfônica, sob a regência de Isaac Karabtchevsky, dedicou um programa da sua Série Portinari a Franz Liszt, o compositor húngaro do qual comemoramos o bicentenário de nascimento em 2011. Era uma coincidência particularmente feliz: Liszt foi um romântico — e um mulherengo.

Porém, o filé-mignon daquele vesperal era a presença de Arnaldo Cohen, tocando os dois concertos para piano do compositor. Cohen está entre os maiores intérpretes mundiais de Liszt e, mais uma vez, comprovou tal condição no Municipal. Ovacionado, retribuiu com peças curtas do carioca Ernesto Nazareth (foto). Foi um momento mágico, tão mágico que desde então praticamente só escuto esse Nazareth “clássico”.

Embora seja mais comumente saudado como o Pai do Tango brasileiro ou como o Santo Padroeiro do Choro, Nazareth também é um compositor que fica muito à vontade numa sala de concertos. Seus tangos, suas polcas e, sobretudo, suas valsas têm todos os predicados do que se convencionou chamar de “música clássica”, talvez menos pela perenidade do que pelo respeito a certas formas (ou da subversão ostensiva delas).

Mais que isso, Nazareth é um tipo raríssimo e valioso de compositor: seu repertório “popular” é constituído exatamente pelas mesmas peças que constituem seu repertório “clássico”. O que o torna mais isto ou mais aquilo é o contexto, seja o do local, seja o da instrumentação, seja ainda o do(s) intérprete(s). Ou seja, sua música soa natural tanto no Teatro Municipal quanto numa roda de choro em Laranjeiras.

Não é surpresa, portanto, que sua obra já tenha rendido discos marcantes a pianistas de trajetórias tão distintas quanto Arthur Moreira Lima e Antonio Adolfo. O primeiro foi o principal responsável pelo renascimento do interesse pelo Nazareth “clássico”, graças a um álbum duplo solo, lançado pelo selo Marcus Pereira em 1977.

O segundo lançou “Os pianeiros — Antônio Adolfo abraça Ernesto Nazareth” pouco depois, em 1981, pelo selo Kuarup, acompanhado por, entre outros chorões, Dino no violão de sete cordas e Jaques Morelenbaum no cello. (Adolfo viria a gravar também outra artista anfíbia entre o “popular” e o “clássico”: Chiquinha Gonzaga.)

Para quem ou já tiver ou se dispuser a encontrar esses discos, vale a pena comparar, por exemplo, as versões da linda valsa “Confidências” — menos conhecida que os dois maiores sucessos de Nazareth, a polca “Apanhei- te cavaquinho” e o tango “Odeon”, mas de nível igual ou superior — oferecidas por Moreira Lima e por Adolfo. Ambas bonitas de doer, com aquela melancolia que aproxima o carioca de Chopin.

Aliás, aspectos importantes da biografia de Nazareth parecem formar um pot-pourri acariocado das biografias de compositores românticos ou românticos tardios europeus. Nascido em 1863, no Morro do Nheco, atual Morro do Pinto, entre a Cidade Nova e o Santo Cristo, Nazareth padeceu com a surdez (como Beethoven), sofreu com a perda de uma filha (como Mahler) e morreu louco (como Schumann) em 1934, depois de fugir da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, e se afogar na represa próxima.

Já reconhecido como Nazareth mesmo, ele chegou a ganhar a vida ou tocando na sala de espera do cinema Odeon ou tocando as partituras alheias à venda nas casas Carlos Gomes, na Rua Gonçalves Dias, e Stephan, na Galeria Cruzeiro. Num tempo em que era incomum a reprodução eletromecânica de discos pré-gravados, esta era quase a única maneira de o freguês saber como soava a música que estava levando para casa.

A outra maneira de saber era bem mais arriscada: se ele ousasse tocar a partitura que se às duras críticas de Nazareth.

Segundo seu biógrafo Luiz Antônio de Almeida, existem 211 obras da autoria confirmada de Nazareth, a maioria tangos (88), valsas (41) e polcas (28), mais sambas, marchas, foxtrotes etc. O compositor chegou até elas graças a aulas com a própria mãe, Carolina Augusta, com um amigo da família, Eduardo Rodolpho de Andrade Madeira, e com um professor negro nascido em Nova Orleans, Charles Lucien Lambert. O biógrafo, contudo, frisa que Nazareth foi praticamente autodidata. Essa circunstância, parece- me, ajuda a explicar parte da originalidade da sua obra: alma brasileira em corpo europeu. Como Heitor Villa-Lobos, que a ele dedicou o “Choros nº 1”, para violão.

O maestro carioca não foi o único grande nome do campo da música clássica a se maravilhar com Nazareth: quando esteve no Rio de Janeiro em 1918, o pianista polonês Arthur Rubinstein — o maior intérprete da obra de seu conterrâneo Chopin — ficou embasbacado com os ritmos que o brasileiro extraía do instrumento. O francês Darius Milhaud, que viveu no Rio entre 1917 e 1919, considerou-o “genial”.

Entre os brasileiros, o porto-alegrense Radamés Gnatalli, outro músico anfíbio, gostava de escutá-lo tocar na Casa Stephan. E é possível, ainda, escutar a influência de Chopinvia- Nazareth nas deliciosas “Valsas choro” e nas “Valsas de esquina”, do paulistano Francisco Mignone. Claro que Nazareth nem precisava de todo esse apreço no campo clássico. Centenas de conjuntos de choro sempre o cultuaram como o grande compositor que é. No entanto, essa dupla valorização dá melhor a dimensão do homem.

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