Ne me quitte pas – Flipipa

Por Marcos Cavalcanti

(Do editor: versão integral, enviada por e-mail)

Tanto mar, tanto mar…pousadas, bares e restaurantes em profusão se espraiando ao lado de lojas de artesanato a perder de vista em ruas estreitas e tortuosas. Comunidade praieira labiríntica e polifônica, de um vai e vem em ritmo perpétuo e solar. Eis as minhas primeiras impressões do famoso cartão postal do elefantinho costeiro. Cheguei por volta das 18h e fui direto para a tenda literária, onde já estava prestes a iniciar a primeira mesa , representada por Daniel Galera, Rafael Coutinho e mediada por Alex de Souza.

O papo da primeira rodada foi para mim tão substancial quanto a relação e significado do título “Cachalote” para o conteúdo da obra, e isso basta para esgotar meu comentário. Achei a tenda pequena e mais me espantei com a escassez de estandes, apenas uma santíssima trindade constituída pelo Sebo Vermelho, Coopertativa Cultural e pela Siciliano para dar conta da fome de livro durante os três dias de evento.

Depois de uma viagem de mais de 200 quilômetros, até então, sem jantar, estava duplamente esfomeado. A segunda mesa compensou em parte a sensação de inanição da primeira. Mia Couto veio e declarou seu amor ao Brasil. Poetizou com elegância em três suculentas laudas que espero ver reproduzidas neste Substantivo Plural, sobretudo para saciar também o entusiasmo de Tácito que recebeu promessa nesse sentido .

Nos apartes do público tive a oportunidade de saudar o moçambicano de aparência européia e o fiz com um poema de minha autoria, intitulado “Escrever… o quê?” ocasião em que perguntei sua opinião sobre a obra de Paulo Coelho, depois de contextualizar a pergunta, ressaltando inclusive, num paralelo, a diferença entre a obra de Jorge Amado, tão brasileira, e amada por ele, Mia Couto, com a influência ou “não” que o Coelho exerce no continente Africano, se é que exerce alguma mesmo. Ficamos eu e o público que aplaudiu a pergunta, sem resposta, pois num miado curto, Couto saiu-se pela tangente dizendo não opinar sobre colegas de profissão (sobre outros pode, inclusive os já falecidos). Ora, como se eu tivesse pedido para ele falar mal da obra ou do próprio bruxo. Queria apenas a sua honestíssima opinião a respeito. Poderia ter dito que não conhecia a obra do Mago; que nada leu de crítica sobre a mesma em seu país de origem ou em outros; que não tinha como dimensionar a influência ou não do tal Coelho. Mas isso tem pouca importância, o que me decepcionou um pouco foi que na terra de Cascudo, falando sobre um tema que era o da relação afetiva do Brasil com a África, nenhuma palavra sobre o mestre da Junqueira Aires, que tanto e melhor que qualquer outro contribuiu para esta aproximação. Só para ficar num exemplo cascudiano, cito “Made in África”.

Não pude acompanhar a mesa do Laurentino Gomes , como gostaria, pois me juntei a amigos da Secretaria de Educação Estadual, num agradável sarau regado a vinho e camarão no Pipa Café, dos simpáticos Cláudio(português) e Sueli, sua esposa brasileira. Mas ainda dei umas “espiadas” para sentir no ar a tensão entre o acadêmico e o jornalista ao travarem discussão sobre história com H maiúsculo ou minúsculo. Laurentino foi honesto em revelar: “ sou pesquisador de segunda fonte”. Li 1808 e não sinto desejo de folhear 1822.

Mas voltando ao dia seguinte, como de manhã nem os estandes da Flipipa estavam abertos, fui ver fllipper na enseada dos golfinhos. Um nativo de câmara filmadora na mão acompanhava turistas e gritava: sobe Flipper, sobe flipper e não é que coincidentemente os golfinhos apareciam. De volta, instalei-me vermelho no sebo da mesma cor e lá travei um ótimo papo com o poeta Falves Silva, esse apaixonado por poesia, livros e cinema.

Confesso que não entendo por que razão as manhãs e as tardes passavam-se vazias na grande Taba Literária. Será que não temos escritores e temas suficientes para preencher os dois turnos do evento? Garanto que muitos escritores estariam dispostos a tomar parte sem esperar o tão exaltado cheque por Ubaldo Ribeiro. Descobri tarde demais que a minha grande mancada foi não acompanhar de perto o Flipaut.

Gostei do Pernambucano Frederico. Quanta erudição, quanta competência ao abordar o tema do cangaço (história não envelhece, permanece história). Ficaria 10 horas seguidas ouvindo tanta riqueza de conteúdo e vocabular. Clotilde poderia ter dado uma maior contribuição ao debate, mas preferiu contentar-se em apenas mediar. Enquanto Frederico falava com entusiasmo de bornais, chapéus e armamentos, lembrava-me da figura de Luiz Gonzaga com seu chapéu de cangaceiro, certamente influenciado e influenciando gerações pela mesma estética do cangaço. Como destacou Frederico, é uma pena que a cultura da “destruição total” imposta pelo poder dominante tenha aniquilado as peças originais dessa odisséia sertaneja (há os que querem apagar a história). Num Brasil onde a memória parece não ter muito valor, é louvável o esforço que Frederico e outros fazem para atualizar o tema do cangaço também sob o viés de sua estética.

Gostei de ouvir Moacy ao sair em defesa dos originais de Cascudo. Alterar os escritos do mestre, adicionando o que não há ou mutilando trechos é um atentado à verdade de sua obra, é assassinar a memória de quem tanto lutou por conservá-la. Com a palavra a universidade, a ANL, a família e os detratores de sua obra. O grito do Cirne já foi dado!

O papo com Noll revelou-me sem dúvidas, um grande escritor. O artifício de ler seus livros, seja para retratar a voz de quaisquer dos seus personagens, no tom que encontrou e que reproduz aonde vai, deve ser um feito único no mundo da literatura, para o bem ou para o mal da recepção. Por sorte que ao lermos, somos nós que emprestamos vozes aos personagens e não o Noll. O gaúcho destila poesia em altas doses em sua densa prosa, fez-me lembrar com seus psicologismo, sua introspecção e existencialismo, os personagens de uma Clarice Lispector .

Ubaldo foi engraçado, mas não foi leve, porque quedou-se repetindo uma piada só: Money…money, money. Carneiro, tão bom poeta quanto crítico, se deixou ofuscar pelas gracinhas de seu parceiro de obra televisiva e bar.

Final do programado no Flipipa e nova noite poética no bar da Selva, recitando ao lado das amigas Silvana e Magna e imersos no som tribal que marcou o passo da dança do arte-educador Cláudio Cavalcanti e dos dois dançarinos do grupo parafolclórico da UFRN. Depois, porque a noite em Pipa é uma criança levada, mais vinho, mais poesia e música francesa na voz do meu amigo poeta Xavier. Pipa parecia dizer-me “Ne me quitte pas”. Não vou esquecer.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Marcos Cavalcanti 27 de novembro de 2010 20:49

    Merci, Irene Varloteau e em homenagem a você, um poema de Manuel Bandeira:

    IRENE NO CÉU

    Irene preta
    Irene boa
    Irene sempre de bom humor.

    Imagino Irene entrando no céu:
    Licença, meu branco!
    E São Pedro bonachão:
    Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

  2. irene Varloteau ( França) 27 de novembro de 2010 13:47

    j ai lu et j ai trouve ça génial “ne me quitte pas je t inventerais des perles de pluie venues d un pays qui n existe pas “je creuserait la terre méme apres ma mort pour curvrir ton cors d or chançon de JACQUES BREL AMITIES IRENE

  3. Alex de Souza 27 de novembro de 2010 11:32

    parece que só eu gostei da mesa que participei. hahahaha.

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