‘Nebraska’

Por Arhur Dapieve
O GLOBO

Bruce Springsteen não se apresentava no Brasil havia tanto tempo que, quando seu nome foi anunciado para o elenco do Rock in Rio 2013, muita gente disse que ele nunca estivera por aqui. Como se o século XX não tivesse existido. Como se não houvesse ocorrido aquele espetacular show da Anistia Internacional em São Paulo, no Parque Antártica, antigo campo do Palmeiras, na noite de 12 de outubro de 1988.

Crianças, eu vi, eu estava lá. Pedi folga no “Jornal do Brasil”, comprei a ponte aérea, fui com a roupa do corpo, levei um perdido de quem iria me hospedar, dormi no chão do apartamento de ex-colegas de faculdade em Perdizes, tomei café da manhã numa padaria, peguei o voo de volta e fui trabalhar na Avenida Brasil 500. O tipo de disposição que ficou um quarto de século para trás. Hoje, cruzar a rua me cansa.

O show na Barra Funda não durou as quase três horas da madrugada de domingo passado na Barra Profunda porque, na turnê “Human Rights Now!”, Springsteen e a E Street Band dividiam o palco com Peter Gabriel, Sting, Youssou N’Dour, Tracy Chapman e artistas locais, em cada uma das 20 escalas no mundo. Na brasileira, Milton Nascimento. Além disso, o cacique Raoni fez uma participação na cota de Sting.

Desta vez, assisti a Springsteen pelo Multishow, que fez ótima transmissão dos espetáculos. Se, na véspera de completar 64 anos, Springsteen foi capaz de suar a camisa e o jeans daquele jeito, imagine durante um show mais curto em 1988. O homem tem um vigor, hã, sobre-humano. Em 1974, o crítico Jon Landau escreveu a frase famosa num jornal de Boston: “Eu vi o futuro do rock’n’roll, e seu nome é Bruce Springsteen.”

O paradoxo é que The Boss sempre foi cultor da tradição, não amante da inovação. Seus shows são extraordinários, mas tanto em 1988 quanto agora me deixaram um pouquinho frustrado. Springsteen não tocou nada de “Nebraska”, meu disco favorito. Entendo perfeitamente o porquê, mas me frustro mesmo assim. O LP de 1982 é uma coleção de dez canções sombrias, escritas como se fossem depoimentos de personagens que perderam o sonho americano porque nem sequer conseguiram dormir.

Springsteen gravou “Nebraska” sozinho, voz, violão e gaita, num estúdio portátil de quatro canais. Era para ser o rascunho de um novo trabalho com a azeitadíssima E Street Band. Este disco com a casa cheia também chegou a ser gravado, mas, uma vez pronto, todos concordaram que “Nebraska” deveria ser deixado cru, como estava nas fitas demo. Ainda se especula se algum dia a versão elétrica será afinal lançada.

Embora “Born in the USA”, tocado na íntegra e na ordem no Rock in Rio, seja o disco mais emblemático e popular da robusta obra de Springsteen, “Nebraska” é o objeto preferencial de culto. Suas músicas, sobretudo “State trooper”, são gravadas constantemente por outros artistas. O álbum inteiro, aliás, foi regravado em 2000 como “Badlands — A tribute to Bruce Springsteen’s Nebraska”, tendo entre os participantes Chrissie Hynde (dos Pretenders), Los Lobos e Ben Harper. Além disso, Johnny Cash contribuiu com uma das três faixas-bônus, “I’m on fire”, de “Born in the USA”.

Se esse álbum de 1984 é colorido em vermelho, azul e branco, apesar de estar longe de ser um hino de louvor aos Estados Unidos, como acreditam tantos ouvintes, inclusive americanos, o seu antecessor imediato é todo preto e branco. A capa mostra a paisagem desolada vista pelo vidro dianteiro de um carro, a neve se acumulando sobre o limpador. Há uma estrada vazia à frente, mas não há nenhuma saída à vista.

A faixa-título se baseia na história real de um assassino de 19 anos, Charles Starkweather. Onze pessoas tombaram no caminho dele e de sua namorada de 14 anos, Caril Ann Fugate, pelos estados do Nebraska e do Wyoming, entre dezembro de 1957 e janeiro de 1958. Ele foi executado em 1959. Ela saiu da prisão em 1976. Na canção, a primeira pessoa é de Starkweather: “Eles queriam saber por que eu fiz o que fiz/ Bem, senhor, eu acho que há só mesquinharia neste mundo.”

No decorrer da carreira, os períodos mais sombrios de Springsteen foram assinalados por “Nebraska”, “The ghost of Tom Joad” (1995) e “Devils and dust” (2005). É como se o músico inquieto e politizado caísse em depressão apenas uma vez a cada década. Que sorte. No primeiro disco da — até agora — trilogia, a última canção acena com um pouco de esperança, mas mesmo ela soa pervertida, doentia, insensata.

“Reason to believe” abre com um sujeito sendo avistado ao cutucar um cachorro morto na vala à beira da estrada. Conta a testemunha: “Como se ele ficasse ali tempo o bastante, o cão fosse levantar e correr/ Bateu-me meio engraçado, senhor/ Que ao final de cada dia as pessoas ainda achem alguma razão para acreditar.” Definitivamente, “Nebraska” não é o tipo de disco que alguém convidaria para o bailão do Springsteen.

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