Negação sistemática do acesso aos bens simbólicos foi minha primeira leitura do mundo

Dizem que quinta passada (07), no Brasil, foi o dia do leitor. Recordo que quando criança eu não tinha dinheiro para comprar livros. Meus pais não tinham dinheiro para comprar livros. Os meus amigos não tinham dinheiro para comprar livros. Os livros nunca foram objetos comuns no meu cotidiano. A leitura nunca foi uma prática comum em meu cotidiano. Na minha escola a biblioteca era um lugar empoeirado, e as pessoas que lá estavam eram professoras afastadas por motivo de saúde. A bíblia era o único livro presente na casa dos meus amigos. Ter uma enciclopédia era para poucos.

Fiz o curso de Letras na UFRN. Boa parte dos estudantes de Letras estão no curso porque fazer uma licenciatura, no Brasil, é talvez a possibilidade de não ficar desempregado no futuro. Eu disse: é talvez. Recordo que os meus professores diziam que aos poucos iríamos construir nossa biblioteca. Não sabiamos eles que mal tínhamos dinheiro para as fotocopias.

A educação no Brasil durante muito tempo foi um privilégio das elites. Foi a negação sistemática do acesso aos bens simbólicos a minha primeira leitura do mundo.

“Na minha escola a biblioteca era um lugar empoeirado, e as pessoas que lá estavam eram professoras afastadas por motivo de saúde.”

Neste dia, recordo que no Brasil «produzimos em grande escala, proporcional e contraditoriamente, livros e analfabetismos». Em 1906 74,6% da população brasileira era analfabeta, já em 2018 conforme os dados da 4ª edição da pesquisa «Retratos da Leitura no Brasil», 70% da população foi classificada como analfabeta funcional.

A literatura, no Brasil, sempre foi um privilégio das elites. Bom foi aprender cedo que o ato de ler «não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo».

Paulo Freire diz que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, e foi assim que a importância do ato de ler se veio em mim constituindo. Embora tenha vivido a negação sistemática do acesso ao livro. Percorri outros caminhos para encontrá-los. Nunca é demais lembrar que «a malícia é o poder dos sem poderes».

Há dez anos os livros são companheiros. Há quatros vivo em bibliotecas. Vivi um tempo em uma, hoje vivo em outra. Na algibeira guardo um poema e a certeza de que «onde há poder, há resistência».

OS POBRES
 
as costelas dos pobres
são móbiles
de calder
ou armas brancas
disfarçadas
na bainha da carne?
 
as costelas dos pobres
são adagas
do mais puro aço.
aço temperado na caldeira dos trópicos.
desembainhadas,
 
as costelasdos pobres
são um osso duro de roer.
 
(Sérgio de Castro Pinto)

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