Branquitude

Fotografia: Yana Paskova

Eu sou aquela filha que, para a alegria dos pais “é branca!”, esse foi o primeiro comentário que fizeram, depois que a enfermeira disse que era uma menina. Quando ligaram para minha avó, para falar que eu tinha nascido, foi a primeira coisa que lhe disseram, mas a alegria deles durou pouco, pois minha avó perguntou:

– Ela tem uma mancha no bumbum?

– Tem sim!

– Ah, então, vai ficar pretinha sim … (com risadas que se sentiram ao telefone)

A primeira negra na família! Ela ficou contente, feliz e minha mãe não entendeu!  Sou a filha negra de um pai branco.

Questionei a minha paternidade várias vezes, procurando fotos que demonstrassem que me pareço com meu pai, com minha avó, mesmo ela sendo loira… fotos que confirmassem quem sou.

Cresci escutando que meu nariz não era tão de negro, porque meu pai tentava afinar fazendo uma massagem desde o dia que nasci.

Fui a esposa negra de um casal interracial, mãe negra, de uma filha branca, e outra “parda”…

Leia AQUI artigo “Integração, interação e etnocentismo”

Minha filha mais nova, cada dia da sua vida desde que nasceu, escuta as pessoas perguntarem na frente dela, com expressões de surpresa, como foi possível eu ter uma filha branca.

Esses comentários, aparentemente inocentes, provocaram na minha filha, hoje com 4 anos, muitos choros, choros implorando para ser “marrom”, se baseando no que as pessoas falam.   

Choros intercalados com perguntas, sobre porque ela não se parece comigo, choros por ciúmes da irmã mais velha, porque as pessoas falam “ela, sim, parece filha sua, a outra não.”

Eu sou a negra da minha família, fui das poucas negras na escola, sou a negra na maioria dos meus círculos de amigos.

Negra, mas me chamam de mulata

“Cresci escutando que meu nariz não era tão de negro, porque meu pai tentava afinar fazendo uma massagem desde o dia que nasci.”

Porém, fora do Brasil, esse “ser negra” me dá privilégios, ou me atreveria dizer: igualdade?

Ser negra aqui, muitas vezes desperta curiosidade, mesmo que, ao mesmo tempo, os europeus me identifiquem como “mulata” (palavra derivada de mula – condicionamento inconsciente), fazendo notar que me considerar “mulata”, me deixa numa situação mais semelhante à eles, ele me veem como mais igual…

Estou completamente de acordo que o “racismo” tem que ser reconhecido, porém defendo que a principal arma de luta contra o racismo é ensinar que só existe uma raça, e é a raça humana! Identificar a origem do problema, para depois anular o inimigo!

Temos que parar de utilizar as mesmas armas para derrotar o racismo!  Já foi cientificamente comprovada a existência de uma única raça. Então, porque continuar falando de racismo?!

Porque continuar lutando contra um “adversário”, que já foi demonstrado ter nascido a partir de um erro científico?!

Lutemos contra a desumanização, contra o condicionamento baseado no conceito de raça. Lutemos a favor da construção, do treinamento, da ideia de que somos todos iguais.

Filadélfia, setembro de 1970. Fotografia: David Fenton

A luta

Ensinemos a empatia sem distinção de cor, credo, proveniência…. Lutemos pelos seres humanos, com os seres humanos, não separando, muito menos negando…, mas também não reafirmando que as raças existem! Para que todos possam ter as mesmas condições, os mesmos direitos, pelo fato de serem pessoas!

Lutemos para curar essa ferida que nos deixou a escravidão, reconhecendo, equilibrando…e as cotas são úteis, SIM, em toda sociedade brasileira todos os brasileiros têm o direito de se sentirem representados, até que um dia as cotas não sejam mais necessárias, porque teremos aprendido que somos todos brasileiros, somos todos humanos!

Temos que sentir o mesmo que sentimos quando vemos uma pessoa branca pedindo esmolas. Que nas escolas exista equilíbrio entre as pessoas que representam o Brasil, em sua totalidade.

Uma mãe grávida de um casal interracial não deve pensar ela mesma, que gostaria que o nariz da sua filha puxe ao do seu pai, porque é mais fino e bonito, mas que a boca pode ser dela, porque é delicada e de branca, e também, escute isso das pessoas!

Que uma filha não tenha que duvidar da sua maternidade por ter a cor da pele diferente dele… lutemos para amar o próximo como a nós mesmos!

p.s Escrevi esse texto como resposta à um video de Lia Vainer Schucman, enviado por Noemia Colona . 


Escritora, psicóloga e antropóloga [ Ver todos os artigos ]

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