Marília Negra Flor: Muito lutei para ser quem eu sou

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Marília Negra Flor tem 26 anos, é pedagoga, dançarina popular, pesquisadora de expressões afro-brasileiras, além de brincante da roda de coco de Mestre Severino, na Vila de Ponta Negra

Ela estava de olho na família de pele escura que acabara de entrar na casa lotérica, aqui mesmo em Natal.

Esperou a mulher se distanciar do homem, este permaneceu do lado de fora, para fazer o comentário mordaz.

“Que lindo seu bebê. Acho lindo criança dessa cor. É tão bonito moreninho assim. Mas não se preocupe não, ele não vai escurecer mais, vai clarear, vai ficar bem de sua cor. Não vai ficar muito preto como o pai não”.

Um safanão, um xingamento ou até uma cusparada, diante da ignomínia, seriam reações compreensíveis, não?

Pense aí.

Mas o que Marília Farias Xavier fez com aquela senhora, longe de explodir em um gesto agressivo ou baixar a cabeça para o comentário vulgar, foi borrifar o melhor inseticida contra gente pestilenta: responder com educação.

“Disse que para mim não tinha nenhum problema [se o filho crescer e ficar mais negro]. Dei meu recado, mas tentei compreender com quem estava conversando naquele momento”.

Ela sabe que o racismo faz parte da formação de parcela expressiva da sociedade brasileira.

Sabe tanto que escolheu fertilizar uma espécie de mata virgem, preservada do ataque de pragas.

Como Marília Negra Flor, uma militante negra, pedagoga, dançarina popular, com pesquisas em danças afro-brasileiras, ela acredita que o foco é apostar nas crianças, em um novo modelo educacional, para extinguir ou, pelo menos, amainar o preconceito, em um futuro próximo.

“Elas são quem eu acredito. Já nos colegas de minha idade, é difícil acreditar neles, porque já estão com muita coisa cristalizada”.

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Projeto Empodere Suas Crianças mostra importância do negro na formação brasileira através da dança, jogos, contação de historias e um ensaio fotográfico de Júlio Schwantz ; iniciado em Pium, em breve estará em três escolas de Natal, da rede pública ou privada

O episódio na casa lotérica virou poesia, através da amiga Drica Duarte.

Em Encontro Casual, versos livres e dolorosos perguntam:

Será que meu filho

Ainda tem que escutar

Que para ficar bonito

Precisa embranquecer?

A natalense Marília tem 26 anos e está na iminência de expandir seu projeto Empodere Suas Crianças para escolas da rede pública e privada da capital potiguar – a experiência iniciou com sucesso em Pium.

Ação que envolve ensaio fotográfico, feito por Júlio Schwantz com crianças negras, jogos, contação de historias, tudo com uma só ideia:

“Vimos que essas crianças precisavam se empoderar, que não se reconheciam como negras. Usavam sempre cabelo preso, faziam escova. Que ficavam chateadas se alguém dissesse que ela tinha a pele negra. E também para as crianças que são brancas reconheçam o valor do negro na nossa sociedade”.

Até o dia 10 de julho, Negra Flor recebe propostas de escolas interessadas em receber o projeto sobre questão étnica e racial.

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Ao entrar para a universidade, Marília imergiu na cultura africana

Conversamos no comecinho da noite da última segunda-feira (06), em um corredor do prédio do Departamento de Comunicação da UFRN, onde ela estava para assistir um documentário sobre maracatu.

Atriz do grupo Arquétipos, da própria Universidade Federal, e brincante da roda de coco de Mestre Severino, da Vila de Ponta Negra, uma de suas metas profissionais é entrar para o mestrado em artes cênicas.

“É um caminho contra a corrente [bater de frente contra o preconceito racial de pessoas com mais idade], e eu acho que a gente está num momento de ir a favor da corrente. Se a gente pegar uma alma perdida dessa, é lucro pra gente. Mas eu acredito no que está acontecendo agora, quem está chegando agora, que são as crianças”.

Eu vim de bem longe

Outro dia, em um grupo do Whatsapp do qual participo, uma das integrantes postou a foto de uma negra com nariz largo para desejar ‘um cheirinho’ a todos.

Ninguém comentou.

Talvez por desatenção, constrangimento, discordância, sei lá, fato é que o comentário sobrou.

Creio que tem ocorrido uma ligeira mudança quanto à aceitação de traços físicos e da cultura negra por quem até um dia desses soltava impropérios em piadinhas medonhas – elas persistem, eu sei, mas diminuíram.

Como diz a própria Marília, “Hoje ser negro está na moda”.

O que tem dois lados.

“Hoje virou bonito ser negro. Mas o que a gente precisa compreender é a contribuição do negro na história do Brasil. Que ele é importante. É importante pra economia, foi quem proliferou as feiras públicas brasileiras. Isso intensificou depois que o negro chegou com sua noção de comércio e feira. Ele é importante pra nossa constituição social, não por que está na moda”.

Nossa personagem desta quarta-feira morria de vergonha do nariz, na adolescência, ainda que jamais tenha alisado o cabelo.

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“[…] E quando veio essa transição, passei a adorar meu nariz e minhas características negras. Tudo que me identificava como negra passou a ser muito importante. O turbante também, para proteger a cabeça de energia ruins. No candomblé, o órgão vital é a cabeça. A estética é um caminho que escolhi que não preciso falar nada. Se eu chego, eu já comuniquei. Se eu entrar num ônibus, eu já comuniquei que sou negra, que sou empoderada, porque quando eu entro já causo alguma coisa ali”.  Fotografia: John Nascimento
Algo remoía os devaneios de menina descendente de escravos trazidos para a praia de Muriú, em Ceará-Mirim, um dos polos açucareiros da então Província.

Ao contrário do senso comum, de que entre os potiguares existiu pouca influência africana, fala-se em até três mil o número de escravos na região do vale cearemirinense, no século XIX, a imensa maioria de origem angolana – sobretudo ambundus, ovimbundos e bakongos, povos que se espraiavam do litoral ao sertão angolano, onde o branco europeu pouco chegava.

“Tenho uma herança genética por parte de mãe de negros, de avó negra. Eu herdei muito essa mistura, mais a parte da minha mãe. Da parte de meu pai é um pouco cabocla, do sertão, de galego queimando de sol. Minha mãe é de Muriú, família toda de Ceará-Mirim. E meu pai é de Pedro Avelino. Quando eu fui crescendo, amadurecendo e compreendendo o que era isso que eu sentia dentro de mim, comecei a me questionar: ‘Por que eu sou tão diferente deles?’ Porque eu me sinto negra e as pessoas da minha casa, não. Sempre me senti. Aí quando eu compreendi isso, mergulhei fundo. Quis assumir essa estética negra”.

Marília adotou o turbante como símbolo ancestral e de proteção psíquica – segundo o candomblé, sua religião.

Essa mudança aconteceu na passagem dos 21 para 22 anos, suspeita, como herança da avó materna, atuante dançarina de pastoril e brincante de boi de reis.

“Eu tinha muita vergonha do meu nariz. Eu dizia: ‘Ah, assim que eu puder, vou fazer uma plástica’. E quando veio essa transição, passei a adorar meu nariz e minhas características negras. Tudo que me identificava como negra passou a ser muito importante. O turbante também, para proteger a cabeça de energia ruins. No candomblé, o órgão vital é a cabeça. A estética é um caminho que escolhi que não preciso falar nada. Se eu chego, eu já comuniquei. Se eu entrar num ônibus, eu já comuniquei que sou negra, que sou empoderada, porque quando eu entro já causo alguma coisa ali”.

A carne mais barata

Curiosa por espiritualidades distintas do catolicismo onipotente, Marília encontrou na arte popular apresentada na universidade um caminho luminoso em direção a uma essência que a sociedade brasileira insiste em pulverizar.

Escondia a religiosidade no ambiente de trabalho, por motivos óbvios.

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Fotografia: Catarina Santos

“A gente esconde com medo de sentir preconceito. Existe um racismo embutido no preconceito com a religião afro”.

Ateu e ‘macumbeiro’ são representações diabólicas, para muito cristão.

“Sinto isso inclusive nos espaços culturais. Sou uma das fundadoras da primeira nação de maracatu de Natal e a gente vê a dificuldade de se apresentar nos lugares. E não é porque é musicalmente ruim. O grupo é bom, são pessoas que tocam bem e tudo, mas existe um tabu, um preconceito, não existe espaço. Quando nos chamam pra tocar, querem que seja de graça. É frustrante porque a gente sabe que nosso trabalho é tão legal”.

Trabalho esse incrementado pelo convívio com o companheiro Kleber Moreira, percussionista com mestrado em educação musical e presença em palcos ao lado de muita gente boa da música produzida nesta esquina selvagem da América do Sul – tocou com Khrystal, Camila Masiso, Rosa de Pedra e faz parte do Bando das Brenhas.

Eles são pais do pequeno Ayan.

Com a mãe de Kleber, Marília Negra Flor criou a Mãe Preta, empresa que mistura moda e cultura afro em um só pacote.

“É um projeto de estética e educação racial, mas também loja virtual. Mas vender os produtos é uma consequência desse estudo e dessa necessidade de ter no mercado esse tipo de produto”.

Marília levou essa imersão na africanidade para sala de aula, como professora de teatro da Casa Escola e do Centro Infantil Arte de Nascer, em Pium.

Foi pelo trabalho na instituição no distrito de Parnamirim que ela recebeu o prêmio nacional Construindo a Nação, do MEC, pelo projeto África, a mãe de todos nós, fruto de mais de um ano de pesquisas.

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“O racismo ele é bem presente em nossa vida. A gente vai dançando conforme a música, entrando entre um espaço e outro, numa estratégia que o negro vai encontrando, sabe?”

A igualdade é branca?

Aprendemos ainda na infância, na lição de paleta de cores, que o branco é a união de todas elas, né isso?

Em uma simples analogia, também com a trilogia do diretor polonês Krzysztof Kieślowski, o homem branco, senhor dos mares e dos horizontes por séculos e séculos, controla a liberdade e a fraternidade entre os seres, deste lado do paraíso.

Agora saque da memória alguma cena de prejulgamento ou puro desprezo protagonizada por uma pessoa da pele clara contra um negro.

O que fazer? Cruzar os braços ou levantar a voz?

Sou adepto da máxima de que jornalismo é oposição – no caso, para além da político-partidária.

Oposição às injustiças, à pieguice, às opiniões batidas.

“O racismo ele é bem presente em nossa vida. A gente vai dançando conforme a música, entrando entre um espaço e outro, numa estratégia que o negro vai encontrando, sabe? A gente vem de uma cultura que reproduz estereótipos, ideias. É difícil fazer uma criança branca também entender algumas coisas. Uma vez, com meus alunos, um menino tinha caído, ficou se mexendo no chão de dor e eles: ‘Que macumba é essa?’. Uma coisa que não tinha nada a ver com nada. Eu vi que eles começaram a usar o termo macumba para qualquer coisa estranha. Aquilo já está registrado no subconsciente da criança de que é perigoso”.

Fórmula básica:

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Negra Flor recebeu o prêmio nacional Construindo a Nação, dado MEC, pelo projeto “África, a mãe de todos nós”, fruto de mais de um ano de pesquisas

Negro + Macumba + Ignorância = Tudo que não presta.

Negra Flor fala de mães que ao verem uma pessoa negra pegam os filhos pelo braço e mudam a direção, em uma postura hostil de quem usa a violência urbana para referendar o preconceito velado.

“Percebo que muita família branca não se permite conhecer [o negro]. Existe um padrão preestabelecido que não se pode tocar nisso. Isso é um racismo embutido, institucionalizado, por trás de toda aquela formação social, familiar. É muito difícil quebrar essa barreira”.

Menos conflito e mais harmonia, é o que salta das entrelinhas de Marília. Ela sabe que o muro da intolerância é alto, requer andaimes bem alicerçados, firmes e duradouros feito uma coluna grega, para ser superado.

Em duas frentes, família e escola, seus dizeres encontram respaldo na certeza de que a educação de crianças pode alterar todo um porvir.

“Quero quebrar essa barreira do racismo pelo viés da educação. Eu acredito que é a ferramenta mais poderosa para a gente conseguir transformar isso”.

Fotografia de capa: John Nascimento

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Ruben G Nunes 8 de Junho de 2016 21:18

    ÊH ÊH!… Beleza de texto, mizifio!!! Xanavá!

  2. Conrado Carlos
    Conrado Carlos 8 de Junho de 2016 21:39

    Valeu, Ruben!

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