Negro! Moreno, não

Sou filho de um homem branco e de uma mulher negra de pele clara. Dos três filhos dos meus pais, fui o único a nascer negro, e ainda mais escuro que a minha mãe – tenho, na realidade, a cor do meu avô materno.

E apesar de a minha pele ser definitivamente escura, o espaço da negritude, desde a mais tenra idade, me foi negado. Fui encaixado nas minhas relações familiares, amorosas e de amizade no lugar da “morenidade”: aquele que não é negro, por não ter a pele retinta, mas que também não é branco, porque definitivamente não o é.

Acredito que fui assim classificado, desde criança, igualmente por não ter nascido com cabelos crespos e meus traços nunca terem sido associados ao estereótipo negroide: meus lábios não são grossos e meu nariz é fino.

Além disso, eu cresci como um sujeito pertencente à classe média alta, estudante de escolas particulares, concluí o Ensino Médio numa das escolas mais tradicionais de Natal, cursei Direito na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e mestrado na Universidade Federal de Pernambuco, lugares altamente elitizados, cujas realidades felizmente vêm se alterando graças às políticas de cotas.

Importante dizer que, durante toda a graduação e o mestrado, eu só tive dois professores negros num universo de docentes muito maior que isso.

Cito aqui a minha classe social porque creio que ela também possa ter me blindado de ser associado diretamente à condição de negro: é inusitado e peculiar ver pessoas da minha cor nos lugares em que eu frequento; logo, para espantar essa estranheza, eu fui embranquecido pelas pessoas ao meu redor durante toda a minha vida.

E não embranquecido por pessoas alheias a mim, mas geralmente por aquelas que me foram e me são as mais caras durante minha permanência no mundo: amigos, professores, colegas de classe, parceiros amorosos e familiares.

Ser “moreno” sempre me incomodou

“Durante muitas vezes, questionei-me o porquê de ter sido o “escolhido”, o irmão “mais moreninho”, distante da realidade dos meus parentes”

O curioso é compreender que, malgrado a natureza de negro me ter sido reiteradamente negada, desde menino, a ideia de ser “moreno” sempre me incomodou.

Recordo-me da sensação de falta de representatividade, elemento que comumente me afetava na infância: eu não via na televisão pessoas da minha cor, não tinha professores da minha cor e meus colegas de classe, estudantes de escolas particulares tradicionais, eram, quase sempre, todos brancos.

Até mesmo no seio familiar, eu me sentia um estranho no ninho por não ter irmãs negras e ser o mais fenotipicamente diferente. Durante muitas vezes, questionei-me o porquê de ter sido o “escolhido”, o irmão “mais moreninho”, distante da realidade dos meus parentes; durante muitos episódios, eu desejei ser branco, evitei tomar sol para não me bronzear e ficar ainda mais escuro, almejei que minha pele se esclarecesse só um pouquinho.

E todos esses questionamentos, é imprescindível mencionar, surgiram a partir da mente de uma criança. Enfatizo este ponto porque, geralmente, as pessoas as quais argumentam que a luta contra o racismo é vitimismo e “mimimi”, alegam que esse debate veio a partir de tempos recentes, com a luta antirracista viralizada na internet e o feminismo negro, por exemplo.

No entanto, eu sou da opinião – e essa é uma das poucas opiniões pétreas na minha vida, de que jamais abdicarei – de que os debates agora relacionados às lutas sociais só ficaram mais escancarados, mais às claras, ou melhor, mais às escuras.

Os meus incômodos infantis eram muito intrínsecos e orgânicos, desprovidos de qualquer leitura sobre o assunto e influência de qualquer movimento negro antirracista. Não são recentes, não foram inventados, tampouco doutrinados. Esse pulsar entre nós, minorias étnicas, raciais, de gênero, sexuais, sempre existiu. A diferença é que agora abrimos mais, e com razão, os nossos lábios.

“Você é da cor do pecado”

“nossa, não imaginava, você não tem cara de ser assim, tem cara de ser micareteiro”

Além da angústia pela falta de representatividade, eu sofro racismo desde a mais pequenina idade: apelidos relacionados à minha cor, referências à minha pessoa como “aquele mulatinho”, abordagens pela polícia enquanto dirigia meu carro, pessoas mudando de calçada enquanto ando na rua, ser confundido com um funcionário de alguma loja na qual estou comprando algo (já perdi a conta de quantas vezes isso aconteceu), o erotismo exacerbado do meu corpo – “sua cor me transmite uma ‘quentura’”, “você é da cor do pecado”, além de coisas mais sexualmente explícitas, como necessariamente acharem que faço um sexo selvagem ou que tenho um pênis grande.

Há também o espanto quando me mostro, em ambientes ainda intocados, como uma pessoa intelectualizada, formado em boas universidades, mestre, devorador de livros, alguém que sabe falar cinco idiomas.

Habitualmente quando estou conhecendo alguém, seja a nível amoroso, seja a nível de amizade, a surpresa pode ser instantânea: “nossa, não imaginava, você não tem cara de ser assim, tem cara de ser micareteiro”; ou “você é tão inteligente, não pensei isso de você”.

Surge, então, um paradoxo: se a negritude me é negada, se o espaço do “negro’ me foi tolhido, se ocupo o nicho da “morenidade”, por que então eu sofro racismo? Como responder a essas contradições?

Eu comecei a desvendar essas respostas na graduação, quando, pelo incômodo inerente à minha falta de identidade racial (a mim escondida durante toda minha vida), comecei a pesquisar sobre racismo: li Frantz Fanon, Beatriz Nascimento, Kabengele Munanga, Florestan Fernandes e muitos outros autores.

Além disso, investiguei a relação entre Raça e Direito, principalmente a legislação racista e antirracista no Brasil desde a Constituição de 1824 (assunto, a propósito, interessantíssimo, mas para um outro texto), graças ao trabalho pioneiro da autora negra Dora Lucia de Lima Bertulio, que escreveu corajosamente, ainda em 1989, em Santa Catarina (estado conhecido por vários episódios de racismo),  a obra “Direitos e relações raciais: uma introdução crítica ao racismo”. Aliás, esta obra está mais que recomendada e é possível lê-la online.

Gilberto Freyre: ‘harmonia’ entre casa grande e senzala

A partir do meu desejo de pertencimento, de descobrir quem de fato sou, fui, à medida que concluía minhas leituras, entendendo o meu espaço étnico-racial na sociedade brasileira.

Para compreender o assunto mais profundamente, comecemos com Gilberto Freyre. Ele, por exemplo, entendia, erroneamente, que a miscigenação teria propiciado a convivência harmoniosa entre as raças, rompendo a rigidez da sociedade aristocrática e criando uma espécie de “democracia” – ou seja, em outros termos, o autor ajudou a difundir no seio social a concepção equivocada de “democracia racial”.

Tal intelectual ofereceu o conforto da  diluição do ódio racial, pregando uma harmonia entre a casa grande e a senzala e defendendo as contribuições positivas de negros e índios na cultura brasileira, vendo a mestiçagem como vantajosa e propagando a ideia de que a mistura racial gerou um povo sem preconceito e democrático.

Outro aspecto oriundo da miscigenação e dessa ideia de democracia racial foi o surgimento de uma terceira classificação racial/de cor – o aparecimento do “moreno”.

Ao contrário do que acontece no Estados Unidos e em outros países, em que a população negra, miscigenada ou não, de diferentes tons de pele, permanece unida, o negro miscigenado brasileiro, o “moreno” viu-se, assim como eu, coagido a negar sua negritude.

Essa concepção, longe de ter nascido despretensiosamente, surge do aparato que trata a palavra “negro” como ofensa e almeja negar a negritude dos miscigenados, aproximando-os a um padrão de branquitude, visando à fragmentação da população negra e, consequentemente, a sua desunião para conquista de direitos.

E surge o negro de alma branca

O próprio Estado brasileiro fomentou o aparecimento de uma terceira classificação racial/de cor. Era dos interesses das elites e dos intelectuais da época, outrossim, preocupados em branquear o país e em tirá-lo da condição de pátria majoritariamente negra, além de desestabilizar as populações negras, dividi-las entre pretos e pardos (ou “morenos”; “mulatos claros”; “quase-brancos”, entre outros), em que os últimos não seriam negros.

Para Dora Lucia de Lima Bertulio, os filhos mestiços, como querem os intelectuais brasileiros, não deixaram de pertencer ao grupo negro. Segundo ela, a partir do momento no qual se estabeleceu a sociedade em que todos são formalmente cidadãos, diante do tratamento diferenciado que se dá aos homens de acordo com a sua proximidade com o padrão branco, houve interesse da elite em batizar de mestiços ou mulatos as crianças filhas de negras com pais brancos.

Obviamente, o grupo negro não resta caracterizado homogeneamente. Não se trata de algo hermético, no qual as pessoas negras passam pelos mesmos tipos de discriminação e preconceito raciais.

Como a própria autora alhures citou, houve interesse em tratar distintamente as pessoas segundo a sua aproximação com os padrões brancos. Portanto, quanto mais um negro aproximar-se ao padrão fenotípico europeu, está menos suscetível a sofrer situações discriminatórias (porém, o que não significa que seja tratado como “branco” pela sociedade).

Para Guimarães, assim, somente aqueles com pele realmente escura sofreram inteiramente a discriminação reservada ao negro africano. Aqueles com graus variados de mestiçagem podem ter, de acordo com a sua aproximação ao padrão branco, alguns privilégios atribuídos aos brancos.

Racismo é o crime perfeito

Podemos introjetar essas considerações acadêmicas em nossas vivências cotidianas, referentemente às pessoas negras em geral. Taís Araújo, Camila Pitanga e Preta Gil são, por exemplo, três mulheres que já se afirmaram nos meios midiáticos, reiteradamente, como mulheres negras. No entanto, os tons de pele variam, a consistência do cabelo e os traços, também.

Em situações cotidianas, mulheres com o estereótipo de Taís Araújo, dentre as três, seriam as que mais sofreriam racismo, isto é, um mais contundente e mais explícito, o que não exclui o fato de que mulheres com aparências próximas às de Camila e Preta também não sofram situações discriminatórias.

Na edição mais recente do Big Brother Brasil, havia duas mulheres negras: Thelma Regina e Flayslane. A primeira é uma mulher de pele negra retinta e cabelos crespos; a segunda, uma mulher de pele escura não-retinta de cabelos lisos e traços mais próximos ao europeus (um fenótipo que, por sinal, assemelha-se bastante ao meu).

Thelma, com certeza, assim como Taís Araújo, sofrerá um racismo mais pungente que aquele destinado a Flayslane, mas, de novo, todas são vítimas de racismo, como, aliás, as duas oportunamente falaram num momento do programa, em que compartilharam experiências dolorosas de abandono amoroso em virtude da cor.

Na minha vida, assim, eu passei a compreender o meu lugar de forma mais clara, digo, de forma mais escura: pude descobrir que, embora eu não seja um negro retinto, eu sou, sim, negro. Com o advento dessa constatação, eu ganhei mais força, mais serenidade e finalmente conquistei meu lugar de pertencimento.

Além de tudo, aprendi a me defender. Há quem diga que o racismo no Brasil é o crime perfeito: os negros sofrem racismo, não sabem que não negros, dissociam-se do episódio racista sofrido e não aprendem a ter as ferramentas necessárias para que se posicionem, lutem e se defendam.

Sangue branco depura o negro

Essa condição do moreno ainda merece algumas breves considerações. A miscigenação brasileira, apesar de durante muitos anos ter sido vista como a degeneração social brasileira, posteriormente foi tratada como a solução para o “problema negro” brasileiro.

Reitera-se, assim, o fato de que o negro mais próximo dos estereótipos fenotípicos europeus seria mais aceitável, apesar de não possuir privilégios brancos, uma vez que era sinal de que estávamos avançando.

Para Bertulio:

A miscigenação, primeiro condenada como elemento de imperfeição no sangue, torna-se saída para esses males. O discurso muda. Não é mais o sangue negro motivo de imperfeição do sangue branco, mas o sangue branco fará a depuração do sangue negro na população brasileira. Não é mais só necessário introduzir brancos. É igualmente fundamental que a “mistura” se promova. Numa relação dialética, ambos, sociedades e intelectuais moldam os conceitos e apreensão do elemento negro na formação do povo brasileiro. Os discursos de inferioridade de negro continuam como uma janela para o branqueamento.

Houve inversão do que seria a miscigenação no país. Se, de um lado, foi a própria significação da nossa degenerescência social, como quiseram afirmar muitos intelectuais; de outro, o sangue branco seria tão benéfico, que seria capaz de retirar as máculas do sangue negro na constituição do povo brasileiro.

O “moreno”, então, embora malvisto, seria um pouco mais aceitável que o negro retinto: seria um sinal, ainda que enfraquecido, de que estaríamos nos embranquecendo, nos civilizando e avançando; portanto, mais uma vez, ele está suscetível a um racismo diferente daquele destinado aos negros mais próximos ao africano.

“Ora, para que servem as cotas se somos todos mestiços?

“O mito da democracia racial, sustentado pela lenda de uma miscigenação pacífica e harmoniosa, prestou e presta um dos grandes desserviços à luta do movimento negro”

É imprescindível ressaltar, mais uma vez, que a ideia do “moreno” e termos correlatos na sociedade brasileira (“branco sujo”; “mulato claro”; entre outros) também pertence à ideia de que não estamos fragmentados em diferentes grupos raciais, porquanto o miscigenado, como diria Gilberto Freyre, seria a prova da convivência harmônica racial brasileira. Há quem afirme, eivado de senso comum, que o Brasil constitui-se numa república de morenos ou numa democracia de mulatos.

A existência dos mestiços seria a prova cabal de que políticas antirracistas, por exemplo, são desnecessárias – as populações majoritariamente brancas utilizam-se desse argumento para recusar a existência de preconceito e discriminação raciais, vez que, inclusive, também possuem parentes negros e ancestralidade africana em algum grau: “ora, para que servem as cotas se somos todos mestiços? Não se pode diferenciar quem é negro e branco neste país, minha tataravó, por exemplo, era negra”, afirmam muitas pessoas brancas.

Para Oracy Nogueira, no entanto, desenvolveu-se no Brasil o que ele denomina de “preconceito de marca”, uma vez que o indivíduo, sendo portador dos traços caucasoides é considerado branco, mesmo que se conheça a sua ascendência negra ou seu parentesco com indivíduos negroides.

Todavia, como se afirmou acima, essa ascendência negra é utilizada vez ou outra para negar o racismo no seio da população branca. Só assim afirmam, contudo, porquanto suas características físicas impedem-na de sofrer racismo e assim percebê-lo nas situações conflituosas da sociedade.

O mito da democracia racial, sustentado pela lenda de uma miscigenação pacífica e harmoniosa, prestou e presta um dos grandes desserviços à luta do movimento negro e à conquista de verdadeira igualdade racial, já que, diante de pressões contra o racismo visando à esfera institucional, alega-se que os movimentos raciais estão querendo retalhar o país numa dicotomia racial e conquistar privilégios à população de pretos e pardos (negros), e não verdadeiras políticas de reparação.

Identidade branca como padrão social

Assim, segundo Fernandes, o grosso da população, em que se incluem “negros” e “brancos”, tem seu horizonte cultural obstruído pelos costumes que regulam, convencionalmente, as relações raciais.

Entretanto, para ele, enquanto o “branco” pode permanecer indiferente às consequências negativas do que ele afirma como “preconceito de cor”, com o “negro” ocorre o inverso – tais consequências forçam-no a romper a obnubilação condicionada pelo horizonte cultural e a fazer indagações que se chocam com as imagens correntes da realidade social, algo que ocorreu comigo ainda quando criança, assistindo à televisão e observando meus colegas de classe e professores.

Há uma identidade branca posta como padrão na sociedade e que, no entanto, ela não é posta para reflexão nos cidadãos brancos. Ao negar o que significa ser branco hoje, estão-se reproduzindo posturas nesse lugar de privilégio que a população branca ocupa, sendo um verdadeiro empecilho cultural para a superação de desigualdades raciais e entrave para a luta antirracista.

Portanto, indivíduo branco, aqui fica uma dica de reflexão. Rompa essa obnubilação cultural. Aprenda: negro não é ofensa. Negro é uma palavra para ser dita. Não questione a negritude dos seus amigos negros. Repita: Negro! Moreno, não.

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