Nelson Patriota e o conto potiguar

Por Thiago Gonzaga*

Atualmente, talvez o conto, no Rio Grande do Norte, seja o gênero que melhor está cumprindo um papel importante dentro da nossa literatura de ficção. Seu desenvolvimento tem se dado com bastante consistência, desde o início dos anos 60, inclusive, com a publicação da primeira antologia de contos potiguares por Nei Leandro de Castro, que, na época, além de nomes mais experientes revelou dois jovens que eram promessas e hoje fazem parte do cânone potiguar, Tarcísio Gurgel e Manoel Onofre Júnior. Sem dúvidas, o conto potiguar vem ganhando força e variedade; basta ler trabalhos de um Francisco Sobreira, de um Clauder Arcanjo, de um Demétrio Vieira Diniz , de um Aldo Lopes.

O boom no conto local trouxe multiplicidade estética sólida para a nossa literatura. Ao contrário da poesia que jorra em todas as esquinas do RN, o nosso conto discretamente evoluiu, porém de modo relevante, e tem sido um dos mais completos entre os gêneros literários no Estado, pela dinâmica, e qualidade literária que carrega.

O escritor gaúcho Moacyr Scliar, mais conhecido como romancista do que como contista, revelou certa vez a sua preferência pelo conto: “Eu valorizo mais o conto como forma literária. Em termos de criação, o conto exige muito mais do que o romance (…)”.

As múltiplas variações e a beleza e seriedade como tem sido exercitado esse gênero pelos nossos escritores, demonstram a sua vitalidade, permitindo à literatura norte-rio-grandense chegar a um alto nível de qualidade estética e literária.

O ano de 2014 foi bastante fértil e diversificado para a prosa potiguar. Obras extremamente relevantes foram publicadas, como “A Dançarina e o Coronel” de Aldo Lopes, “Perdão”, de Francisco Rodrigues da Costa, “Radiola” de Damião Nobre, romances e crônica respectivamente. Na área do conto tivemos a reedição de “Chão dos Simples” de Manoel Onofre Jr, e alguns novos nomes que surgiram na comunidade literária como Rafael Marques e suas narrativas de terror.

Queremos, no entanto, destacar a obra “Um Equivoco de Gênero e Outros Contos”, do experiente escritor Nelson Patriota.

Nelson nos presenteou no final de ano com o seu segundo livro de contos, publicado pela Editora Sarau das Letras, admirável trabalho de ficção, com estórias inteligentes em ambientes habilmente construídos, onde surge um mundo de acontecimentos em situações cotidianas, num estilo deleitoso e moderno. Ele é, sem dúvidas, um dos raros autores, em nossa literatura, que escreve com bastante precisão e arte em várias vertentes literárias, seja como critico literário, seja como poeta, ou contista. Ele tem desempenhado bem o seu papel na cena literária local contemporânea. Porém há algo no seu conto que lhe dá uma dimensão especial, talvez pela sua imensa bagagem intelectual.

Observamos a influência dos modernistas na escrita de Nelson: sua prosa é desataviada e livre. Nela o espaço para a criação não tem limites. Dessa forma, estórias e experiências são trazidas ao leitor, enlaçando-se e alcançando o mesmo ápice, comparável ao de grandes contistas brasileiros.

Do ponto de vista do gênero, as narrativas enfeixadas nesse livro, quase sempre contadas de maneira muito tênue, inteligentes e peculiares, diferenciam-se umas das outras, e deixam transparecer o intelectual. Podemos observar isso não só no conto que dá titulo ao livro, mas, também de modo especial nos contos, “Ìon em desgraça” e “Monólogo de José”. Notamos também uma linguagem moderna e uma busca por detalhes e imagens que entrarão inexoravelmente na mente do leitor que passará a conviver com elas.

Observamos também um ritmo sereno de narração, que nos parece deixar certa permanência no tempo. Uma constante, uma forte marca do contista é a capacidade de despertar a curiosidade do leitor, que se identificará com várias situações narradas, muitas vezes confundindo a realidade com a ficção.

“Um Equivoco de Gênero” detêm composição bem estruturada, sempre como mesmo nível estético e desenvolve, ou melhor, constrói histórias com tramas características variadas, como o psicodrama “A Porta Vermelha”, o humor inteligente de “Uma visita ao museu Kafka”.

Por meio dessas narrativas verificamos a positiva evolução do conto potiguar, em sintonia com o conto brasileiro contemporâneo.

 

*Thiago Gonzaga é pesquisador de literatura potiguar, autor dos livros, Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos Vol 1 & 2.

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