Nem tanto a Deus, nem tanto ao Diabo

Por Ronaldo Correia de Brito
TERRA MAGAZINE

Entre os noventa alunos que participam da conversa com o escritor, um parece exceder a inquietação comum aos adolescentes: agita-se na cadeira, faz pose de quem vai abandonar a sala, olha o convidado com jeito ameaçador. Alguns estudantes pedem ao palestrante que leia contos do livro estudado em classe. O escritor escolhe um ao acaso, sobre um metrossexual de hábitos perversos. Os rapazes e as moças riem, mas o jovem hostil quase pula do assento. O conto seguinte narra o processo de encantamento de uma pessoa que se transforma em lobisomem. Um frêmito percorre a sala, a garotada ri para distensionar, aplaude ao final da leitura.

Duas horas se passaram, os alunos se despedem na biblioteca improvisada em auditório, fazem fila para cumprimentar o palestrante. Chega a vez do rapaz inquieto e ele entrega um impresso igual aos que distribuem nos sinais de trânsito e nas enfermarias dos hospitais: “Jesus Cristo é a salvação”, proclama o panfleto. O escritor recebe o papel e compreende a recusa do jovem aluno à sua fala, aos seus contos e ensinamentos. No retorno ao hotel, pensa que o mais justo teria sido perguntar aos alunos se desejavam ouvi-lo. Um professor informou-o que a atividade literária não era obrigatória e o rapaz poderia ter optado por não comparecer à biblioteca. E se o conteúdo estudado entrasse nas questões das provas escritas? Isso criaria uma obrigatoriedade?

O jovem indignado era membro de uma das dezenas de igrejas evangélicas que funcionam no Brasil, um dos milhões de pentecostais que lêem a Bíblia e recusam outras formas de saber. Ele põe em cheque os programas didáticos das escolas públicas e privadas, pois algumas dessas igrejas proíbem a leitura de qualquer outro livro que não seja a História Sagrada, proíbem assistir cinema, ver televisão e participar das festas do calendário brasileiro. Como sugerir a essas pessoas a tarefa de ler Madame Bovary, ver no cinema Cisne Negro ou assistir a um documentário na televisão? O escritor perdeu o sono refletindo sobre as dificuldades em educar as pessoas num país com tanta diversidade religiosa, étnica, cultural, econômica e social. Até onde vai o poder do Estado em normatizar o ensino? E as igrejas, qual o poder delas além de eleger políticos?

A recusa ao saber, mesmo científico, é frequente nas seitas religiosas. Como avançaremos na educação e na cultura, se o simples ato de ler é demonizado? Há uma atitude fundamentalista nessa recusa. Como existe igual fundamentalismo nos que propalam o consumo desenfreado e nos que absorvem o lixo cultural e todos os subprodutos da mídia, sem discernimento nem controle. Esses se apegam com igual fervor às culturas de massa, desprezando outras formas de conhecimento, pois se acham saciados e encharcados. A infecção dos membros da segunda seita me parece igualmente calamitosa, o vírus circula por todas as classes sociais, é de alto poder de contágio e torna as pessoas arrogantes de inutilidades, como são arrogantes o que se dizem investidos da Palavra de Jesus.

Nenhum vidente imaginou que as religiões ainda ocupariam pauta no terceiro milênio. Mas elas estão fortes como na Idade Média, em cruzadas modernas, fogueiras simbólicas, fundamentalismo, ortodoxia, culto hedonista, louvor a Baal. Na França e no Brasil, no Irã e em Israel, no mundo mais plastificado. Variam apenas os ícones do problema. Reimprimiram gravuras da luta entre o bem e o mal, deus e o diabo. E os links entre Igreja e Estado causam os nós de sempre, a náusea na educação e na cultura.

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