Nem tudo é verdade

Por Artur Xexeo
O GLOBO

‘Conspiração e poder’ é melhor que ‘Spotlight’: A história dos perdedores é mais atraente

Há um filme americano imperdível em cartaz. O título que recebeu no Brasil — “Conspiração e poder” — não é dos melhores. Você pode sair do cinema sem saber de que conspiração ou de que poder o filme está falando. O título original — “Truth” — é bem mais adequado. Afinal, é de verdade que o filme fala. Ou da busca pela verdade. Não por acaso, é um filme sobre jornalistas, aquele profissional esquisito que tem mania de buscar a verdade. É impossível não comparar “Conspiração e poder” com outro filme sobre o mesmo tema que esteve há pouco nos cinemas, “Spotlight: Segredos revelados”. Ambos reproduzem na tela apurações jornalísticas que aconteceram mesmo. Em “Spotlight”, a equipe de repórteres especiais do “Boston Globe” tenta provar que a alta cúpula da Igreja sabia e acobertou casos de pedofilia praticados por padres católicos. Em “Conspiração e poder”, uma equipe especialmente montada pela rede de televisão CBS tenta provar que George W. Bush, o presidente dos Estados Unidos, tinha usado apadrinhamento para escapar da Guerra do Vietnã.

A diferença entre os dois filmes é que, na primeira trama, os jornalistas são vencedores, chegam à verdade. Na segunda, são perdedores. A verdade os enganou. Os dois filmes são convencionais. Agradam ou não pelo roteiro, pela história que apresentam. Os jornalistas de “Truth” se empenham tanto quanto os de “Spotlight”. São tão talentosos quanto eles. Recebem da empresa onde trabalham carta branca para aprofundar uma reportagem que, todos sabiam, seria, no mínimo polêmica. Só que não dá certo. Diferentemente dos colegas de Boston, a turma da CBS, que trabalhava em Nova York, não ganhou reconhecimento, não mudou o mundo e teve seus currículos, até então recheados de prêmios, reduzidos a nada. De estrelas do jornalismo, transformaram-se em autores do que foi considerado uma das maiores “barrigas” do jornalismo da televisão americana. “Conspiração e poder” é melhor que “Spotlight”. A história dos perdedores é sempre mais atraente.

A figura central de “Conspiração e poder” é Dan Rather, um dos âncoras mais famosos do telejornalismo americano, embora a protagonista do filme seja Mary Mapes, produtora que trabalhava com ele. Quando os fatos que são mostrados no filme acontecem, ele já era um mito da TV. Apresentador do “CBS Evening News”, uma espécie de “Jornal Nacional” local, ele também era o âncora do “60 Minutes”, um programa de reportagens especiais da mesma rede. Mary Mapes não era tão popular, mas era conhecida no meio jornalístico. Tinha acabado de receber o prêmio Peabody, o mais importante do jornalismo de rádio e TV nos Estados Unidos, por sua reportagem, para o “60 Minutes” de Rather, denunciando as torturas feitas pelo Exército americano nos prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib. Rather também ganhou o prêmio. A dupla estava com a corda toda, e a CBS esperando dela um novo furo para seu departamento de jornalismo.

Pressionados por seus superiores para pôr a reportagem logo no ar, Mary e Rather não apuram o suficiente para não serem contestados. Usam como prova uma série de documentos que, no fim, não tiveram sua autenticidade garantida. Filme de estreia do cineasta James Vanderbilt, “Conspiração e poder” tem roteiro baseado num livro que Mary Mapes escreveu sobre o caso. Quando estreou nos Estados Unidos, a CBS negou-se a botar no ar anúncios do filme. A emissora não fica bem na fita. Em contrapartida, Dan Rather veio a público dizer que o que está nas telas condiz exatamente com o que aconteceu nos bastidores daquela edição do “60 Minutes”. Ah… já ia me esquecendo. Rather é interpretado por Robert Redford, e Mary, por Cate Blanchett. Dá pra perder?

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Nesta semana, 13 filmes novos chegaram às salas de cinema. É o que acontece quando não há um blockbuster americano sendo lançado. Por incrível que pareça, não está sendo registrada nenhuma estreia de um filme com algum super-herói da Marvel. Entre esses 13 filmes, enfim, chega ao circuito a produção britânica “A senhora da van”. Já falei desse filme algumas colunas atrás. Por alguma estranha razão, imaginava que ele já havia sido lançado e desaparecido rapidamente da programação. Ledo engano. Só agora “A senhora da van” está nos cinemas.

Também baseado numa história real, conta a convivência de um grupo de moradores de Camden, bairro de Londres, com uma sem-teto que escolheu a região para estacionar seu carro e usá-lo como abrigo. Um desses moradores era o dramaturgo Alan Bennett, que transformou sua relação com a velhinha da van em peça de teatro, com enorme sucesso, e agora em filme, não tão bem-sucedido assim. Mas o bom de “A senhora da van” é a oportunidade que o espectador tem de passar uma hora e 44 minutos assistindo a um show de interpretação de Maggie Smith. Dá pra perder?

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