A influência da literatura brasileira no Neo-realismo Português

Fotografia: Ingeborg Lippmann

O neo-realismo Português se afirmara na década de 1930, um período marcado pela crise na Europa, ascensão dos regimes autoritários na Alemanha, Itália e Espanha, bem como a instauração do Estado Novo em Portugal (1933-1974).

Para os jovens escritores deste movimento a arte fora instrumento de conscientização das lutas coletivas e a literatura fora utilizada para compreender a condição humana.

Além dos textos de Maximo Gorki, André Malraux, John dos Passos, John Steinbeck, Erskin Caldwell e Michael Gold, o contato com o romance brasileiro de 1930 fizera com que estes jovens enxergassem a possibilidade de uma outra prática literária.

Um dos testemunhos que evidenciam o papel desempenhado pela literatura brasileira chega-nos por Virgílio Ferreira (1981) ainda que, retrospectivamente, seja marcado por certa distância.

O autor de Aparição diz que “Para uma literatura de imediata ação social como a do famigerado Neo-Realismo, nós não tínhamos modelos senão os brasileiros. A própria literatura estrangeira, nomeadamente americana, que pudesse interessar-nos, dificilmente a poderíamos conhecer senão de traduções brasileiras. Foi assim que eu conheci Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway (ao tempo um livro mais ou menos clandestino), As Vinhas da Ira, de Steinbeck, Filho Nativo, de R. Wrigth, USA, de Dos Passos, etc. Mas outro livro que subterraneamente conhecemos, como esse fundamental La Condition Humaine de Malraux, nós só os sabíamos ler com os olhos de um imediatismo social e político. A literatura brasileira, portanto, foi a única solução que se nos apresentou”

A literatura brasileira e O Diabo

Periódico neo-realista “O Diabo” foi publicado em Portugal, entre 1934 e 1940, quando foi fechado pelo Estado Novo

Foi através do romance de intenção social de 1930, que a literatura brasileira exerceu pela primeira vez influência na prática intertextual dos escritores do neo-realismo português.

Como fruto desta influência e da aceitação positiva dos livros de Jorge Amado, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Erico Veríssimo nasceu a Editora Livros do Brasil. A editora do Souza Pinto foi a responsável pelo grande aumento da difusão da literatura brasileira em Portugal.

Lembremos que até 1940, não havia edições portuguesas dos romances brasileiros. O mesmo se passa com a poesia brasileira dos anos 30. É apenas em 1946, com a editora Livros do Brasil e a editora Inquérito, que este influxo de fato se inicia.

Foi no jornal português O Diabo, semanário de crítica literária e artística publicado entre 1934 a 1940 onde se propagaram ensaios, notícias, notas e depoimentos sobre as letras brasileiras.  O periódico contou com 326 números e dizia-serebelde às ideias feitas e mumificadas em século de escravidão mental e social“.

Conforme Luís Trindade, o semanário “ligou-se intimamente à história do neo-realismo, como um dos principais periódicos na sua génese”.

O Diabo trazia duas rúbricas sobre as letras brasileiras. Vida Mental Brasileira é título que junta colaborações de brasileiros e portugueses sobre temas intelectuais e literários do Brasil. A rubrica começou a ser publicada em janeiro de 1938. Oito meses antes, surgiu a rubrica “Panorama Literário do Brasil”, assinada por Afonso de Castro Senda.

Como o próprio nome sugere, a rubrica queria dar aos leitores um panorama das publicações brasileiras. Refere Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Erico Veríssimo, Rossine Camargo Guarnieri, Marques Rebelo e Jorge Amado. Mas já um ano antes, em junho de 1937, na revista Seara Nova, surgira a rubrica “Livros e Periódicos”, com atenção às publicações do país-irmão.

Ensaios, artigos e notícias sobre o romance regionalista de 1930 circularam em Portugal, tanto na imprensa nacional como regional.  Periódicos também surgiram em Coimbra, Viseu, na Vila Franca de Xira, em Évora, Figueiró dos Vinhos e Anadia.

Jorge Amado influenciou o neo-realismo português com retratos da miséria e exploração humana em seus romances, como “Cacau”

O neo-realismo português: Influência e incomodo com a literatura brasileira

Foi a leitura do romance social de 30, sobretudo a forma como a miséria e exploração do homem foi tratada, que influenciou os neo-realistas. Desta maneira, eles também buscaram utilizar a literatura como forma de lutar pela dignidade dos homens.

A proliferação em Portugal de textos sobre a literatura brasileira incomodou uns e agradou a outros. “O romance brasileiro é um pretexto ou um meio”, indagava José Régio nas Cartas Intemporais, publicada em 1939, na revista Seara Nova.

Percebe-se a diversidade da recepção da literatura brasileira no campo literário português a partir de duas visões antagónicas, num ano em que se encontram outros testemunhos dessa recepção.

O artigo “Cartas Intemporais do nosso tempo – a um moço camarada, sobre qualquer possível influência do romance brasileiro na literatura portuguesa” é uma peça da conhecida polémica entre José Régio e Álvaro Cunhal.

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Já o trabalho de Mário Dionísio foi produzido como dissertação de licenciatura (a sua segunda) em Filologia Românica, nesse ano apresentada na Universidade de Lisboa, com o título Um Romancista Brasileiro, dedicada a Erico Veríssimo.

Não são textos com o mesmo estatuto, nem o mesmo fôlego e objetivos, mas testemunhos explícitos de dois olhares diferentes sobre as letras brasileiras, bem como sobre o seu peso entre a intelectualidade portuguesa desses finais dos anos 30.

O alcance dessas leituras ou, pelo menos, a percepção desse alcance, está no próprio propósito de Régio sobre “[…] o alarido de admiração ou reclamo atualmente erguido entre nós em Portugal ante a literatura brasileira em geral, o romance em particular. Pela segunda vez, Portugal descobriu o Brasil!”

Em seu texto, José Régio afirmara que os livros brasileiros já faziam no mercado livreiro uma concorrência notável aos livros portugueses. E não apenas os livros. Havia um ecoar que o assustava, explicando que a propaganda da literatura brasileira tornara-se uma “espécie de novo ‘género literário’ com seus especialistas e cultores encartados”.

Ainda 1939

Gaibéus (1939) é o primeiro romance de Alves Redol, marco-zero do neo-realismo português; romance de cunho etnográfico e sociológico retrata vida de camponeses nas províncias do Ribatejo e da Beira Baixa

O ano de 1939 é um marco. Trará a lume Gaibéus, de Alves Redol, primeira manifestação ficcionista do neo-realismo português, com um cunho etnográfico e sociológico.

Buscava-se descrever a vida dos trabalhadores que, do Alto do Ribatejo e Beira Baixa, desciam às lezírias pelas mondas para trabalhar nas ceifas de arroz.

Gaibéus irá trazer aspectos comuns a Cacau, de Jorge Amado. Para além de ambos denunciarem a exploração dos trabalhadores, essa convergência é marcada pelas epígrafes que interrogam o estatuto dos textos .

Na abertura de Cacau, Jorge Amado escreve: “Tentei contar neste livro, com um mínimo de literatura para um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia. Será um romance proletário?”.

Já Alves Redol escreve: “Este romance não pretende ficar para a literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem”.


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