Neopopulismo

Por Bernardo Carvalho
BLOG DO IMS

Quando li pela primeira vez Lições de literatura, de Vladimir Nabokov, que agora sai no Brasil pela editora Três Estrelas, com tradução de Jorio Dauster, era o início da febre do multiculturalismo e tudo indicava que a literatura estava condenada ao relato da identidade e da experiência mais ou menos exótica dos autores. Uma passagem do livro me marcou especialmente, como argumento contra os arautos do relato da experiência: “A literatura não nasceu no dia em que um menino chegou correndo e gritando ‘lobo, lobo’, vindo de um vale neandertal com um grande lobo cinzento em seus calcanhares: a literatura nasceu no dia em que um menino chegou gritando ‘lobo, lobo’, e não havia nenhum lobo atrás dele”.

De lá para cá, as coisas mudaram um pouco, o mercado de livros cresceu muito, empurrando a ficção literária para os limites da hipertrofia. E no lugar da redução ao relato da experiência identitária do autor, surgiu uma nova ameaça que já vai tomando contornos hegemônicos de academicismo, só que fora da academia: um conservadorismo literário, consequência da falência da crítica, substituída pela autoridade da opinião do leitor. Nesse novo populismo impulsionado pela internet, a naturalidade do lugar-comum subjuga o pensamento crítico, sob a batuta de oportunistas que se fazem passar por justiceiros e representantes da voz e do gosto do leitor contra a arbitrariedade das exceções, contra o elitismo de supostas igrejas, contra tudo o que sai da linha e parece incompreensível, demasiado irregular, estranho ou extraordinário. O resultado é menos democrático do que parece: uma impostura e um empobrecimento da democracia, confundida com a norma da maioria, servindo-se da chancela da reprodução dos preconceitos, das convenções e do senso comum como critérios objetivos para alardear o que é bom e o que é ruim.

Nessas circunstâncias, salta aos olhos outra passagem do livro de Nabokov, que reúne uma seleção de suas aulas ao longo de quase vinte anos (entre 1941 e 1958) nas universidades de Wellesley e Cornell: “É instrutivo pensar que não há uma única pessoa nesta sala, ou mesmo em qualquer aposento do mundo, que, em certo ponto bem escolhido no espaço-tempo histórico, não será assassinada ali mesmo, aqui e agora, por uma maioria que se crê dona do bom senso e sente um ódio que é justificado por seus padrões morais. (…) E quanto mais brilhante o homem, quanto mais incomum, mais próximo ele estará do paredão. A estranheza e o perigo sempre andam juntos. (…) Tratemos (…) de louvar os seres não convencionais porque, na evolução natural das coisas, o macaco talvez não houvesse se transformado no homem caso não tivesse aparecido um ser estranho na família”.

A grandeza do pensamento crítico está no risco que ele assume para dizer o que muitas vezes contraria o senso comum (e o que o leitor quer ler ou ouvir). É o contrário do arremedo de crítica que pontifica na internet, ajustando o alcance e a correspondência de suas opiniões às convenções da hora, dançando conforme a música, ecoando a inércia do gosto. Para essa crítica, um romance pode ser chato, pode não convencer, pode ter personagens que não são de carne e osso etc. Mas ela nunca reconhecerá o risco de uma forma singular de pensamento, de uma experiência incomum, não convencional. Porque, para essa concepção empobrecida da crítica, a literatura é antes de tudo um produto. E o crítico, um agente na defesa dos direitos do consumidor.

Uma amiga recém-chegada de Frankfurt traz novas de um amigo editor, contratado por uma prestigiosa editora inglesa. Segundo ele, o que antes estava implícito, agora é anunciado aos editores, diariamente e com todas as letras: seus salários dependem do sucesso de vendas dos livros que vocês lançam e dos autores que vocês contratam. Sem resultados excepcionais de público, não há editor que permaneça empregado, nem se descobrir o novo Kafka ou o novo Joyce ou o novo Beckett. O novo Kafka, o novo Joyce ou o novo Beckett só serão o novo Kafka, o novo Joyce e o novo Beckett se venderem o suficiente para pagar os salários de seus editores.

A lógica, cristalina e irrefutável, já vinha sendo aplicada há séculos e com relativo sucesso a produtos tão diversos quanto tomates, automóveis e armas. Na literatura, entretanto, havia um certo pudor. Já não há. Antes, um best-seller era suficiente para pagar o prejuízo dos livros de exceção que não vendiam mas que faziam o nome de uma editora. Isso já não é possível devido às proporções que o mercado editorial tomou. Um círculo vicioso foi criado no qual a literatura está atrelada às vendas e, em consequência, ao gosto geral. E é mais do que natural que, nessas circunstâncias, a crítica que contraria os preconceitos, as convenções ou o gosto do leitor já não seja bem-vinda.

Mais preocupado com Kafka e Joyce do que com editores e vendas, Nabokov imagina as condições ideais para quem enfim se senta para escrever um livro: “Sua caneta está adequadamente cheia, a casa silenciosa, o fumo e os fósforos reunidos, a noite apenas no começo… e o deixaremos nessa situação agradável ao sairmos pé ante pé; fechada a porta, trataremos de afastar da casa, com toda firmeza, o cruel monstro do bom senso [common sense] que vem se arrastando pelos degraus para dizer em voz chorosa que o livro não está destinado ao grande público, que o livro nunca, nunca vai… E nesse instante, antes que ele deixe escapar a palavra v-e-n-d-e-r, o falso bom senso deve ser morto a tiros”.

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