Netflix e o que muda no Brasil

Por Pedro Dória
O GLOBO

RIO – A Netflix que chega ao Brasil não é o mesmo que os americanos têm. A seleção de filmes à disposição dos assinantes é um quê mais antiga.

Também não é o único serviço a oferecer filmes para aluguel via internet para assistir de imediato. Existe uma concorrente nacional, a NetMovies, alguns portais já oferecem serviços do tipo e a Net inaugurou seu Now faz alguns meses. O que a entrada da Netflix marca é, com alguns anos de atraso, a chegada em definitivo do vídeo por demanda no país.

Nos EUA, a Netflix foi considerada responsável pela quebra da maior locadora de vídeos do mundo, a Blockbuster. Chegou quietinha, com um modelo diferente. O sujeito não paga por filme, paga uma assinatura. Recebia por correio o DVD, sem multa por atraso. Para devolver, bastava jogar no envelope pré-pago e depositar em qualquer uma das caixas de coleta de correio típicas das ruas americanas. Quase que nenhum trabalho. Quando foi à internet, estourou.

Aqui no Brasil, são poucos os que têm equipamento para conectar internet à televisão. Lá fora é caixa que se compra na loja por pouco dinheiro. Netflix também pode ser acessado via tablets e computador. Mas confortável mesmo é ver na TV, deitado no sofá, como se vê filme de verdade. A falta de equipamento é temporária. As caixas da Net compatíveis com o Now já fazem isso e não demora muito para que os consumidores interessados nos outros serviços encontrem uma variedade de soluções.

A primeira vítima do vídeo por demanda, nos EUA, foram as locadoras. Quem viria depois é que virou dúvida. Durante um tempo, as apostas se dirigiam para as redes de televisão aberta e, principalmente, paga. Podendo assistir a série que quiser na hora que bem entender, para que o espectador vai pagar por canais que não dão esse tipo de escolha. Mas televisão ao vivo, principalmente para noticiário e esportes, segue forte e sem ameaças. Quem se sentiu ameaçado foram outros: as companhias que vendem internet por banda larga.

O negócio da banda larga se baseia num truque. Vende para o consumidor uma velocidade tão grande quanto possível sabendo que ele não vai usar. Como só meia dúzia realmente usa toda aquela capacidade, o dinheiro entra sem que o serviço precise ser entregue. Só que vídeo, ainda mais quando tem alta resolução, realmente consome banda. E muita. Quando um número cada vez maior de pessoas vê filmes pela internet, são obrigadas a entregar a capacidade que venderam. Às vezes, engargala. As operadoras rangeram os dentes, ameaçam bloquear acesso ao Netflix em suas redes. No momento, negociam. É um conflito que ainda não têm solução aparente. Conforme a base de usuários se amplie por aqui, potencialmente o mesmo conflito virá. É inevitável.

Ver filme, série, documentário no momento que quiser é conveniente. Prático que só. E é um hábito que pega. É claro que há um negócio nisso, não à toa que nos últimos meses o número de empresas disputando esse espaço no Brasil explodiu. Quem se dá melhor, no entanto, não é o intermediário. É quem faz conteúdo. Para estes, uma rara boa notícia.

Os estúdios de cinema estão cautelosos. Fazem jogo duro para permitir que seus filmes apareçam na locadora ou não. Lá fora, o mesmo se dá com as televisões que fazem suas próprias séries. HBO, Starz, CBS, todas. No início, ainda experimentando, algumas redes assinaram contratos a preços baixos permitindo a exibição de seu conteúdo. A cada nova rodada de negociações, a Netflix paga mais caro para ter material. Um serviço destes é útil se tiver muita variedade.

Quem produz vê uma janela de oportunidade. Um preço baixo de assinatura e simplicidade de uso ajudam a combater o problema da pirataria. Baixar filme ilegalmente dá trabalho. É mais para adolescentes com tempo do que pais ocupados. Repentinamente, há uma nova fonte de renda. E uma possível solução para o problema que ameaça os estúdios.

Quem tem esse poder de negociar são os donos daquilo que as pessoas veem. Vídeo por demanda muda muita coisa. E esse é um processo que, aqui, está só começando.

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