Newton Navarro e os comunistas

Acompanhei o diálogo entre Yuno e François, inteligentes como sempre.

Enquanto morei em Natal, assisti a alguns momentos de Newton, meio de longe, até por uma diferença de idade e lugar no mundo cultural – ele um Mestre do traço e da palavra, eu um aprendiz nos primeiros tropeços. Relembrando também seu evidente brilho como orador (conteúdo, vocabulário, dicção, postura), ouso registrar alguns aspectos do tema que os colegas levantaram.

Em mais de uma ocasião, ouvi Newton comparar seu traço de desenhista com o trabalho de rendeiras. E essa imagem aparece na novela “De como se perdeu o gajeiro Curió”, agora em erudito paralelo com a Odisséia homérica.

Penso que esses dois exemplos nos fazem entender o respeito de Newton em relação às culturas populares, que sua admiração por Luís da Câmara Cascudo apenas confirma. Nesse sentido, uma importante matriz política de sua sensibilidade era o respeito pelos poderes culturais do povo.

Newton conviveu com comunistas e esquerdistas católicos (ele mesmo era um católico que passou pela leitura de existencialistas). Sua produção literária e plástica, portanto, beneficiou-se de um contato com os debates de esquerda, mesmo sem ter lido Marx. E sempre anunciou sua admiração pelo Jorge Amado comunista.

Sinto falta de mais discussões sobre Navarro. Considero-o grande figura intelectual natalense.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 27 comments for this article
  1. François Silvestre 26 de Janeiro de 2013 9:14

    Certa vez, numa boate que havia no Hotel Reis Magos, Newton bebia com alguns amigos, quando chega um General, em carro preto, com batedores. Newton vai à mesa do militar e provoca: “General, o senhor tem estrelas. E eu também. As minhas brilham por conta da luz que emana do luar de Agosto. As suas brilham por causa do kaol”. Foi um alvoroço. Os bajuladores ameaçando Newton. O General, surpreendentemente, acalmou os ânimos e perguntou a Newton o que desejava. O poeta disse que queria ir no carro do General, com batedores, para a Tenda do Cigano, que ficava ali perto. O pedido foi atendido. Imagine a cara dos que estavam na Tenda, quando chega aquela presepada.

  2. François Silvestre 26 de Janeiro de 2013 9:29

    Cascudo disse certa vez que “o vício aproxima as pessoas” pronunciando o “x” com som de “ch”. É muito pouco provável a convivência de abstêmios de gerações diferentes. Quando ocorre é com reservas ou formalidades. Entre bebuns, não. A convivência é franca, in vino veritas. O que me permitiu uma convivência de pouco tempo, mas rica, com Cascudo, na Peixada Potengi. Nunca fui à sua casa, conhecia-a muito depois. Mas cheguei ao abuso de confrontar o mestre, chamando-o de reacionário. E no bar era tudo normal. Ele ria muito e ouvia minhas besteiras com paciência. Com Newton, minha convivência foi longa. Brigávamos mais do que conversávamos. O que não reduziu em nada a amizade em vida e admiração póstuma.

  3. Jarbas Martins 26 de Janeiro de 2013 13:27

    Conheci Navarro aos 18 anos, quando eu na trabalhava na Tribuna do Norte, na seção comercial do jornal. Anos 61 e 62. Ele era uma espécie de freelancer (na época não existia esse nome): deixava sua crônica na redação e saía para beber em um bar, na Tavares de Lira, em frente ao jornal. Eu era cristão, militante da Juventude Estudantil Católica, mas já me aventurava cautelosamente, sem entender bem o que às vezes lia, nos escritos de Sartre e André Gide. Lia também os católicos: Leon Bloy e…Gustavo Corção. Num sábado, ao meio-dia, fim de expediente, Navarro me viu com “Os Moedeiros Falsos”.Convidou-me pra ir com ele ao bar de frente. Ele bebendo, e eu, maravilhado e tímido, ouvindo-o falar em coisas como …um homem em disponibilidade etc, etc.. Eu, calado, nem sequer bebi um copo de água.. Navarro era um poeta…em disponibilidade. Falava bonito. E eu terminei não lendo “Os Moedeiros Falsos”.

  4. thiago gonzaga. 27 de Janeiro de 2013 0:10

    Caro Tácito, visitar o S.P. é sempre aprender um pouco mais .
    Muito bom este espaço , os temas e os comentários .

  5. Lívio Oliveira 27 de Janeiro de 2013 7:23

    Excelentes (e saborosos) os depoimentos de François, Jarbas e Marcos sobre Navarro. Bem que esses textos poderiam dar início a uma obra em homenagem ao grande personagem de nossas artes e letras. Até eu tenho um pequeno depoimento. Pense nisso, Marcos. Você poderia organizar essa obra?!

  6. Marcos Silva
    Marcos Silva 27 de Janeiro de 2013 8:41

    Agradeço a todos pelos comentários. A sugestão de Lívio é ótima, Newton merece mais e mais. Estou escrevendo sobre ele (apresentarei conferência no Simpósio Nacional da ANPUH, que se dará na UFRN, Natal, julho de 2013). Voltarei a comentar a proposta de Lívio.

  7. Lívio Oliveira 27 de Janeiro de 2013 8:44

    Considero Navarro um dos mais interessantes e ricos personagens de nossas artes e letras. Um monumento como a Ponte que leva o seu nome é uma homenagem merecida. Outras homenagens deverão vir. Evidentemente!

  8. Jarbas Martins 27 de Janeiro de 2013 14:07

    Lívio e Marcos estão fazendo o que os centros culturais,os festivais literários e as universidades já deviam ter feito- chamando a atenção do público para um grande artista do Estado. Se perguntarem aos mais jovens quem foi Newton Navarro, poucos saberão responder . Quero dar minha pequena contribuição, dizendo que Navarro não somente era ligado a Natal; era também ligadíssimo ao sertão, mais precisamente a Angicos,Seu Elpídio, pai de Newton, era classificador de algodão da hoje desativada Fazenda São Miguel, propriedade da Machine Cotton, truste inglês que explorava o cultivo de algodão nessa fazenda, ao pé do Cabugi..Os Bilros se fixaram na terras deles, a Fazenda Bela Vista. Eu sou parente de Afrânio e José Bilro, pelo lado materno (Adelaide a mãe deles era prima de minha avó materna, Ana Torres Péres). Navarro passou muitas e muitas temporadas na fazenda dos primos.Pintou e desenhou o cenário da caatinga da região, seus vaqueiros, gados e plantas. E desenhou a igreja, a praça e as recantos de Angicos. Quando Governador do Estado, Aluízio Alves conseguiu uma bolsa para estudar em Paris.Navarro não passou 15 dias. Mas essa história deu muito o que falar.Como uma famosa blague dele, quando se encontrava com os primos.Dizia para eles, depois de tomar os primeiros goles de conhaque: “Tantos bilros e nenhuma renda…” Parabéns Marcos, parabéns Lívio..

  9. Ângela Magna 27 de Janeiro de 2013 16:14

    Pois é, o poeta Jarbas sabia disso tudo e só agora torna público; não pode pois criticar os grêmios pela omissão. Somos todos culpados pelo esquecimento e acabamos irritados com quem se lembra. Parabéns a quem começou essa conversa. E pra fazer justiça, não foi Marcos nem Lívio. Foi Fernando Lucena falando mal, que despertou reações. Ô terrinha de muros baixíssimos. E poetas de alto escalão.

  10. François Silvestre 27 de Janeiro de 2013 16:37

    Quando restaurei o prédio da Fundação José Augusto, criando o Teatro de Cultura Popular, o Auditório Franco Jazielo, a galeria Odilon Ribeiro Coutinho, a Praça Emanuel Bezerra e a Galeria Newton Navarro, promovi, naquele período, duas exposições de Navarro. Uma individual e outra com Dorian Gray. Tácito é testemunha ocular. Não lembro de nenhum newtista prestigiando qualquer desses eventos.

  11. Manoel Borba 27 de Janeiro de 2013 17:08

    Kkkkkkkk… Primo da avó materna num é parente nem no nepotismo, pode arranjar um empreguim que ninguém reclama, e eu pensava que era besta sozinho, mas como tenho colegas! E ilustres habitantes da arcádia do Cabugi. Minha gente…deixa pra lá.

  12. Cellina Muniz 27 de Janeiro de 2013 20:16

    “Sinto falta de mais discussões sobre Navarro”, reclama o autor. Falta discutir é tudo, inclusive a questão da visibilidade/não-visibilidade que os (pretensos)intelectuais elegem -ou não- a certos temas (personas, paisagens etc e tal). Em 2011, aconteceu na Universidade um encontro sobre Navarro vinte anos depois de sua morte, chamado “Navarro na Veia”. Além de dez ou doze ilustres mortais, na plateia só me lembro de ter visto Manoel Onofre Jr., Castilho e Racine. Quem estava lá p discutir a nobreza e as desaventuras do cara? Pouco importa, é fácil dizer como deve ser o mundo, difícil é vivê-lo! Bem estava Navarro que, também de saco cheio de convenções e instituições, tão bem pintava e escrevia para fugir e melhor viver a sua contradição.

  13. Marcos Silva
    Marcos Silva 27 de Janeiro de 2013 23:06

    Cellina:

    Como ninguém discute tudo, cada pessoa precisa escolher um ou outro personagem, tema. Tive a impressão de que vc também sente falta etc. Fique à vontade.

  14. Jarbas Martins 28 de Janeiro de 2013 5:58

    Cala a boca, Manuel Borba. Você não conhece minha história.Gosto muito de genealogia. A propósito, desconfio que você (pelo mau caráter) deve ter parentesco com Borba Gato. Tchau, tô indo pro Facebook (mesmo com as recomendações de Assange, que diz que aquilo é um perigo…).

  15. Jarbas Martins 28 de Janeiro de 2013 6:29

    Que vacilo, amigo François.Terei novamente de fazer uma autocrítica (ô palavrinha).? Realmente você fez todas essas homenagens. Eu confesso: não estive (não me lembro por que) em nenhuma delas. Mais uma coisa: só você faria esta homenagem a Emmanuel Bezerra. Você e o professor Luís Pereira, quando era pró-reitor da UFRN. Emmanuel Bezerra…esse poeta garanto que Fernando Lucena leu.

  16. François Silvestre 28 de Janeiro de 2013 10:54

    Tudo bem, Mestre Jarbas. O problema, poeta, é que toda discussão aqui termina em briga. Será culpa do temperamento belicoso de Tácito? Parece até que o SP nasceu na faixa de Gaza, fez estágio no Afeganistão, graduação na Coréia e mestrado na Colômbia. Há, na relação entre cultores de arte e literatura, uma vocação quase compulsiva ao confronto. Somos condenados à infantilidade teórica. Parece até que amadurecer é obrigação apenas dos incultos. Viva Manoel de Barros, que edificou uma estátua poética à ignorância.

  17. Gustavo de Castro 28 de Janeiro de 2013 11:01

    Além do evento a que Celina se refere, sei que a Profa. Ângela Almeida fez seu mestrado e doutorado sobre Navarro e se dedica há muito tempo na divulgação, pesquisa e catalogação da obra de Navarro, que é realmente maravilhosa.

  18. Tácito Costa
    Tácito Costa 28 de Janeiro de 2013 11:33

    rsrsrs… François, você é um gozador.

  19. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 28 de Janeiro de 2013 11:38

    Por que não aproveitarmos as informações trazidas e ampliarmos e renovarmos as homenagens a Navarro? O que impede? A meu ver, nada.

  20. François Silvestre 28 de Janeiro de 2013 13:40

    A sugestão de Lívio é sensata e pertinente. Acho que é por aí. Quanto ao belicoso, referi-me ao jovem Tácito. Matando de raiva alguns articulistas e poetas de meia sola. Qualquer referência a mim não é mera coincidência. Quanto ao Tácito quase velho, sempre jovem, virou matreiro, esbanjando suavidade. Eu é que não aposto nessa mansidão.

  21. Tácito Costa
    Tácito Costa 28 de Janeiro de 2013 13:48

    rindo até agora com essas lorotas de François, de jovem e velho tácito.

  22. Lívio Oliveira 29 de Janeiro de 2013 9:10

    Marcos, se vc for mesmo organizar um livro-homenagem a Navarro, conte comigo pra qualquer tarefa/apoio aqui em Natal. Ok?

  23. Marcos Silva
    Marcos Silva 29 de Janeiro de 2013 10:33

    Agradeço a Lívio pelo precioso apoio. Estou amadurecendo uma idéia. Voltaremos a falar sobre isso.

  24. Jarbas Martins 29 de Janeiro de 2013 15:04

    Não, esqueçam Marcos e Lívio, que Navarro gostava de futebol e era abecedista. Por favor. E escreveu uma crônica linda sobre Jorginho, grande jogador do ABC, Jorginho anda muito esquecido..Até mesmo aí na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, por onde se aposentou.

  25. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 6 de Fevereiro de 2013 6:21

    Marcos e Jarbas, conversei ontem com Angela Almeida e ela me contou que vêm várias publicações de e sobre Navarro por aí. Inclusive, falou-me sobre alguns contos inéditos que estão sendo reunidos por um poeta amigo de Navarro para publicação. São vários estudiosos envolvidos. São vários livros, também. Portanto, acredito ser mais do que oportuna a homenagem que estamos propondo, através de um livro (com um ângulo distinto, específico) a ser organizado por você, Marcos. Angela se colocou à disposição, Marcos, para conversar sobre o assunto. Se precisar dos contatos, envie-me um e-mail para livioliveira@yahoo.com.br. Atenciosamente.

  26. Marcos Silva
    Marcos Silva 6 de Fevereiro de 2013 8:03

    Lívio, obrigado pela atenção. já enviei e.mail para vc.

  27. Jarbas Martins 6 de Fevereiro de 2013 16:58

    ok, Lívio

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