Newton Navarro ou Dorian Gray?

Em março de 2018, o presidente Eduardo Gosson e a diretoria da União Brasileira de Escritores do Rio Grande do Norte (UBE-RN) instituíram um Concurso Literário de Poesia Myriam Coeli, para alunos do Ensino Médio, em parceria com o Instituto Federal do RN e com a Secretaria de Estado e da Educação e Cultura do RN, visando incentivar e revelar novos talentos literários através da expressão poética.

Na entrega dos certificados aos ganhadores do prêmio de poesia, o diretor-geral do IFRN, José Arnóbio de Araújo Filho, convidou a diretoria da UBE/RN para uma sessão de fotos no gabinete do Campus Central-Natal.

Fotografia de capa: Acervo Tribuna do Norte

No dia seguinte, Jania Souza, escritora, poetisa e artista plástica potiguar, enviou-me uma foto do evento, via e-mail, na qual vislumbrei um extenso painel-mural com motivos folclóricos.

Diretoria da UBE/RN e alunos premiados no gabinete da direção geral do IFRN – Campus Central Natal

A dúvida surgiu de imediato. Quem teria sido o autor dessa arte mural, Newton Navarro ou Dorian Gray? A resposta teria vindo fácil se eu houvesse observado a rubrica no mural.

Eis que meses depois, a poetisa e cordelista Geralda Efigênia, me envia através do facebook a dita foto, fazendo lembrar-me do evento. A dúvida surgiu novamente. Liguei para alguns professores, mas assim como eu, desconheciam a autoria da obra.

Resolvi pesquisar um pouco mais sobre esses dois ícones potiguares das artes plásticas que  introduziram o movimento modernista juntamente com Ivon Rodrigues, nos anos 50. Inauguraram o I Salão de Arte Moderna de Natal, em um antigo casarão, no centro da cidade, e assim, revolucionaram o mundo das artes plásticas no estado do RN.

Newton Navarro e Dorian Gray, imortais da Academia Norte-riograndense de Letras, desenvolveram trabalhos em diversas plataformas artísticas, como desenho, escultura, cerâmica, tapeçaria, além de serem exímios na arte de escrever poesia e prosa.

Newton Navarro Bilro (1928-1992)

Newton Navarro Bilro (1928-1992) foi poeta, contista, cronista, dramaturgo, desenhista e pintor. Em 1948, participou do I Salão de Arte Moderna do Recife, e apresentou sua primeira mostra em Natal, 57 trabalhos, com pinceladas ousadas.

Newton Navarro era apaixonado pelo Rio Potengi, pelos bairros da Redinha e Cidade Baixa, por pescadores, rendeiras e vaqueiros.

Navarro foi um brilhante orador (Leia o Artigo “O Lirismo de Newton Navarro”). Às vezes, quando o álcool lhe corria pelas veias, tornava-se insolente e ousado nas palavras. Um eterno boêmio. Caminhava entre ruas e vielas com um olhar investigador captando os entretons, matizes para embelezar suas telas. Um artista desligado de bens materiais. Um explorador de sons e cores, um espia de almas. Uma águia inquieta, numa ânsia por um vôo livre, mas que sempre voltava para seu ninho.

Sua obra retratou o social, os bairros da Redinha e Cidade Baixa com suas igrejas, casas modestas e becos populares. Era um apaixonado pelo rio Potengi, pelo mar e pelo subúrbios de Natal. Expôs suas telas, em aquarela, óleo, nanquim… na Argentina, Paris e Lisboa, com temática típica nordestina integrando pescadores, lavadeiras, rendeiras, vaqueiros e cangaceiros. Homenageado com o nome da ponte que liga o bairro de Santo Reis a Redinha.

Como escritor, iniciou com o livro de poesia Subúrbio do Silêncio. Publicou Beira-Rio, e ABC do Cantador Clarimundo.  Considerado pela crítica como um excelente cronista e contista, teve trabalhos publicados em vários jornais e antologias.

Dorian Gray (1930-2017)

Dorian Gray Caldas (1930-teve seu nome baseado no romance O Retrato de Dorian Gray, do escritor e dramaturgo irlandês, Oscar Wilde (1854/1900) autor da frase A arte nunca exprime nada que não seja ela própria.

Educado, erudito e disciplinado no seu fazer artístico (Leia o Artigo “As Cores Perenes de Dorian Gray Caldas”). Um talento com várias vertentes que atravessou fronteiras. Realizou a exposição Caminhos da Modernidade, na Galeria de Artes do Campus Natal-Cidade Alta. Atuou como assessor da Secretária de Educação e Cultura do Rio Grande do Norte, como conselheiro da Fundação José Augusto e como diretor do Teatro Alberto Maranhão e da Escolinha de Arte Cândido Portinari.


Educado, erudito e disciplinado, Dorian Gray Caldas, cujo nome tem a óbvia influência do personagem de Oscar Wilde, foi um talento com várias vertentes, que atravessou fronteiras. Fotografia: Rodrigo Sena.

Segundo o poeta Diógenes da Cunha Lima: Dorian Gray é um polímata. Um artista completo. Pinta e encanta com tapetes. Desenha e faz esculturas. Faz seus próprios livros e ilustra os dos outros. Derrama poesia em tudo que faz. Até as suas amizades são densamente poéticas.

 Depois de exaustiva pesquisa na internet, a dúvida continuava. Afinal, qual dos dois assinou o painel-mural com motivos folclóricos do gabinete da direção geral do IFRN?

No dia da poesia, convidada por Luzimar Barbalho, Chefe do Departamento de Ensino do IFRN, para uma palestra sobre A Importância da Leitura, fui, ao final, presenteada com a belíssima coletânea poética de Dorian Gray: Do outro Lado Da Sombra  – Poesia Quase Completa. 2 volumes. 2015. Editora IFRN, cujo volume 1 reuniu uma seleção de poemas publicados em 10 livros anteriores e o volume 2 apresentou poemas inéditos.

Ao abrir o livro do volume I de Dorian Gray, deparo-me com a seguinte apresentação de Belchior de Oliveira Rocha, ex-Reitor do IFRN: Dorian Gray realizou dois trabalhos artísticos para a então Escola Industrial: uma Ceia Larga, painel de azulejos, que foi implantado no refeitório e um painel mural alusivo aos Folguedos da Cidade do Natal, além da parceria com Newton Navarro num dos painéis executados pelo então artista plástico, nas rampas de acesso às salas de aula do atual Campus Natal Central do IFRN.

Tendo sido professora do Instituto Federal do IFRN, Campus Central/Natal, meus olhos se encantavam com os murais expressionistas (misto de óleo e cera) das paredes das rampas de acesso às salas de aulas, com o tema leitura e trabalho simbolizando a juventude e a fonte inesgotável do saber, pintadas por Newton Navarro, em 1967 e restaurados pelo artista plástico Dorian Gray Caldas, em 2011.

Pesquisando um pouco mais, leio a tese de mestrado da jornalista Arilene Lucena de Medeiros, que assim descreve o painel-mural do gabinete da direção-geral: Motivos Folclóricos – bumba-meu-boi, coco de roda, coroação de rei – pintado com giz de cera e acrílica, medindo 9,80m x 3,60m pelo artista plástico Dorian Gray – 1967 – ano da inauguração da Escola Industrial de Natal.

Enfim, a resposta chegara e junto com ela, o sono.

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