Nicolelis cria o futuro que a ficção científica sonhou

O neurocientista Miguel Nicolelis goza hoje de uma quase unânime notoriedade no meio científico brasileiro, graças a um conjunto de ideias em parte novas, em parte não, que manuseia com rara habilidade. A possibilidade de que homens e máquinas interajam no médio prazo sem intermediação de terceiros está entre as mais interessantes, e reeditam um quê de déjà-vu para os leitores dos clássicos da ficção-científica, notadamente para aqueles que trazem a assinatura de Isaac Asimov, Ray Bradbury (foto), Arthur C. Clarke.

O otimismo que Nicolelis exibe lembra um pouco o estilo dos homens de ciência da América, para os quais tudo ainda é possível, ao contrário do que pensam seus “céticos” colegas europeus, para muitos dos quais a ciência, como tudo mais neste mundo, tem seus limites. E estes já chegaram ou estão chegando, e nada há que se possa fazer sobre disso.

A convicção que o cientista exibe sobretudo nas entrevistas para a imprensa, como a que deu recentemente ao jornalista Alexandre Gonçalves, do jornal O Estado de S. Paulo, lhe permite discorrer acerca de assuntos que, postos à disposição de fontes menos autorizadas, soariam incríveis e mirabolantes. Quando ele afirma, por exemplo, que “nossa mente poderá atuar com máquinas que estão à distância e operar dispositivos de proporções nanométricas ou gigantescas: de uma nave espacial a uma ferramenta que penetra no espaço entre duas células para corrigir um defeito” não está, de algum modo, invadindo a fronteira que separa ciência e ficção científica? A diferença é que ele fala como homem de ciência, autorizado, portanto, até aonde sabemos, a agir desse modo. Mas não podemos deixar de pensar nos super-heróis dos quadrinhos contemporâneos, cujas aventuras os colocam justamente nessa fronteira a que nos referimos, “antecipando” inventos que hoje não passam de miragens.

Além de todo o conhecimento científico que desenvolve, inclusive no Centro de Pesquisas de Neurociências em Macaíba, Nicolelis poderia dizer em apoio às suas ideias que é preciso sonhar, antes de fazer. Dito que se torna ainda mais consistente quando os sonhos têm embasamento na ciência, como os dele. São ideias, aliás, que não param de repercutir mundo afora. Mas, na verdade, não são de simples entendimento. Quem se der ao trabalho de ler a longa entrevista que Nicolelis deu ao Estadão, poderá perceber nas suas entrelinhas as dificuldades que o repórter Alexandre Gonçalves experimentou tentando fazer o cientista esclarecer conceitos como “interface cérebro-máquina”, “exoesqueletos”, “registro de neurônios”…

Talvez as ideias de Nicolelis sejam avançadas demais para a nossa época. Como a de que no futuro não haverá internet nem haverá linguagem, pelo menos como as concebemos hoje. Ambas serão substituídas por uma espécie de “rede cerebral”. O mais surpreendente, porém, nesse cenário futurista destituído de linguagem e, consequentemente, de internet (temo que na utopia nicoleliana os livros também estejam fadados a desaparecer, agora sem contrapartida no espaço cibernético), é o lugar reservado ao corpo. De acordo com o cientista, esse será um espaço secundário, ou, em suas palavras: “o corpo permanecerá para manter a mente viva, mas não precisará atuar fisicamente”. Diante dessa colocação, é impossível não pensar naqueles seres de cérebros hipertrofiados, saídos diretamente da imaginação dos autores de ficção científica, que vêm, no futuro, do espaço extraterrestre, de algum planeta mais desenvolvido e que, graças à debilidade dos seus corpos fracassam na tentativa dominar os terráqueos… Felizmente ainda não tão evoluídos mentalmente a ponto de desprezarem os seus próprios corpos.

Miguel Nicolelis é alguém que pensa o futuro com tanta ansiedade que está decidido a antecipá-lo. A firmeza com que anuncia, para daqui a três meses, a publicação de uma obra que acredita revolucionária para a ciência, é uma das interfaces mais características desse cientista que se diz um “pária” no meio científico brasileiro mas que, ainda assim, insiste em trabalhar no Brasil. Curiosamente, por uma razão pouco científica: “uma obsessão”.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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