O que Nietzsche tem a nos dizer

Por Marcio Tavares D’Amaral
O GLOBO

O tempo não tem começo nem fim, é eterno e infinito, e portanto tudo já aconteceu e acontecerá de novo

Nietzsche foi um filósofo que pensou e escreveu coisas extraordinárias, muito duras. Fugia dos contatos, arrastava atrás de si um enorme baú com seus livros, roupas, pouca coisa mais. E procurava o ar frio, bom para a saúde frágil. Punha sua mesa de frente para o sol e saía, andarilho. Na volta anotava impressões e ideias, quando ficava satisfeito as organizava em aforismos, pequenos capítulos, poemas, e tinha um livro. Publicava-os e ninguém os lia, nem comentava. Sentiam medo do solitário violento.

Um dia, caminhando nas montanhas da Suíça, teve o que chamou sua “ideia mais pesada”: o tempo não tem começo nem fim, é eterno e infinito, e portanto tudo já aconteceu e acontecerá de novo. Na mesma ordem. Igual. Chamou a essa ideia o Eterno Retorno do Mesmo. Não escreveu o livro do Eterno Retorno. Deixou duas ou três pistas. Até hoje especulamos sobre elas. Com sofrimento. É pesado demais aceitar que o futuro é o mesmo que o passado. Eternamente igual.

Nietzsche naturalmente via outra coisa na sua ideia. Tinha escapado da maldição, que a filosofia foi adquirindo ao longo dos séculos, de fazer sistemas cheios de rigor lógico, mas longe da vida. Como Sócrates, que odiava do fundo das entranhas, sabia que a filosofia deve servir à vida — ou ficar quieta e não atrapalhar a potência de viver. Pensava que os valores, criados por Sócrates, do bom, do belo, do justo e do verdadeiro foram uma conspiração da filosofia, da moral e da religião para julgarem e condenarem a vida, sua força afirmadora e livre. No seu século XIX essa força teria chegado ao máximo da sua humilhação. Ao fundo do poço: o último homem, o homem que deseja morrer, a vontade de nada, o nada de vontade, assim o chamou. Desespero e desesperança.

Mas no dia do passeio na montanha teve essa ideia: no fundo do poço não se encontra a morte; se não é possível cair mais, essa é a hora de saltar para o recomeço. Tudo de novo. Com o que a vida teve de bom e o que sofreu de mau. Pois a vida verdadeira está além da oposição entre bem e mal. É maior do que isso. É pura afirmação da sua própria força.

No livro “Aurora” ele nos deixou uma pista sobre o Eterno Retorno. Se um demônio — por que não o da meia-noite, quando um dia termina e outro começa no mesmo fulgurante instante, e não há, ainda, ontem nem amanhã — se introduzisse no seu sonho e perguntasse: — Você quer tudo de novo, e na mesma ordem? — ele responderia: — Sim! E desse modo desejaria todo o passado. Pois fácil, pensou então, é desejar o futuro; querer de volta tudo o que foi, sem julgamentos nem seleções, é amar a vida além de bem e mal. É dizer um “Sim!” soberano à vida.

Deixar de ser demasiado humano, como o camelo que carrega nas corcovas todos os pesos da submissão. Ir para o deserto, como o leão, urrar pela liberdade. E depois tornar-se a criança, que está na pura inocência do tempo. Sem medo. Assim ele pensou, e havia nesse pensar a esperança da vida forte de uma Humanidade transfigurada pela paixão dionisíaca, pela desmesura e pelo excesso, que ele opunha à força apolínea, toda feita de contenções e limites, mestra dos julgamentos. Dionísio era o deus grego da ebriedade. Apolo era o da luz. O Sol, que faz luz e sombra, põe uns na claridade, outros, empurra para as trevas. Nietzsche era dionisíaco. Pensava a vida como um transbordamento de força e criação. E queria protegê-la das condenações apolíneas, cheias de desdenhosa superioridade. Sua ideia, tão pesada e difícil, do Eterno Retorno era para isso que servia: ensinar aos homens a esperança. Os homens tinham medo. Evitavam ouvi-lo.

Um dia, em Turim, viu um cavalo ser violentamente espancado. Identificou naquele corpo poderoso e belo, assim supliciado, a própria força da vida humilhada até a baba e o sangue. Agarrou-se ao animal, defendeu-o e perdeu os sentidos. E a razão. Nunca a recuperou. Ensombreceu numa loucura mansa. Viveu quase 10 anos assim. E foi quando seus livros começaram a ser lidos. Ficou famoso. Não soube disso. Nem era a fama que lhe importava. Era a força da vida. Ele fora derrubado pelo chicote do torturador da vida, mas não renunciara à sua defesa. A loucura, como, tanto tempo antes, a morte para Sócrates, era um preço justo para não abrir mão do mais valioso.

Hoje, por aqui, parece que vemos um sol se pôr e lamentamos a escuridão. Porque a História acabou, dizem, e não há mais futuro e sonho. Enganam-se. Amanhã haverá sol, e os tenebrosos se espantarão. O tempo dos sonhos voltará. Nietzsche pode ter pensado coisas estranhas, mas nessa teve razão: o tempo não acaba para aqueles que amam a vida acima de ponderações e conveniências. E estão dispostos a alucinar, encher-se de luz por ela.

Esse pode ser hoje um bom nome para a esperança. Que retorna sempre. Mais forte ainda quando o mundo escureceu.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Henrique Molina 9 de julho de 2015 9:00

    Obrigado pela LUZ !

  2. Marcos Silva 8 de julho de 2015 4:38

    Nietzsche me impressiona pela beleza da escrita e pelo desafio do pensamento. As reflexões sobre a materialidade do poder são muito fortes: pra não serem devorados por ursos ou águias, ovelhas precisariam saber lutar, não invocar alguma inquestionável pureza. Ele foi usado ideologicamente pelos nazistas mas não tem culpa por isso.

  3. Luis Sávio Dantas 7 de julho de 2015 20:28

    A esperança que Nietzsche anuncia, é a estética do herói da tragédia Grega, que tem diante de si sua existência num mundo terrível, e tem que dar respostas a esse mundo com suas próprias forças. A anunciação dessa estética para ele, é a aurora depois da noite Socrática duma esperança num além. Nietzsche sentenciou que a humanidade só escaparia da decadência, quando o seu Zaratustra fosse ensinado nas escolas, pois o homem, é uma corda estendida entre o verme e o super-homem.

  4. José Saddock 6 de julho de 2015 22:23

    Um texto simples e belo. Um ensaio sobre a Esperança, sobre o Sol que todo Homem tem e que lhe pertence, e que deve lutar para fazê-lo Eterno. Valeu!

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