Ninguém é de ninguém

Por Carlos Guilherme Mota
ESTADÃO

Apaga-se da história do Brasil a complexidade dos estamentos sociais, substituídos agora pela classe B, pela classe C, etc.

O problema mais grave do Brasil nesta última quadra solicita discussão atualizada a propósito dos valores que deveriam reger um país que se pensa em ascensão. Que os índices positivos não nos iludam neste final do primeiro ano do governo Dilma, pois em amplas camadas da população a capacidade de leitura e escrita, de organização do pensamento e de raciocínio matemático minimamente articulado ainda nos remetem à Idade da Pedra Lascada. Um mal-estar da (in)civilização ronda o País, com a sociedade civil em frangalhos se distanciando cada vez mais das utopias democratizantes dos anos 80 e 90.

Muitos pensam candidamente, como o ministro Guido Mantega (foto), que é na economia e nas finanças que reside nosso calcanhar de aquiles. Ora, no Brasil, salvo em poucos momentos excepcionais de sua história, as elites sempre evitaram atacar frontalmente o principal problema que corrói nossa sociedade, que é o da educação. E quem diz educação se refere aos valores básicos da cidadania, que deveriam ser cultivados com total empenho não apenas pelo Estado – como ocorreu nos anos 50 do século passado –, mas também por famílias conscientes da enormidade do abismo que as aguarda e a seus despreparados rebentos, em curto prazo. Famílias mais modestas parecem dar maior atenção a esse problema do que as elites satisfeitas com a colonialidade neosenzaleira de nosso mores nacional.

Que fazer então? Uma ação mobilizadora do Estado, bem planejada, firme e duradoura, centrada nas escolas, ao longo do tempo e acima dos partidos de ocasião, com o objetivo definido de plasmar uma nova sociedade civil deveras democrática, preparada para enfrentar os graves desafios da atualidade, eis o que deve ser feito por quem tenha visão de estadista. Pois o que se está vendo é o naufrágio da naçãonesta sociedade do espetáculo e da cultura do marketing, gerando a “carência de resistência mental”, de que falava Karl Mannheim em Diagnóstico de Nosso Tempo (já no exílio em 1939), carência tanto mais grave em uma sociedade de massas despreparada como a nossa.

Habituadas à “miséria farta”, a que se referia Anísio Teixeira, nossas elites – servindo-se dos tentáculos do “neo” sindicalismo populista e adotando tipos vários de expedientes protelatórios – souberam aliciar lideranças das classes dominadas (trabalhadores e lumpem proletários), nelas introjetando os valores do velho coronelismo dos donos do poder, agora em sua versão pósmoderna repaginada. Um exemplo? Não por acaso, nesse sistema ideológico dominante e desmobilizador, simplesmente fizeram desaparecer da cena nacional as classes sociais tradicionais (burguesia, proletariado, etc.), cujas histórias aprendemos nos antigos e bons cursos colegiais. Ou seja, foram desidratadas as classes fundamentais e seus projetos, eclipsados nesse sistema obtuso de classificação social adotado por marqueteiros, “analistas” e oportunistas da hora. Apagou-se da história do Brasil toda a complexidade e dinamismos das classes e estamentos sociais, substituídos agora pela classe B, a classe C, etc. Solidamente instalado o capitalismo selvagem, nessa manobra ideológica apaga-se até mesmo a possibilidade de crítica à ganância desassombrada de uma abstrata classe A. (Nessa visão de mundo, a classe C ascendeu para a classe B, mercê da bolha que explica o consumismo dos últimos anos, que logo poderá explodir, aprofundando ainda mais a cultura da inadimplência, da violência e do banditismo em seus variados matizes.)

O problema nacional reside justamente na dita classe A, no aglomerado de burguesias dominantes que, em confortável maioria, assumem em nosso país um caráter decididamente predatório, como denunciou há alguns anos o urbanista Candido Malta Campos, ao fazer a distinção entre burguesia positiva e burguesia predatória. Afinal, não se equacionou em tempo hábil a questão urbana (que inclui o problema dos transportes de massa), a questão da Previdência, a questão universitária para a formação de quadros (inclusive de docentes para o segundo grau), a questão da alimentação, da habitação e do saneamento básico, e assim por diante.

Nesse quadro, como falar em valores quando a deseducação começa em casa e o consumismo passa a fazer parte do ethos coletivo das elites, que deveriam servir de referência para o conjunto social? Em geral, miram-se elas em outros países naquilo que há de superficial e moderno, desconhecendo porém o que fazem aquelas elites garantidoras de alto nível em políticas públicas, em suas universidades, em seus teatros e museus educativos, em suas escolas.

No que diz respeito à universidade como geradora de valores e crítica para a renovação democrática, nossos liberais falharam, com o ex-ministro Paulo Renato à frente. Mas a esquerda faz apenas o que sabe fazer: pouco, talvez por falta de leitura. Nem mesmo ao sociólogo e deputado Florestan Fernandes deu-se maior atenção quando alertava ele, há 20 anos: “Muitos colocam o combate à fome e à penúria em primeiro lugar. Contudo, a educação e a consciência social clara são os principais substratos dos pobres na luta de classes. Uma população trabalhadora menos rústica não seria reduzida à condição de substituta e sucessora da população escrava e liberta por tanto tempo se dispusesse de melhor nível educacional e cultural”.

A revalorização do trabalho na esfera pública deve voltar à ordem do dia para que se reverta a grave desidentificação dos servidores – professores e intelectuais, inclusive – com o serviço público, tanto no Estado como na iniciativa privada, que também oferece serviço à coletividade. A hora é de requalificarmos nossos professores para a longa batalha que se anuncia e retomarmos a discussão sobre o papel da universidade, tão silenciosa em face da enormidade dos problemas nacionais.

CARLOS GUILHERME MOTA – HISTORIADOR, PROFESSOR TITULAR DA USP E DO MACKENZIE, E AUTOR DE EDUCAÇÃO, CONTRAIDEOLOGIA E CULTURA (ED. GLOBO)

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