No âmago da poesia

Por Daniel Bruno Miranda da Silva

RESENHA

BRANDÃO, Fiama Hasse Pais. Âmago I – nova arte. Lisboa: Limiar, 1976 (Coleção os olhos e a memória, vol. 34. 72 pp.)

Quadro um: sobre a poeta

Tradutora, ensaísta, dramaturga, romancista. Um sem-fim de atividades relacionadas à linguagem desenvolveu essa notável portuguesa. Nascida em Carcavelos, a 15 de agosto de 1938, Fiama Hasse Pais Brandão viveu até os 18 anos em sua terra, tendo estudado no St. Julian’s School, Colégio Inglês da cidade. Mais tarde, a afeição às palavras e uma imanente curiosidade pelo verbo levaram-na à Universidade de Lisboa, local onde estuda Filologia Germânica, curso oferecido pela Faculdade de Letras desta instituição. Além de poeta, traduziu textos do inglês, do francês e do alemão; escreveu peças de teatro, tendo inclusive tomado parte na fundação do Grupo de Teatro de Letras. Faleceu a 19 de janeiro de 2007, em Lisboa. Sua morte foi ocasionada por complicações advindas do Mal de Parkinson. Depois de uma vida que incluiu um casamento, 20 anos de serviços como bibliotecária-arquivista, na Universidade de Lisboa, e uma dedicação ingente à Literatura, essa tecelã das palavras deixou um vasto legado literário, – digno de investigações que incluam múltiplos domínios do conhecimento – inscrevendo-se para sempre como uma das maiores vozes da História da Literatura Portuguesa.

Quadro dois: impressões de “Âmago I”

A poesia de Fiama articula-se a partir de um traçado rítmico inusitado, pois o ritmo dos versos não é engendrado pelo corte da linha como estamos habituados a conceber e ler, também marcado por imagens verbais compostas pela quebra da cadência tradicional da mancha negra no branco do papel, efeito que suscita/obriga uma leitura não linear dos versos. Todavia, esse descompasso se dá porque certas palavras que ocupam o fim de determinados versos são partidos, com uma das metades ficando em um dos versos, e a outra indo ocupar o começo da próxima linha. Essa partição sugere um sentido a mais para a linha, como se pode ver em um trecho de “A Tapada de Mafra I”:

“Entre as árvores o veado passa.
Do outro lado é o ocaso. Ele
É um espelho para reproduzir
As mutações da vida. Tão ar
Tificial como a arborização.”

Com esse recurso estilístico, constrói-se um sentido amplo que aponta tanto para a fugacidade do elemento veado (“Tão ar”), quanto para sua participação na constituição da artificialidade do ambiente (“Tão artificial como a arborização.”). Esse jogo semântico, que secciona as palavras cuidadosamente, é o responsável pelo ritmo peculiar do texto da poeta, pois induz o leitor a tentar adequar o compasso da sua leitura às quebras verbais presentes no poema. Com isso, o poema “provoca” o leitor a buscar os sentidos possíveis nas entrelinhas dessas rupturas, desafiando-o a compor uma trilha interpretativa própria a cada leitura. Ou seja, o poema está em constante “metamorfose”.

Outra característica notável nos textos da poeta são as imagens cotidianas amplificadas, lidas com um olhar poético. A partir delas, o eu-lírico guia o leitor, construindo metáforas para impressões íntimas através de uma observação e reinterpretação de cenas do dia-a-dia. Na segunda estrofe de “Morte no Plano”, esse traço da escritura da poeta se mostra claramente:

“O tom baço que a chuva traz. Es
Plêndido. Espectro a espectro. Um
Vento que desloca a parte para o todo.”

Fato corriqueiro num país europeu como Portugal, a chuva passa despercebida aos olhos da maioria das pessoas. No entanto, para o eu-lírico, a chuva portaria “um tom baço”, classificado como esplêndido. Esse tom baço seria um vento que agrega, levando as partes ao encontro do todo. Ou seja, na simplicidade de um fenômeno climático recorrente, o eu-lírico enxerga o fator que une o “espiritual disperso”, que faz com que até o intangível se coadune, se comunique.

Com essa escrita poética peculiar e criativa, aliada à sua versatilidade artística, Fiama Hasse Pais Brandão gravou seu nome na história da literatura portuguesa, legando às próximas gerações um trabalho polivalente de grande relevância estética.

Graduando em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas, aluno do Professor e Poeta Márcio de Lima Dantas.

Bolsista IC/PIBIC em Literatura Portuguesa

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