No dia do meu aniversário

Neste domingo (31/03) completo quarenta e seis anos. Considerei um primeiro presente poder comemorá-lo em um fim de semana, porque, de segunda a sexta-feira, é um corre-corre tão grande que até para aniversariar fica complicado.

Todos os anos penso em celebrar de maneira inusitada. Quase nunca dá certo, porque não me planejo a tempo. Mas tem umas coisinhas legais que já coloquei em prática: aos quarenta, por exemplo, fiz uma tarde de costuras com minhas tias. Rimos muito (elas são divertidíssimas) e costuramos tantos “fuxicos” que, após seis anos, eu ainda tenho um saco cheio deles.

Aos quarenta e três fiz uma celebração temática sobre o conto “A festa de Babette”, da escritora dinamarquesa Karen Blixen. Convidei amigos, preparei uma paella e conversamos sobre as questões filosóficas e gastronômicas da narrativa.

Quarenta e seis quartetos de estações, sendo elas de alegres verões, instáveis outonos, afetuosas primaveras e invernais tristezas, trazem reflexões. Pelo menos para pessoas como eu, naturalmente propensas a fazer da existência uma eterna fonte de divagações.

Me ponho a pensar, por exemplo, no que mudou de uns anos para cá, em relação à qualidade de vida que tenho desfrutado. Na minha saúde, nas minhas escolhas e nas consequências delas.


“Mas ainda há juventude aqui dentro. Percebo isso sempre que estou com tempo livre. A vida me encanta em algumas situações”.

O tempo rodou num estante

Penso nos meus pais já idosos e no medo que tenho de perde-los. Penso no homem que eu amo há uns vinte e cinco anos e em nossa convivência, em meio à tão inquietante e vulnerável habilidade de amar. Penso nos meus três filhos. Em como a maternidade pode ser céu e inferno.

Penso na vida profissional: devo continuar cindida entre a escrita e a psicologia ou saltar e mergulhar no fascinante lago da literatura? Se eu decidir fazer isso, como sobreviverei escritora em um dos menores estados do nordeste? To be or not to be…

Penso no Brasil: em como é frustrante ver tantos retrocessos. Em como é amargo constatar, que as situações de pobreza, desemprego, violência e saúde pública permanecerão matando os mais vulneráveis porque, para eles, as mudanças serão ainda mais desvantajosas.

Penso e sigo vivendo. Sei que me esforço (nem sempre o suficiente) porque já faltam forças. Mas não me cobro. Aliás, nunca fui de me cobrar resultados. Sempre procurei fazer minha parte e esperar pelos frutos, que podem vir ou não. Aprendi a resignar-me com adversidades, menos com uma, da qual me abstenho de expor aqui, por não querer relembrar essa dor.

Sei que estou mais velha de corpo e de mente. Os cabelos estão mais brancos e o coração vai perdendo o tom intenso da mocidade, dando lugar a uma nuance, que combina bem, com a leveza que quero para mim a esta altura da vida.

Mas ainda há juventude aqui dentro. Percebo isso sempre que estou com tempo livre. A vida me encanta em algumas situações. Como quando estou perto do mar, ou com meus filhos, vendo as coisas engraçadas que a adolescência faz com eles.


Reprodução do quadro “Rain In The Desert”, de Gabriela Lavezzari

Banho de chuva

Quando leio poemas, balanço na rede e assisto séries com a família, em dias chuvosos. Ou quando estou com meus sobrinhos, ou ouvindo músicas incríveis, como “Catedral” da Zélia Duncan, ou comendo brigadeiro.

Quando escrevo crônicas como esta ou quando meu amado está de bem com a vida, cozinhando para nós, a vida é uma beleza.

Esse ano não pensei em nada diferente para fazer. O que será que isso significa? Envelhecer? Ou a vida anda tão corrida que estou esquecendo de viver?

Ou os problemas finalmente me transformaram na senhora sisuda que vovó Francisca parecia ser? Estou olhando para uma foto dela agora: tão séria, tão responsável, tão desencantada com a vida, ao lado de vovô, que permaneceu menino, até o último dos seus oitenta e seis anos.

O César comprou para mim uma Olivetti. Ele pretendia fazer uma surpresa, mas a Gigi, inadvertidamente, me contou que havia uma máquina de datilografia no quarto da bagunça. Combinamos que eu só a verei no domingo e estou me comichando de curiosidade.

Adorei a ideia do presente! É a minha cara! Não escreverei nela, é claro, mas a colocarei em um lugar visível no meu escritório, para me lembrar de que tudo envelhece, mas não necessariamente perde seu lugar no mundo.

Espero que haja um temporal no domingo porque pretendo tomar banho de chuva, como fazia aos nove anos com meu avô menino.

Adoro chuva!

Acordarei tarde, porque é uma delícia!

Farei um bolo de leite ninho. Outra delícia!

Lerei na minha redinha? Talvez não dê tempo.

Receberei muitos beijos e abraços e os do meu amado, certamente terminarão na cama, (o que é ótimo, porque sexo é uma excelente programação para um aniversário de quarenta e seis anos em um domingo). Não chega a ser inusitado, mas quem liga? A vida é boa, afinal.

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