No lupanar

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Água em profusão era tudo o que pedia agora ao garçon, depois de três lapadas grandes de cana.

−Bota água na porra desse copo senão você num volta vivo pra casa!

O garçon, calado, porém sereno e calmo, feito um monge budista − talvez pela longa experiência de lidar com situações parecidas − levava a todo tempo a garrafa de vidro e o gelo à parte e saía do alcance do sujeito. O bicho nervoso ficava lá, curvando-se paralelo à tampa da mesa e entornando copos e mais copos d’água, como se quisesse beber o Gargalheiras e o Boqueirão juntos. Isso durou uns dez minutos…

− Agora eu tô pronto! Vou entrar nessa caralha!

Sentenciou, levantando-se em direção ao corredor de quartos do cabaré, trinta-e-oito engatilhado, cotovelo em perpendicular, cano apontado pro teto, vontade de fazer o mal. E o garçon ia fazer o quê, diante de um rinoceronte como aquele? Só olhava. E esperava, dando continuidade regular aos serviços da casa.

O troglodita já se aproximava do covil onde estava sua mulher, desavisada, trepando com um vereadorzinho melado da cidade vizinha, quando topou num mosaico quebrado e solto no piso e abriu o dedão feito um pequeno repolho, já pingando o fluido vermelho e negro e escorrendo pela sandália suja.

− Poooooorraaaaaaa! Poooooorraaaaaaa!

Foi quando os dois ouviram lá dentro e conseguiram pular − não se sabe ainda como − pela janela até então fechada e firmada por uma trava de ferro. O brutamontes deu a volta ao redor da casa, não encontrou nem fumaça dos dois. Tinham dado no pé com a camionete velha que ele mesmo deixara ligada embaixo de uma algaroba.

Não deixou barato. Pegou a primeira quenga que encontrou e disse que se vingaria nela, berrando alto pro resto da clientela do bordel:

− Vou comer. Vou comer e vou matar! Tão brincando comigo, é? Tão brincando comigo?

Meteu-se no quarto onde antes estava o casal fugitivo, a rapariga arrastada pelos cabelos longos e lisos, um peito à mostra, pulando sobre o tecido vulgar do vestido rasgado.

Já ia travando o combate sexual com a dona, baixando as calças diante da fêmea assustada, quando foram ouvidos os três estampidos pesados e secos: Pou! Pou! Pou!

Foi assim. O garçon permitia tudo, menos que mexessem com uma quenga amigada sua.

− Essa aí só dá pra quem ela quiser.

Repetia a frase mil vezes. E enxugava o sangue borbulhante com o pano de prato.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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