Nobel choca com postura antirrevolucionária

Em palestra em Princeton, Mario Vargas Llosa despeja ira contra Michel Foucault e os ideais da geração de 1968

FOI COM APREENSÃO QUE OUVI VARGAS LLOSA EVOCAR AS EXCURSÕES DO FILÓSOFO PELOS ANTROS GAY

PEDRO MEIRA MONTEIRO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Uma virtude do pensamento conservador é lembrar que o discurso é guiado por espectros. Ao falar, tentamos materializar fantasmas.

Há poucas semanas, o Nobel Mario Vargas Llosa proferiu em Princeton (EUA) a palestra “Breve Discurso sobre la Cultura”. Seu fantasma era Michel Foucault (1926-1984).

Ao peruano incomoda que a autoridade tenha sido profanada pela geração de 68, que, iludida, teria feito tábula rasa da “cultura” (que ele usa no singular).

O surpreendente não é sua postura conservadora, mas sim a utilização de um velho módulo do pensamento antirrevolucionário.

Ouvindo-o, lembrei-me do Visconde de Cairu (1756-1835), para quem a soltura dos corpos era a própria loucura da massa torpe e ignara.

Delicioso paradoxo: Cairu, que reage aos indivíduos que se deixam tomar pelas paixões, deixa-se tomar pela paixão do discurso, lançando-se a golpes poéticos, comparando as revoltas provinciais no Brasil imperial a uma “explosão” de vontades mal concertadas, mais perdidas e enfurecidas que “os átomos de Epicuro” soltos no espaço.

O velho ranzinza deixava-se tomar pelas mesmas paixões que pretendia controlar, e era pela soltura de sua imaginação que vinham à página seus melhores momentos como escritor. O problema é que Cairu nunca foi um bom escritor.

Guardadas as proporções (Vargas Llosa é um bom escritor), o Nobel deste ano tem também o seu dragão.

Sua ira, derramada contra Foucault, chegou a momentos ousados, como quando o espírito do filósofo francês foi lembrado em paralelo à degradação de seu corpo.

MASTURBAÇÃO

Foi com apreensão que ouvi Vargas Llosa evocar as excursões do filósofo pelos antros gay de San Francisco, para em seguida referir sua morte. Seria a AIDS, então, a justiça poética e maldita a recair sobre aquele que tragicamente negou a dissolução de sua vida moral?

Houve outros momentos de pasmo, como quando suas baterias se voltaram contra toda uma tradição do pensamento crítico no pós-68, até que dissesse que tal pensamento não produziu muitas vezes mais que uma inútil “masturbação” (sic).

Respeito os conservadores, especialmente aqueles que, como Vargas Llosa, têm a dignidade de sustentar publicamente sua voz.

Houve, contudo, pelo menos um grande equívoco em sua fala: ele não se poupou à já usada e cansada gracinha de que, diante de um texto de Jacques Derrida (1930-2004), pouco ou nada se entende. Mas não é verdade que ele nada tenha compreendido.

Ele compreendeu que o gesto de desconfiança em relação ao sentido, que está no coração da aventura desconstrucionista, é o mais perigoso de todos os gestos, porque comporta a aposta no desejo e na possibilidade mesma do desvio.

Mas desvio de quê? Da cultura? Estaríamos todos fugindo dela? Mas cultura de quem? Para quem? Vargas Llosa não crê que, transviados, cheguemos à cultura. Por isso, o seu é o discurso da retenção, da contenção e do recalque em relação aos poderes dissolventes do corpo ou do Corpo, em sua dimensão política.

Como no caso de outros conservadores, talvez o mais importante não seja o que ele propõe, mas sim aquilo de que foge.

PEDRO MEIRA MONTEIRO é professor de literatura brasileira em Princeton, autor de “Um Moralista nos Trópicos” (Boitempo)

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