Nobel para Noel

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Noel foi um primeiro mediador cultural entre estratos orais e escritos da vida do Rio

Por um desses muitos mistérios das relações entre Brasil e Portugal, a coluna passada, que escrevi na redação do “Diário de Notícias” de Lisboa, tinha de verdade apenas 3.800 caracteres com espaços, quando a tela do computador de lá me dizia que tinha 5.400. Ou seja, dei a coluna como pronta, embora estranhasse a rapidez com que ela chegou ao seu limite, sem saber que, na redação do GLOBO, seria preciso um certo malabarismo gráfico para fazer com que ela preenchesse o espaço habitual devido. Sabemos que os portugueses falam a nossa mesma língua muitas vezes com outra lógica, mas não consigo atinar qual lógica aritmética fez com que o mesmo número de letras resultasse numa cifra tão diferente.

O fato é que, indo ao Rio esta semana para falar no evento “Forma e sentido contemporâneo”, muitas pessoas me falavam da coluna, que dizia das agruras de eu ter assistido à partida final da Libertadores da América em Portugal. Havia nos comentários certa leveza e quase um certo alívio, que se ligava certamente ao tom circunstancial e quase anedótico do assunto — o desejo de ver uma partida de futebol em condições adversas, e isso resultar afinal na conquista de um título longamente esperado por todos os santistas. O Santos é um clube que não sofre muita rejeição, e muita gente comemora, ao contrário, o fato de ele ser um brotadouro cíclico de craques atacantes.

Mas não pude deixar de ouvir com humor o comentário de que eu tinha “achado a medida”, justamente quando eu a tinha perdido por um equívoco numérico. A minha sensação de que o assunto parava no meio não pareceu impressionar ninguém. Às vezes o que vale mesmo é o efeito geral da impressão rápida e, nesse caso, mais a comemoração compartilhada do que a sequência de algum argumento. O generoso tamanho dessas colunas exige, no entanto, que a gente faça mais do que apenas um gesto, um toque e um sinal. Eis-me de volta, portanto, aos 5.400 toques. Conformemse os que me preferiam mais leve e solto na faixa dos 3.800.

A poesia contemporânea, desafiador assunto da palestra no Rio, não caberia nem em 50 mil. Vamos deixá-la para o futuro livro do evento e voltar a Portugal, onde tive que me haver com Noel Rosa no jardim de inverno do Teatro São Luís, em comemoração ao centenário do seu nascimento promovida pela embaixada brasileira e pela Casa da América Latina.

Não tenho intimidade longa com a música de Noel. É claro que a conheço, mas nunca tinha parado diante dele, para me espantar o bastante. Podese perguntar como pôde ter composto tudo aquilo entre os 19 e os 26 anos, e essa é uma questão de extraordinária prontidão criativa, de “prontidão e outras bossas”, para falar com ele. Mas ao falar que “o samba, a prontidão e outras bossas/ são nossas coisas/ são coisas nossas” a mesma palavra já ganha imediatamente outras dimensões e polivalências. Porque “prontidão” é presteza, esperteza, rapidez de mente e de corpo, mas também “dureza”, carência, falta de dinheiro. Que essas sobras e essas faltas sejam uma condensação das coisas tantas que ele elenca como sendo brasileiras, e que desfilem de modo lírico e irônico por uma bela melodia descendente, com fluência, irradiando bossa e agudeza crítica, tudo isso já nos leva a uma pergunta maior: de onde surgiu, como foi possível esse salto poético na nossa palavra cantada, que parece repentino demais?

Luiz Tatit diz em “O cancionista — composição de canções no Brasil”, que as composições de Sinhô, anteriores às de Noel, irradiam já extrema habilidade e naturalidade. Isso quer dizer maestria técnica e intuição da curva entoativa, da música da fala, de quem canta cada palavra com a naturalidade de quem as diz. Novamente Noel: “Tudo aquilo que o malandro pronuncia/ com voz macia/ é brasileiro/ já passou de português.” Ou seja, Noel Rosa levou adiante, nos anos 30, aquela disposição entoativa que a música popular urbana já conquistava nos anos 20, e a “teorizou”: essa pronúncia entoativa da fala, essa dicção brasileira do idioma, é uma conquista da canção, uma conquista do samba.

Mas, ainda segundo Tatit, Noel acrescenta à naturalidade (tornada autoconsciente) e à habilidade (tornada virtuosística), dos seus predecessores, uma inédita profundidade. Ela está certamente nas múltiplas dimensões do som e do sentido das palavras, mas também na capacidade de narrar, nos poucos minutos em que dura uma canção (como acontece por exemplo em “Último desejo”), uma situação que envolve a vida inteira dos seus personagens , em muitas camadas da existência.

Genialidade não se explica, mas talvez se situe: na sua origem de baixa classe média letrada, com a mãe professora, com o horizonte de uma faculdade na qual ele só entrou para sair (como os futuros cancionistas da MPB dos anos 60), naquela zona de transição que é Vila Isabel, Noel foi um primeiro mediador cultural entre estratos orais e escritos da vida do Rio. Se ele quis superar os feitiços populares da cachaça, da vela e do vintém no sublimado “feitiço decente” da Vila, é curioso que tenha dito numa entrevista (ver “Feitiço decente” de Carlos Sandroni) que o academismo literário era também cheio de sortilégios e feitiços, cheios, em suma, de um fetichismo da letra que deveria se dobrar diante do feitiço do samba.

Fiquei sabendo em Lisboa que Fernando Pessoa disse mais de uma vez que Catulo da Paixão Cearense deveria receber o prêmio Nobel. Estou convicto de que era um aceno, mesmo que jocoso, em direção ao fenômeno virtual da música brasileira, na versão ainda híbrida e palavrosa da canção cheia de literatice de Catulo. O que diria então de Noel, se chegasse a conhecê-lo?

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