Nono Capítulo do romance “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

NOVE

BARBACIANO NÃO FEZ NADA NEM SAIU DE CASA no dia em que recebeu a notícia de que o presidente estava para chegar. Despachou Japonês e disse para Minervina que não queria ser incomodado. Então se dirigiu ao gabinete, abriu uma gaveta e passou a se ocupar do passado, do irremediavelmente perdido, como as pessoas e as coisas que via naquele maço de fotografias. Era uma pausa para reflexão, pois dentro de algumas horas tomaria uma decisão muito importante para si e para a vida de muita gente de Princeza. A gaveta repousava em suas pernas e ele ia tirando coisa por coisa, numa vagarosidade de débil mental. Tudo estava imantado, pejado de recordações, umas boas e outras más, que a vida toda não é feita só de venturas e gozos. Passado era aquilo: tudo o que poderia ter sido, mas não foi. E se não foi, que não se credite à falta de jeito. Ele bem que tentou, fez de tudo, mas a vida — o sujeito só descobre mais tarde — é canalha e de viés.

O coronel quase nunca se reconhece nos retratos, pois os anos vão recobrindo o corpo, sedimentando ano a ano uma capa de gordura, a pele fica murcha, os olhos se embaçam e secam as lágrimas. Num daqueles retratos, ele está se rindo. E se ri com gosto, para exibir nos dentes o brilho retirado das rochas a bico de pixote, o ouro acordado de seu sono mineral a marretadas e dinamite, o ouro da Cachoeira de Minas, recordação dos dois anos dando duro no garimpo. Aqueles caninos foram um dia peças de muita serventia: armavam a boca e mantinham a cara esticada, o rosto da juventude.

Tempo de fartura era aquele quando o Princeza Café vivia cheio de raparigas francesas e polacas. Elas faziam a felicidade dos homens em troca das pepitas de Cachoeira das Minas. Deus misericordioso e bom fez o ouro e o espalhou dentro da terra para que os homens o apanhassem e depois fossem se divertir com as mulheres. Bons tempos aqueles, o jovem Barbaciano de dentes afiados como os de um felino no sonho das primeiras caçadas. Os jardins, o portão, o detrás-do-muro, o esconde-esconde. Ao leve toque dos seus dentes, os poros das mulheres se abriam de oferecidos, como os esporos da flor às patas das abelhas.

As mordidas pra valer só mesmo quando se metia em brigas. Barbaciano descobrira muito cedo que os dentes eram uma arma. E foi numa briga dessas que ele matou um homem. A munição acabou e eles pegaram as facas. Quando não havia mais facas, se abufelaram e rolaram pelo chão e devastaram quase um hectare de mato ralo, capoeira baixa. Barbaciano fechou os dentes na garganta do sujeito, em cima do nó da goela. O sujeito se estrebuchou todo como um rato na boca de um gato. Depois se aquietou. Quando Barbaciano o soltou, trouxe preso na boca uns quinze centímetros do esôfago do desgraçado. O pai Teodósio, depois disso, o condenou a dois anos de trabalho forçado no garimpo. A banqueta do rapaz foi a mais sovina de todas as que o velho mantinha na ribeira do Bruscas. Mas a vida dura começou a ficar mole quando Barbaciano descobriu os banhos de riacho da mulher do francês, na banqueta vizinha.

A mulher desentrançava os cabelos longos e louros com as pontas dos dedos e parecia a Iara, “a grande senhora das águas e dos sumidouros”, que era como o poeta Severino Augusto invocava a Mãe-d’água, senhora de todos os riachos, córregos e grotas que desaguavam no Bruscas, o rio que pariu aquelas várzeas, terras que lhe deixara de herança o avô. Nas noites de inverno, a alma do velho se plantava nas cabeceiras do rio e ficava aboiando os trovões e amontoando as nuvens acima de sua cabeça. Quando o fogo dos relâmpagos fatiava o céu de cima a baixo, todos diziam que era o velho brigando com Deus, brigando para ter mais água na calha do Bruscas, água bastante para esfolar o chão e deixar o ouro espalhado à flor da terra, ouro suficiente para o neto ficar rico e tocar a vida na maciota das farras e das cantorias. Um dia, voltando de Jericó, ao atravessar o rio, num poço grande rodeado de ingazeiras, Severino Augusto deparou-se com a Mãe-d’água. Ela penteava as madeixas longas e cantava uma cantiga tão suave e tão do outro mundo que o poço todo se iluminou e as borboletas, abelhas, ziguezigues e pássaros de toda espécie se atiravam nas águas para a morte, enquanto a bela Iara, tranquila, saudava o sol.

Dos seis rapazes, somente Severino Augusto escapou com vida. Ele lembrou-se do acontecido com seu avô que havia lhe ensinado a tampar os ouvidos para não escutar a cantiga enfeitiçada. Dizem que o velho foi o único homem em cima do chão a pegar a Iara. A primeira vez que ele viu a dita no poço, entupiu os ouvidos com algodão para não entrar água, fez carreira e mergulhou. A Mãe-d’água deu uns pinotes, que o poço todo ficou barrento. Besteira espernear. Desse dia em diante se ficou sabendo que a Mãe-d’água havia deixado de ser donzela, uma espécie de moça-d’água. Foi depois daquele mergulho que a Iara virou mulher, uma mulher-d’água.

A camarada do francês tomava banho e Barbaciano cozinhava em fogo lento por detrás das bananeiras. Seus olhos nadavam de um peito a outro – de braço, cachorrinho, de costas, de ladinho, de quatro, papai-e-mamãe – e escorregavam no lodo da pele alva, indo mergulhar na enseada do baixo-ventre, nos remansos da represa do umbigo. Um pouco mais abaixo, onde desembocavam as águas e havia um tufo de relva da cor de cobre, foi aí onde Barbaciano, afluente, desaguou sua vontade. Ele teve a sensação de estar urinando, então abriu a calça e segurou o com-que-mija e o apontou para o chão, mas o negócio forçou subida por ânimo próprio. Barbaciano tornou a abaixá-lo, mas o troço resistia. E ele olhava a mulher na mais doce naturalidade. Com pouco mais a vista escureceu, veio a tremelica nas pernas, seguida de um abrasamento pinicando lá por dentro e a impressão de estar mijando do tanto do rio Bruscas depois de uma noite de inverno; e com direito a trovões no coração, fagulhas e estrelas cadentes no firmamento dos olhos.

Barbaciano exibia os dentes de ouro quando ria. E, para ver agora os dentes de ouro na sua boca, só dando um coice no tempo que o velho relógio de parede mastigou pacientemente segundo por segundo, aí então é que se tornaria possível testemunhar Barbaciano no dia em que recebeu a patente de coronel da guarda nacional assinada pelo presidente do Brasil. O pai em cima de uma cama sem reconhecer mais os de casa, chamando os mortos que estariam ali para levá-lo. Barbaciano se angustiava com a proximidade avassaladora da morte e até recomendara ao padre que providenciasse a extrema unção caso o velho batesse as botas antes dele voltar da capital. Tinha uma audiência com o monsenhor-presidente, precisava comunicar-lhe sobre quem a partir daquele dia estaria mandando em Princeza.

— Bravo, rapaz, que Deus te abençoe – disse o monsenhor em sua cadeira-de-rodas — e Barbaciano riu-se, mas não o fora para mostrar os dentes. Foi um riso tenso e nervoso, tanto que nem deu por si quando a máquina do retratista estalou e soltou fumaça.

Na volta, Barbaciano avistou uma multidão diante da casa do pai e imaginou o pior. Recebera a extrema-unção no começo da madrugada, vindo a fechar os olhos definitivamente quando o sol saiu. Caduco, o velho acabou descansando daquela maratona diária no jardim do casarão fazendo discursos para os anjos que ele próprio mandara talhar em pedra, pois sendo feitos de tal matéria, “jamais voariam do quintal”, dizia. Todo dia ele falava com os anjos e com o menino de mármore da fonte e seu jato eterno, mas eram os dois jabutis os únicos que prestavam atenção na profundidade de suas palavras. E Teodósio imitava o menino mijão e dizia que ali era o parlamento – foi deputado provincial por três legislaturas – e tome esculhambação nos desafetos do imperador, os traidores republicanos com suas ideias reformistas. Todos os dias ele ia à tribuna e cumpria com sua obrigação de representante do povo.

O monsenhor-presidente morreu no mesmo dia que Teodósio, ao relento, na beira do rio Sanhauá, sem sair de sua cadeira-de-rodas. Manifestara o desejo de visitar o rio ver as obras do novo porto. Precisava em breve inaugurá-lo.

— Não, excelência, o médico recomendou repouso absoluto — disse-lhe o secretário.

— Vamos — insistiu o monsenhor.

O chofer seguiu a avenida que beirava o rio até o Varadouro. Quando o carro parou, o velho ajustou os óculos e o que viu foi a lama escura à margem do estuário e o trapiche de tábuas podres onde os pescadores amarravam suas canoas. Ele limpou os óculos e olhou bem. Ao fundo, o mangue denso, verde, e as águas do Paraíba descendo ligeiras, na gravidade do instante, atendendo ao chamado legal da baixa-mar.

– Cadê o porto? – perguntou.

Sem ter uma resposta, o funcionário jogou os olhos dentro d’água, olhos de peixe morto, como a desejar que o rio lavasse a sua cara, ou então que a levasse água abaixo, de tanta vergonha. O monsenhor só fez derrear a cabeça e morrer.

Ele recebia relatórios mensais dando conta do adiantado das obras e em seguida telegrafava para o ministro, prestando contas da aplicação dos recursos. Ele sempre confiara nos seus auxiliares. Agora estava comprovado: não havia nada na embocadura do Paraíba, desde Cabedelo até Ilha do Bispo e Santa Rita do Tibiry. O senador, que tinha conseguido a verba, e tratado, ele próprio, de abocanhá-la, empurrou o sobrinho goela abaixo do povo da Paraíba. Nomeado presidente, o sobrinho continuaria a remeter relatórios e mais relatórios para o governo federal e, por fim, a fotografia de um porto qualquer de algum lugar. E ficou tudo por isso mesmo.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo