O perfume no Cangaço

Lampião foi o rei do Cangaço e praticou muitos crimes. Tinha seu lado de dândi e abusava do perfume francês Fleur d’Amour. Vestia-se muito bem e era leitor assíduo das revistas O Cruzeiro, FonFon e Noite Ilustrada, de onde criou o gosto pela fotografia. Carregava sempre um livro de Papini e era um devoto de Padre Cícero. O perfume denunciava os cangaceiros ao longe – debaixo da concha celeste, banhados por um sol inclemente de se arrepiar.

O filme “Baile Perfumado”, dos diretores Lírio Ferreira e Paulo Caldas, faz alusão aos bailes perfumados dos cangaceiros entre uma peleja e outra. Esse filme narra a história do mascate libanês Benjamin Abrahão que se embrenhou na caatinga e conseguiu filmar o bando de Lampião deixando imagens inestimáveis para conhecimento dessa grande saga.

Ao contrário dos sertanejos da época, os cangaceiros valorizavam o enfeite. Usavam brincos, anéis, colares e lenços estampados de seda inglesa ou tafetá francês. Muitos dos pertences do Lampião eram bordados com a sigla C.V.F.L. (Capitão Virgulino Ferreira Lampião).

A indumentária dos cangaceiros trazia uma rica carga simbólica. O Chapéu de Couro com a estrela hexagonal de Salomão era inspirado no chapéu de Napoleão Bonaparte, de quem o “Rei do Cangaço” conhecia a biografia e muito admirava. As armas dos cangaceiros eram ricamente cravadas de ouro e prata. Suas roupas tinham inspiração nos cavaleiros medievais e os bornais e cantis eram ricamente bordados com temas da caatinga.

Essa carga artística dos trajes dos cangaceiros representa o que Gilberto Freyre chamava “‘arte de projeção do homem”. O homem a carregar consigo sua própria arte, sem vergonha da sua condição de bandoleiro e assassino.

Estética do Cangaço

Foram esses ricos elementos contidos na indumentária dos cangaceiros nordestinos que motivaram o historiador Frederico Pernambucano de Mello, a escrever o belo livro “Estrelas de Couro: A Estética do Cangaço”, com prefácio de Ariano Suassuna.

O Livro é enriquecido com 300 imagens da saga lampiônica e 160 fotografias de objetos de uso pessoal dos cangaceiros. A maior parte desses objetos é da coleção particular de Frederico e já foram expostos no Brasil e exterior.

O livro é um ensaio de caráter interdisciplinar e mostra a rica estética do cangaço. Uma estética que se espraiou no grande cinema de Glauber Rocha e pintura de Aldemir Martins. A valentia desses homens povoa o imaginário dos nordestinos e fornece material para centenas de cordéis e rico artesanato. Uma saga que deita raízes no substrato de uma terra onde homens faziam justiça por si mesmo, por vingança, posses ou motivos políticos.

As armas usadas pelo rei do Cangaço, morto em 1938 por traição de um dos seus protetores, eram ornamentadas de ouro e prata. A vestimenta dos cangaceiros era rica, colorida e vistosa.

Armas e bordados

As armas usadas pelo rei do Cangaço, morto em 1938 por traição de um dos seus protetores, eram ornamentadas de ouro e prata. A vestimenta dos cangaceiros era rica, colorida e vistosa.

O Chapéu quebrado na frente e atrás, continham “três barbelas”: a testeira que era ajaezada com moedas de ouro e prata, e trazia a estrela hexagonal de Salomão; o barbicacho dianteiro, saindo das laterais e unindo as duas fitas de couro e o barbicacho traseiro, continuação da testeira, também enfeitado de moedas. Essas barbelas davam segurança ao chapéu e não permitia que ele caísse nos movimentos bruscos.

Em torno do pescoço, os cangaceiros usavam lenço de tecido valioso, que podia ser seda. Lampião preferia tafetá francês. Esse lenço era preso por um anel ou aliança de metal nobre. Os cangaceiros usavam o termo “jabiraca” para designar essa bela indumentária.

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Eles eram vaidosos e usavam brincos e colares, sem vergonha da posição de bandoleiros. Homens e mulheres usavam até três anéis por dedo. Os cangaceiros vestiam-se de brim cáqui ou mescla azul. Lampião preferia cinza e costurava com uma máquina Singer. Os cangaceiros usavam túnica e calça de cintura alta acima do tornozelo (pega bode). Quando o tempo esfriava, podiam vestir até três calças.

Por cima da túnica, o cangaceiro cruzava diagonalmente duas cobertas feitas de bramantes estampados de padrões coloridos, forrados de chita branca. Uma coberta era para deitar e outra, para cobrir. As mulheres entraram para o cangaço em 1929/30 e eram muito respeitadas. Suas saias ficavam acima do joelho, numa ousadia para a época.

Sobre as cobertas, colocavam bornais, também chamados embornais. Eram bolsas coloridas e de belos desenhos nas abas. Nos bornais eram colocados alimentos: Carne seca, farinha e queijo.

Objetos encontrados com o Rei do Cangaço

As alpercatas de rabicho e tangerino eram ricamente desenhadas e confeccionadas em couro. Quando ia para a rua, Lampião usava sandália de couro esmaltado. Dadá “a musa do cangaço” , esposa de Corisco, era a estilista do grupo e trouxe flores e outros motivos para a indumentária dos cangaceiros.

Eles eram vaidosos e usavam brincos e colares, sem vergonha da posição de bandoleiros. Homens e mulheres usavam até três anéis por dedo. Os cangaceiros vestiam-se de brim cáqui ou mescla azul. Lampião preferia cinza e costurava com uma máquina Singer.

As armas eram cravejadas de moedas de ouro e a cartucheira de ombro era funcional. Entre o corpo e a cartucheira era inserido um punhal de três quinas ou achatados. A empunhadura do punhal era ricamente ornamentada em ouro e prata. O facão que o cangaceiro trazia na altura da cintura servia de ferramenta.

O chapéu de couro do capitão Virgulino, vulgo Lampião, morto na Grota dos Angicos em Sergipe (1938), tinha abas ornamentadas em alto-relevo com seis sinos de Salomão, barbicacho de couro de 46 centímetros de comprimento e ornado em ambos os lados com cinqüentas peças de ouro.

Lampião tinha três anéis: um de pedra verde, outro uma aliança e o terceiro de identidade gravado “ Santinha”. A testeira de ouro de quatro centímetros de largura e vinte e dois centímetros de comprimento, onde eram afixadas moedas e medalhas – duas com gravações “ “Deus te Guie” , duas libras esterlinas, uma moeda brasileira de ouro, com a efígie de Petrus II, de 1855 e mais duas outras moedas em ouro.

O mosquetão-Mauser modelo 1908, com bandoleira enfeitada com sete escudos de prata de Império. A faca de folha de aço, com sessenta e sete centímetros de comprimento, com cabo e terço de níquel, adornado com três anéis de ouro; bainha toda de níquel com forro interno de couro. A cartucheira era de couro com enfeites de costumes da caatinga. Um apito de metal amarelo preso a uma corrente de prata.

Com Lampião foram encontrados vários bornais. Todos com desenhos de várias cores bordado a máquina. Um deles tinha botões de ouro e prata. No suspensório nove botões de prata e apenso num dos bornais uma caixa de folha- de- flandres, coberta com o mesmo pano dos bornais e também bordado à máquina.

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