Noronha: O paraíso bem ali – I

Escrevo este texto enquanto sinto que a tela do computador flutua, oscila horizontalmente diante dos meus olhos. Certamente, ainda são os efeitos dos quatro maravilhosos dias em Fernando de Noronha, todos eles intercalados por mergulhos e passeios em embarcações, vendo as maravilhas da natureza, acima e abaixo do mar. Escrevo, ao tempo em que ouço a voz dos ventos natalenses e penso que se trata do barulho rouco dos mares de Noronha. Lembro do “urro do leão”, saindo da fenda na rocha atingida pelas ondas em moto contínuo. A saudade já é grande. Saí do que chamam por lá de “euforonha”, jamais entrei na “neuronha”. A exuberância natural daquele lugar nos contaminou eternamente de sonho e magia. Eu, minha mulher e os meus filhos estamos marcados positivamente por aquele conjunto insuperável de belezas, luz e cor.

Uma horinha de viagem num turbo-hélice de tamanho mediano (não nego certa tensão silenciosa motivada pela falta de costume nessas aeronaves diminutas), desde o aeroporto de São Gonçalo até o pequenino aeroporto de Noronha, eis que ingressamos num outro mundo, num planeta diferente. Tudo ali é fora de série. Tudo é especial e mágico. A natureza construiu aquilo e depois foi ensinar Michelangelo a fazer as suas esculturas e afrescos. Fernando de Noronha é uma catedral estética aberta ao mundo. Os pescadores e mergulhadores têm essa noção precisa e vivem em meio a uma alegria marcante. Não sei se os que trabalham em terra têm esse componente psicológico tão evidenciado nos trabalhadores do mar. Há algo que os diferencia. Estive com gente marejada em pleno solo. As gentes do mar jamais demonstram enjoo. Paradoxos e controvérsias de Noronha.

Outro aspecto paradoxal parte da pergunta mil vezes repetida: Por que Noronha não pertence ao Rio Grande do Norte, sendo tão mais perto daqui do que de Pernambuco? Explicações que a inexplicável política talvez possa dar. Interessante é que quando estamos em mar aberto e aparece um sinal de celular, é sinal de celular do RN. E aí? A pergunta continua palpitando, latejando como os ouvidos da gente que mergulha até mais que dez metros, com cilindro e tudo, para ver as bonitezas guardadas ali debaixo d’água. A água cristalina nos permite ver peixes de toda espécie, arraias, pequenos tubarões-lixa, tartarugas, corais, navio afundado, mistérios do mar e do tempo. Um cenário simplesmente maravilhoso e a sensação de que estamos na barriga da mãe. Exuberância e êxtase são palavras que casam em meio a essa realidade transcendental.

A quantos acontecimentos milagrosos assistimos em Noronha? Perdemos a conta. Desde um jovem pedindo a mão de sua namorada em casamento, com o crepúsculo vespertino no Boldró, como tela de fundo; passando por uma celebração mesma de casamento à beira-mar, na Cacimba do Padre. Também o baile dos alcatrazes no Sancho e dos mergulhões pescando os seus peixinhos à flor da água na Baía dos Porcos; a dança das tartarugas, quase um voo, seres planando em coreografia subaquática; tudo, todos os rituais embevecem, inebriam, extasiam. Noronha é assim.

A noite ingressando no lusco-fusco de uma vila escura, porém alegre e festiva. Guarda Noronha, nessa hora e nas que seguem pela madrugada, outros dos seus mistérios: o brilho intenso, em flash, dos olhos dos gatos nos telhados; a sensualidade dos casais, que exala cheiros por toda a ilha. Todos os lugares em Noronha são dignos do amor. Os que amam e os que sentem a poesia no ar sabem disso.

FOTOGRAFIA DE CAPA: Lívio Oliveira

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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